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OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
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Fernando Pessoa

Quanto fui peregrino

Quanto fui peregrino

Do meu próprio destino!

Quanta vez desprezei

O lar que sempre amei!

Quanta vez rejeitando

O que quisera ter,

Fiz dos versos um brando

Refúgio de não ser!

E quanta vez, sabendo

Que a mim estava esquecendo,

E que quanto vivi —

Tanto era o que perdi —

Como o orgulhoso pobre

Ao rejeitado lar

Volvi o olhar, vil nobre

Fidalgo só no chorar...

Mas quanta vez descrente

Do ser insubsistente

Com que no Carnaval

Da minha alma irreal

Vestira o que sentisse

Vi quem era quem não sou

E tudo o que não disse

Os olhos me turvou...

Então, a sós comigo,

Sem me ter por amigo,

Criança ao pé dos céus,

Pus a mão na de Deus.

E no mistério escuro

Senti a antiga mão

Guiar-me, e fui seguro

Como a quem deram pão.

Por isso, a cada passo

Que meu ser triste e lasso

Sente sair do bem

Que a alma, se é própria, tem,

Minha mão de criança

Sem medo nem esperança

Para aquele que sou

Dou na de Deus e vou.

7-10-1930

Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).

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