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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Diana atrav&#233;s dos ramos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espreita a vinda de Endymion&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Endymion que nunca vem,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Endymion, Endymion,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;L&#225; longe na floresta&#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a sua voz chamando&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Exclama atrav&#233;s dos ramos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Endymion, Endymion&#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Assim choram os deuses&#8230;&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>70</pagina>
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    <titulo>Diana atrav&#233;s dos ramos
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A REFORMA DO CALEND&#193;RIO E AS SUAS CONSEQU&#202;NCIAS COMERCIAIS&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A Comiss&#227;o Especial de Inqu&#233;rito &#224; Reforma do Calend&#225;rio, estabelecida pela Sociedade das Na&#231;&#245;es em 1924, acaba de publicar o seu Relat&#243;rio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Comiss&#227;o era composta do Prof. van Eysinga, da Universidade de Leyden (presidente); Rev. T.E.R. Philips, secret&#225;rio da Real Sociedade Astron&#243;mica de Londres, nomeado pelo Arcebispo de Canterbury, chefe da Igreja Inglesa; Rev. P. Gianfranceschi, presidente da Academia &lt;i&gt;dei&lt;/i&gt; &lt;i&gt;Nuovi Lincei, &lt;/i&gt;nomeado pela Santa S&#233;; Prof. Eginitis, director do Observat&#243;rio de Atenas, representando o Patriarca Ecum&#233;nico de Constantinopla; o Sr. Bigourden, antigo presidente da Comiss&#227;o de Calend&#225;rio da Uni&#227;o Astron&#243;mica Internacional; e o Sr. Willis H. Booth, antigo presidente da C&#226;mara Internacional de Com&#233;rcio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A comiss&#227;o teve que examinar 185 projectos de Reforma do calend&#225;rio actual, apresentadas por 33 pa&#237;ses diferentes, dos 56 que pertencem &#224; Sociedade das Na&#231;&#245;es. Responderam ao question&#225;rio detalhado, que se expediu aos 56 pa&#237;ses e v&#225;rias entidades religiosas e n&#227;o religiosas em todo o mundo, 27 governos, 26 organiza&#231;&#245;es internacionais (incluindo os variados comit&#233;s nacionais da C&#226;mara Internacional de Com&#233;rcio), 18 administra&#231;&#245;es de caminhos-de-ferro, reparti&#231;&#245;es de instru&#231;&#227;o p&#250;blica de 23 pa&#237;ses, e outras organiza&#231;&#245;es que h&#225; menos interesse em citar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A origem deste inqu&#233;rito, cujas consequ&#234;ncias pr&#225;ticas e at&#233; comerciais conv&#233;m n&#227;o deixar de meditar, reside no car&#225;cter irregular e defeituoso do Calend&#225;rio Gregoriano, que presentemente nos mede o tempo. Os defeitos evidentes e capitais do actual calend&#225;rio s&#227;o, na opini&#227;o da Comiss&#227;o relatora, a desigualdade dos seus meses, trimestres e semestres, e a sua aus&#234;ncia de &#8220;fixidade&#8221;. Os meses variam, como toda a gente sabe, quanto ao n&#250;mero de dias de que se comp&#245;em, e que v&#227;o de 28 a 31, desordenadamente. Os trimestres comp&#245;em-se, em sua sequ&#234;ncia dentro do ano, de 90 (91 em ano bissexto), 91, 92 e 92 dias. Isto, afirma a Comiss&#227;o, &#233; causa de confus&#227;o e de incerteza nas rela&#231;&#245;es econ&#243;micas, nas estat&#237;sticas, nas contas, nos dados que registam os movimentos de com&#233;rcio e de tr&#225;fico. Tamb&#233;m os c&#225;lculos de sal&#225;rios, de juros, de pr&#233;mios de seguro, de pens&#245;es, alugueres e rendas, que se estabele&#231;am numa base mensal, trimestral ou semestral, resultam necessariamente err&#243;neos, por isso que n&#227;o correspondem propriamente a per&#237;odos de um duod&#233;cimo, de um quarto ou de metade do ano. Para fazer, com relativo acerto e rapidez, c&#225;lculos di&#225;rios em contas-correntes, t&#234;m os bancos que servir-se de tabelas especiais. Al&#233;m disso, a desigual composi&#231;&#227;o dos meses tem levado as firmas financeiras, na maioria dos pa&#237;ses europeus, a calcular as contas-dep&#243;sito e correntes na base do ano de 12 meses e 30 dias, ou sejam, 360 dias, ao passo que no desconto de letras se conta o ano com o seu n&#250;mero exacto de dias. Todas estas circunst&#226;ncias assumem propor&#231;&#245;es quase tr&#225;gicas no relat&#243;rio da Comiss&#227;o, e a trag&#233;dia aumenta quando se chega a considerar a falta de fixidez do calend&#225;rio actual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Devido &#224; circunst&#226;ncia de que o calend&#225;rio actual n&#227;o &#233; &#8220;fixo&#8221;, mas varia de ano para ano, a sua reprodu&#231;&#227;o exacta d&#225;-se apenas de 28 em 28 anos. Em virtude disto, n&#227;o podem as datas de acontecimentos peri&#243;dicos ser, em qualquer caso, claramente determinadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada ano, exemplifica a Comiss&#227;o, t&#234;m as inst&#226;ncias oficiais que fazer um estudo especial para actos como a convoca&#231;&#227;o do Parlamento (ingl&#234;s), as datas de feriados, as de mercados e de feiras, ou a fixa&#231;&#227;o da hora de &#8220;Ver&#227;o&#8221; &#8212; tudo, como o leitor est&#225; vendo, de transcendente import&#226;ncia para o presente e o futuro da humanidade. Ora, se o calend&#225;rio fosse &#8220;fixado&#8221;, as datas destes grandes acontecimentos ficariam tamb&#233;m &#8220;fixadas&#8221;, duma vez para sempre. Finalmente &#8212; e &#233; esta talvez a principal desvantagem do ponto de vista estat&#237;stico e comercial &#8212;, n&#227;o &#233; poss&#237;vel uma verdadeira compara&#231;&#227;o estat&#237;stica entre as pr&#243;prias subdivis&#245;es do ano &#8212; meses, trimestres, semestres.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Na opini&#227;o da Comiss&#227;o, &#171;a aten&#231;&#227;o do p&#250;blico, de cuja aprova&#231;&#227;o tem que depender qualquer reforma do calend&#225;rio, deve ser chamada exclusivamente (para que possa compreender as suas respectivas vantagens e desvantagens) sobre os princ&#237;pios fundamentais de tr&#234;s principais sistemas de reforma&#187;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ano comp&#245;e-se de 52 semanas &#8212; ou sejam 364 dias &#8212;, mais 1 ou 2 dias a mais conforme o ano seja normal ou bissexto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por isso o problema primacial que, no ver da Comiss&#227;o, confronta o reformador, &#233; o que &#233; que h&#225;-de fazer-se deste um dia, ou dois dias, a mais&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os &#8220;tr&#234;s principais sistemas de reforma&#8221;, a que a Comiss&#227;o alude no excerto acima feito, foram assim resumidos oficiosamente com uma clareza que nos dispensa de tentar outro assunto:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Primeiro sistema: Reforma simples. &lt;/i&gt;&#8212; O primeiro dos tr&#234;s principais sistemas de reforma escolhidos pela Comiss&#227;o esfor&#231;a-se por simplificar a reforma o mais poss&#237;vel e por causar a menor perturba&#231;&#227;o nos h&#225;bitos e costumes correntes, pelo processo de igualiza&#231;&#227;o de tr&#234;s dos quatro trimestres de que o ano se comp&#245;e.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#187;Assim, cada um dos primeiros trimestres do ano poderia compor-se de 91 dias, ou tr&#234;s meses de 30, 30 e 31 dias. O dia suplementar (o 365.&#186;) seria acrescentado no quarto trimestre, que poderia pois compor-se de tr&#234;s meses de 30, 31, e 31 dias (32 em anos bissextos). Este nivelamento dos trimestres teria reais vantagens do ponto de vista das estat&#237;sticas trimestrais, das transac&#231;&#245;es da Bolsa, das contas banc&#225;rias e das m&#233;dias meteorol&#243;gicas. Acresce que se simplificariam bastante os c&#225;lculos para averiguar o dia da semana em que cai cada data. Assim, se o 1.&#186; de Janeiro for domingo, o 1.&#186; de Fevereiro ser&#225; ter&#231;a-feira, o 1.&#186; de Mar&#231;o quinta-feira, e assim sucessivamente. Finalmente, esse sistema &#233; o que menos altera a tradi&#231;&#227;o. A quest&#227;o, por&#233;m, &#233; se as suas vantagens, que s&#227;o menores que as dos outros dois sistemas, bastam para justificar a mudan&#231;a.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#187;O segundo e terceiro sistemas principais, n&#227;o s&#243; possuem todas as vantagens do primeiro sistema, quanto &#224; igualiza&#231;&#227;o das divis&#245;es do ano, mas, al&#233;m disso, estabelecem um calend&#225;rio perp&#233;tuo e rectificam de todo o calend&#225;rio presente. Este resultado obt&#233;m-se tornando o dia suplementar do ano (o 365.&#186;) um dia em branco &#8212; isto &#233;, pondo-o fora da semana, como, por exemplo, entre 31 de Dezembro e 1 de Janeiro. A introdu&#231;&#227;o do dia em branco quebra, por&#233;m, a perpetuidade do ciclo das semanas, e levanta certas dificuldades de ordem religiosa, sobretudo nos meios judaicos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;&#187;Segundo sistema: Reforma parciaL &#8212; &lt;/i&gt;Seria o ano dividido em quatro trimestres iguais de 91 dias, compondo-se cada trimestre de tr&#234;s meses de 30, 30 e 31 dias (exactamente como os tr&#234;s primeiros trimestres do primeiro sistema). O dia suplementar do ano (o 365.&#186;) seria contado fora da semana. Poder-se-ia chamar-lhe Dia de Ano Novo, e faz&#234;-lo preceder o dia 1 de Janeiro; e o outro dia no ano bissexto poderia, do mesmo modo, preceder o dia 1 de Julho e chamar-se Dia de Ano Bissexto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#187;Por este processo s&#227;o iguais todos os trimestres e semestres. Cada m&#234;s cont&#233;m o mesmo n&#250;mero de dias &#250;teis. Os meses, por&#233;m, n&#227;o s&#227;o iguais, nem cont&#234;m um n&#250;mero completo de semanas. Al&#233;m disso, as datas n&#227;o caem no mesmo dia da semana em cada m&#234;s, ao passo que a compara&#231;&#227;o estat&#237;stica de datas futuras com datas passadas, sendo menos complicada que no sistema dos treze meses, &#233; mais complicada que no primeiro sistema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;&#187;Terceiro sistema: Reforma radical. &#8212; &lt;/i&gt;Os processos que pertencem a este sistema dividem o ano em 13 meses de 28 dias, ou 4 semanas certas, cada um, o que perfaz um total de 52 semanas, ou 364 dias. Sobra um dia (o 365.&#186;), que fica fora da semana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#187;Como no segundo sistema, este "dia em branco" poderia inserir-se entre o 28.&#186; dia do 13.&#186; m&#234;s e o 1.&#186; dia do 1.&#186; m&#234;s do ano seguinte, ou em qualquer outra altura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#187;Este calend&#225;rio seria perp&#233;tuo, pois os dias da semana cairiam nas mesmas datas em todos os meses. Quer dizer, se o 1.&#186; de Janeiro for domingo, domingo ser&#225; tamb&#233;m o primeiro dia de todos os treze meses do ano. Todos os meses s&#227;o iguais, e t&#234;m o mesmo n&#250;mero de semanas, de dias &#250;teis e de domingos. Os per&#237;odos para os quais se calculam os sal&#225;rios correspondem exactamente aos per&#237;odos de despesa. Finalmente, o facto de que todos os meses s&#227;o iguais tem grandes vantagens do ponto de vista das estat&#237;sticas mensais. H&#225;, por&#233;m, a considerar que 13 n&#227;o &#233; divis&#237;vel por 2, 3, 4 ou 6; que os &#8220;trimestres&#8221; do ano, ainda que iguais, n&#227;o cont&#234;m o mesmo n&#250;mero de meses; e que a introdu&#231;&#227;o de um ano de treze meses implica uma mudan&#231;a consider&#225;vel em costumes que datam de milhares de anos, e, em geral, seria preciso um n&#250;mero muito maior de rectifica&#231;&#245;es estat&#237;sticas do que se se mantivesse o sistema dos doze meses.&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cabe aqui transcrever os pr&#243;prios coment&#225;rios da Comiss&#227;o. Diz ela que:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;... geralmente falando, e considerando apenas o valor intr&#237;nseco dos dois &#250;ltimos sistemas principais, o sistema dos treze meses parece de maior utilidade do ponto de vista da estat&#237;stica e do com&#233;rcio, logo que o m&#234;s, e n&#227;o o trimestre, se torne a unidade na vida econ&#243;mica. No caso contr&#225;rio, seria prefer&#237;vel o sistema dos doze meses. Com respeito &#224; possibilidade da sua aplica&#231;&#227;o pr&#225;tica, a investiga&#231;&#227;o preliminar mostra que os v&#225;rios governos se inclinam mais para o sistema dos doze meses, que desarranjaria menos os h&#225;bitos estabelecidos. A maioria dos organismos comerciais parece ser da mesma opini&#227;o. H&#225;, por&#233;m, um n&#250;mero crescente (caminhos-de-ferro ingleses e muitos organismos americanos) que parece favorecer o sistema dos treze meses, e especialmente para ele se inclinam os que usam j&#225; esse sistema como calend&#225;rio auxiliar, e por isso est&#227;o habilitados a avaliar dos seus resultados.&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Na segunda parte do seu relat&#243;rio trata a Comiss&#227;o de uma data fixa para o domingo de P&#225;scoa, que presentemente oscila entre 22 de Mar&#231;o e 25 de Abril &#8212; um per&#237;odo que abrange 35 dias. Das respostas recebidas pela Comiss&#227;o depreende-se que esta irregularidade afecta desfavoravelmente um certo n&#250;mero de ind&#250;strias, e notavelmente as do vestu&#225;rio feminino e masculino, a de sapataria, e a ind&#250;stria de turismo. Tamb&#233;m se queixam algumas institui&#231;&#245;es pedag&#243;gicas que afecta bastante a regularidade do ano escolar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; curioso notar que, segundo o relata a Comiss&#227;o, nenhuma das grandes entidades religiosas mostrou repugnar-lhe, do ponto de vista dogm&#225;tico, a fixa&#231;&#227;o da data da P&#225;scoa. A maioria das respostas recebidas d&#227;o a prefer&#234;ncia ao segundo domingo de Abril. Concordando, em princ&#237;pio, com esta fixa&#231;&#227;o, a Comiss&#227;o adverte, contudo, que o segundo domingo de Abril poderia cair no dia 8, e nesse caso a Festa da Anuncia&#231;&#227;o (25 de Mar&#231;o) cairia no mesmo dia que o domingo de Pascoela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para evitar isto, prop&#245;e a Comiss&#227;o que se fixe para domingo de P&#225;scoa o domingo seguinte ao segundo s&#225;bado de Abril.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No fecho do seu relat&#243;rio, dizem os peritos que formam a Comiss&#227;o que tiveram &#171;impress&#227;o n&#237;tida de que a opini&#227;o p&#250;blica n&#227;o estava preparada, mesmo onde acolhesse bem uma reforma, para sugerir uma reforma imediata num sentido determinado... A opini&#227;o esclarecida e organizada deveria, em cada pa&#237;s, analisar detidamente os princ&#237;pios em que o problema assenta, e s&#243; assim se poderia escolher, quando chegar a ocasi&#227;o, o mais conveniente de entre os v&#225;rios sistemas. Deveria haver, especialmente, um novo exame, da parte das corpora&#231;&#245;es religiosas que entre si se op&#245;em, do princ&#237;pio do "dia em branco"; uma discuss&#227;o do assunto, em cada pa&#237;s, entre essas corpora&#231;&#245;es e outras entidades interessadas na mat&#233;ria; um exame por estat&#237;sticos e economistas da import&#226;ncia relativa da semana e do trimestre como unidades da vida econ&#243;mica, em oposi&#231;&#227;o ao m&#234;s, para se estabelecer uma base para se determinar a escolha entre o ano de doze e o de treze meses; e uma defini&#231;&#227;o das vantagens de uma reforma limitada&#187;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;&#201; tamb&#233;m essencial&#187;, continua a Comiss&#227;o, &#171;que as investiga&#231;&#245;es neste sentido [...] sejam coordenadas e organizadas em cada pa&#237;s numa base oficial ou semioficial. Uma organiza&#231;&#227;o desta esp&#233;cie tornaria poss&#237;vel o formar-se, nos principais pa&#237;ses, aquele corpo de uni&#227;o p&#250;blica que presentemente ainda n&#227;o existe, e sem o qual seria prematuro tentar estabelecer qualquer acordo internacional .&#187;&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ.in &lt;b&gt;Fama&lt;/b&gt;, n&#186;4. Lisboa: 10-3-1933.&lt;/p&gt;
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    <titulo>A REFORMA DO CALEND&#193;RIO E AS SUAS CONSEQU&#202;NCIAS COMERCIAIS
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;The Infinite is then the Possible.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;How does this possible realise itself? How is it realised?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It is realised by numbers. But by how many numbers? By an infinite number of numbers (let the expression pass). The infinite then, in realising itself, realises itself as itself, by itself. In becoming other than itself it does but return to itself. (Cf. Hegel).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Consider, the 1 has nor power to produce the 2, neither cardinally nor ordinally; not cardinally because the 1 is less than the 2, nor ordinally because it supposes the 2.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The infinite is Quantity (in-se). Now numbers are quantity but not quantity-in-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cardinally, the 1 cannot produce the 2, for it is smaller. &lt;i&gt;Note&lt;/i&gt; (Let there no mistake. In our mind thinking of the 1 makes us think, by association, on the 2; but this is in our mind, this is mentally altogether).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It is the 2 that might produce the 1 for it is greater and contains it. But it could not produce the 3, nor the 3 the 4 and so on without stopping. We mount higher and higher, in the scale of numbers without ever attaining, so long as we keep to numbers, the limit which we desire. So we are bound to conceive something taken to be as, by paradox, the highest possible number. (Notice the word &#171;possible&#187;). Now this &#171;highest possible number&#187; is manifestly &lt;i&gt;no number,&lt;/i&gt; for a number has always a number greater than it is. So we are taken to something which will contain and produce all numbers without being, and &lt;i&gt;by that reason&lt;/i&gt; not being a number. (We must have, this is to say, something which is neither a number nor not a number).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Again what is the reason of the word &#171;produce&#187;, which we have employed? How can the Infinite (quantity-in-se) produce numbers? Is it a force that it should originate anything ?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It is by colour that we observe colours, that we know colours. We possess the idea of colour. It is in this way that we know colour.&lt;/p&gt;
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              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem um suspiro abandonemos Cristo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;E a febre de buscarmos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Um deus dos dualismos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E longe da crist&#227; sensualidade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que a casta calma da beleza antiga&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Nos restitua o antigo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Sentimento da vida.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
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  </texto>
  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;If evolution is to be universally true, itself it must evolute. But if it must evolute evolution is no longer universally true, for it changes, for it ceases to be evolution.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Since things are by nature numerical, i.e., plural, they cannot pertain to an infinite. The sum of things to things, of numbers to numbers cannot give the infinite for to give the infinite among the finite, is to introduce into a numeric sum something which is not a number.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;If infinite be a quantity (as some give us to understand when they say the infinite is &#171;that which is greater than a conceivable number&#187;, &#171;greater indicates quantity&#187;), if this be so, the infinite when entering into a calculation in other quantities, possess the properties of a quantity, i.e. of dealing with different quantities of giving different results. But this is precisely what it does not. 2 &#180; &#165;, 100 &#180; &#165;, ten million by infinite give the same thing: infinite.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No quantity can do this.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>60</pagina>
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    <titulo>If evolution is to be universally true,
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Em Ceres anoitece.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos p&#237;ncaros ainda&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Faz luz.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sinto-me t&#227;o grande&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta hora solene&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;E v&#227;&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que, assim como h&#225; deuses&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dos campos, das flores&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Das searas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;b /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora eu quisera&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que um deus existisse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;De mim.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Em Ceres anoitece.
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;All metaphysical theories, of all kinds, idealistic or materialistic, have one thing in common: the attributing of infinity and eternity to the Substratum, to the Fundamental Truth they admit. Thus all materialism makes matter infinite (increated) uncreated.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;By this is shown then that all systems of metaphysics agree in giving to the &lt;i&gt;Cause&lt;/i&gt; or&lt;i&gt; Origin&lt;/i&gt; or&lt;i&gt; Being&lt;/i&gt; fundamental in their system the characteristic of infinity and eternity.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;But why is this?&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>All metaphysical theories, of all kinds,
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;What, for instance, is a colour apart from a thing? I mean does the true colour of the sky have a colour in itself? No, because the moment that colour becomes a colour in itself it ceases to be that colour.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;-3, -2, -1 0 1, 2, 3.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The descendant series means to say there is a lack of that which quantity represents.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Does the descendant series represent anything material? What is its scientific origin?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>What, for instance, is a colour apart from a thing?
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tu n&#227;o &#233;s mais que um deus a mais no eterno&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Pant&#233;on que preside&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#192; nossa vida incerta.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nem maior nem menor que os novos deuses,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tua sombria forma dolorida&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Trouxe algo que faltava&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Ao n&#250;mero dos divos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Por isso reina a par de outros no Olimpo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou pela triste terra se quiseres&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Vai enxugar o pranto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Dos humanos que sofrem.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o venham, por&#233;m, estultos teus cultores&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em teu nome vedar o eterno culto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Das presen&#231;as maiores&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;E parceiras da tua.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A esses, sim, do &#226;mago eu odeio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do crente peito, e a esses eu n&#227;o sigo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Supersticiosos leigos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Na ci&#234;ncia dos deuses.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ah, aumentai, n&#227;o combatendo nunca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Cada vez maior for&#231;a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Plo n&#250;mero maior.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Basta os males que o Fado as Parcas fez&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por seu intuito natural fazerem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;N&#243;s homens nos fa&#231;amos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Unidos pelos deuses.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>79</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>N&#227;o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;O burburinho da &#225;gua&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O burburinho da &#225;gua&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No regato que se espalha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; como a ilus&#227;o que &#233; m&#225;goa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando a verdade a baralha.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>47</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>O burburinho da &#225;gua
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#8212; A &#250;nica vantagem de estudar &#233; gozar o quanto os outros n&#227;o disseram.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#8212; A arte &#233; um isolamento. Todo o artista deve buscar isolar os outros, levar-lhes &#224;s almas o desejo de estarem s&#243;s. O triunfo supremo de um artista &#233; quando a ler suas obras o leitor prefere t&#234;-las e n&#227;o as ler. N&#227;o &#233; porque isto aconte&#231;a aos consagrados; &#233; porque &#233; o maior tributo (...)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Ser l&#250;cido &#233; estar indisposto consigo pr&#243;prio. O leg&#237;timo estado de esp&#237;rito com respeito a olhar para dentro de si pr&#243;prio &#233; o estado (...) de quem olha nervos e indecis&#245;es.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A &#250;nica atitude intelectual digna de uma criatura superior &#233; a de uma calma e fria compaix&#227;o por tudo quanto n&#227;o &#233; ele pr&#243;prio. N&#227;o que essa atitude tenha o m&#237;nimo cunho de justa e verdadeira; mas &#233; t&#227;o invej&#225;vel que &#233; preciso t&#234;-la.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>454</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>&#8212; A &#250;nica vantagem de estudar &#233; gozar o quanto os outros n&#227;o disseram.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O dualismo &#233; basilar na ci&#234;ncia; na metaf&#237;sica &#233;&#8209;o o monismo. O ponto de partida da ci&#234;ncia &#233; o dualismo sujeito&#8209;objecto, porque &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;existe. &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;O ponto de partida da metaf&#237;sica &#233; o monismo dual&#237;stico sujeito&#8209;objecto, porque &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;n&#227;o pode ser.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:26+01:00</created-at>
    <data>1914?</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
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    <titulo>O dualismo &#233; basilar na ci&#234;ncia;
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Ou o infinito se pode aplicar &#224; mat&#233;ria ou n&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Admitamos que se pode. H&#225;-de ent&#227;o aplicar-se por multiplica&#231;&#227;o e por divis&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dividamos infinitamente o &#225;tomo A.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;Temos A / &lt;/span&gt;&#165;&lt;span&gt; = 0&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Donde se conclui&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou 1) a mat&#233;ria &#233; infinitamente multiplic&#225;vel, mas n&#227;o infinitamente divis&#237;vel;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou 2) a mat&#233;ria nem &#233; uma coisa nem outra;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Ou 3) a mat&#233;ria n&#227;o existe, a sua ess&#234;ncia sendo &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;zero.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:26+01:00</created-at>
    <data>1907?</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>62</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Ou o infinito se pode aplicar &#224; mat&#233;ria ou n&#227;o.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">3</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Sofro, L&#237;dia, do medo do destino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qualquer pequena cousa de onde pode&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Brotar uma ordem nova em minha vida,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;L&#237;dia, me aterra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qualquer cousa, qual seja, que transforme&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu plano curso de exist&#234;ncia, embora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para melhores cousas o transforme,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Por transformar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Odeio, e n&#227;o o quero. Os deuses dessem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que ininterrupta minha vida fosse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma plan&#237;cie sem relevos, indo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;At&#233; ao fim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A gl&#243;ria embora eu nunca haurisse, ou nunca&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Amor ou justa estima dessem-me outros,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Basta que a vida seja s&#243; a vida&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;E que eu a viva. &lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <id type="integer">17</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>80</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Sofro, L&#237;dia, do medo do destino. [1]
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Leve sonho, vais no ch&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Leve sonho, vais no ch&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A andares sem teres ser.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201;s como o meu cora&#231;&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que sente sem nada ter.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <id type="integer">18</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>47</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Leve sonho, vais no ch&#227;o
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o me indigno porque a indigna&#231;&#227;o &#233; para os fortes; n&#227;o me resigno, porque a resigna&#231;&#227;o &#233; para os nobres; n&#227;o me calo, porque o sil&#234;ncio &#233; para os grandes. E eu n&#227;o sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor &#224; minha ideia de os achar belos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; lamento o n&#227;o ser crian&#231;a, para que pudesse crer nos meus sonhos, o n&#227;o ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam, [&#8230;]&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho &#224; rosa falsa de minha sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho defeitos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nem com pintar esse vidro de sombras coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olh&#225;-la, do outro lado.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! N&#227;o s&#243; se amparam de ter feito qualquer coisa, como tamb&#233;m se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu n&#227;o me queixo pelo mundo. N&#227;o protesto em nome do universo. N&#227;o sou pessimista. Sofro e queixo-me, mas n&#227;o sei se o que h&#225; de mal &#233; o sofrimento nem sei se &#233; humano sofrer. Que me importa saber se isso &#233; certo ou n&#227;o?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu sofro, n&#227;o sei se merecidamente. (Cor&#231;a perseguida.)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Eu n&#227;o sou pessimista, sou triste.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>s.d.</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
    <id type="integer">19</id>
    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>323</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>N&#227;o me indigno porque a indigna&#231;&#227;o &#233; para os fortes;
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;ANIVERS&#193;RIO&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu era feliz e ningu&#233;m estava morto. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na casa antiga, at&#233; eu fazer anos era uma tradi&#231;&#227;o de h&#225; s&#233;culos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religi&#227;o qualquer. &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu tinha a grande sa&#250;de de n&#227;o perceber coisa nenhuma, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De ser inteligente para entre a fam&#237;lia, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E de n&#227;o ter as esperan&#231;as que os outros tinham por mim. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando vim a ter esperan&#231;as, j&#225; n&#227;o sabia ter esperan&#231;as. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que fui de cora&#231;&#227;o e parentesco,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que fui de ser&#245;es de meia-prov&#237;ncia,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que fui de amarem-me e eu ser menino. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que fui &#8212; ai, meu Deus!, o que s&#243; hoje sei que fui... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A que dist&#226;ncia!... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Nem o acho...) &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O que eu sou hoje &#233; como a humidade no corredor do fim da casa, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pondo grelado nas paredes...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme atrav&#233;s das minhas l&#225;grimas), &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que eu sou hoje &#233; terem vendido a casa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; terem morrido todos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um f&#243;sforo frio...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desejo f&#237;sico da alma de se encontrar ali outra vez, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por uma viagem metaf&#237;sica e carnal,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com uma dualidade de eu para mim...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Comer o passado como p&#227;o de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que h&#225; aqui... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loi&#231;a, com mais copos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O aparador com muitas coisas &#8212; doces, frutas, o resto na sombra debaixo do al&#231;ado &#8212;,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;P&#225;ra, meu cora&#231;&#227;o!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o penses! Deixa o pensar na cabe&#231;a!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#211; meu Deus, meu Deus, meu Deus!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje j&#225; n&#227;o fa&#231;o anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Duro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Somam-se-me dias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Serei velho quando o for.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Raiva de n&#227;o ter trazido o passado roubado na algibeira!...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:26+01:00</created-at>
    <data>15-10-1929</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Presen&#231;a&lt;/b&gt;, n&#186; 27. Coimbra: Jun.-Jul. 1930.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>284</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>ANIVERS&#193;RIO
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#171;The central problem of philosophy is philosophy itself posited as problem&#187;. Why do you need philosophy?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The fundamental idea of Being, or of Reality, or of Truth: this is what we seek in philosophy. Philosophy is the search for Being. What is Being, what is Reality? This is the problem of philosophy. If we could solve it by our mode of reasoning, i. e., by a relation subject&#8209;object (...)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Judgements. Analytic and synthetic.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;How are synthetic judgements a priori possible? How are they possible of Being? All systems of metaphysics (what is called) are those which affirm something of Being, or that something is Being.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:26+01:00</created-at>
    <data>1908?</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
    <id type="integer">21</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>22</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>The central problem of philosophy...
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;Int[rodu&#231;&#227;o]: Ocultismo&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Os 3 mundos: o mundo causal, o mundo intelectual e o mundo num&#233;rico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;A realidade do mundo &#171;material&#187; (tomado este adjectivo na mais lata das acep&#231;&#245;es) depende do &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;N&#250;mero. &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;Neste &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;mundo&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;-&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;resultado &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;somos, todos os entes, meros &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;n&#250;meros.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Mas os n&#250;meros t&#234;m &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;uma l&#243;gica, &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;uma &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;raz&#227;o. &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;Nada mais pressup&#245;em. (Nem sequer pressup&#245;em a consci&#234;ncia deles). Mas os n&#250;meros t&#234;m uma ordem. Por isso, acima dos n&#250;meros est&#225; a &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;raz&#227;o &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;dos n&#250;meros. Essa raz&#227;o &#233; de todo interior aos n&#250;meros. Apenas a concebemos por aquele fen&#243;meno passado entre os n&#250;meros, a que se chama a &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;Lei.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Mas essa &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;raz&#227;o &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;deve ter uma origem, uma causa.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acima, portanto, do pr&#243;prio mundo racional est&#225; o mundo causal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O mundo num&#233;rico &#233; regido pelos &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;deuses; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;isto &#233; em rela&#231;&#227;o ao mundo que concebemos, o polite&#237;smo &#233; a Verdade. N&#227;o h&#225; o direito a ter outra religi&#227;o a n&#227;o ser o polite&#237;smo.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;No mundo racional j&#225; n&#227;o h&#225; deuses, ou antes, esse mundo est&#225; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;acima dos deuses. &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;Esse mundo n&#227;o &#233; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;real; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;isto &#233;, nada h&#225; em n&#243;s que permita afirmar &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;a sua exist&#234;ncia. &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;Nem se pode dizer, &#233;; porque o ser, a realidade s&#227;o categorias do N&#250;mero.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Portanto, esse mundo racional n&#227;o pode ser &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;atingido &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;ou&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;pelos &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;sentidos &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;que ensinam a ideia de Realidade, ou pela &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;raz&#227;o&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;,&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;que ensina a ideia de &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;Lei&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;, ou&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;pela Consci&#234;ncia, que ensina a ideia de Ser. Nenhuma faculdade nossa, nenhum modo de percep&#231;&#227;o imagin&#225;vel, nos pode levar at&#233; ao mundo racional; o mais que podemos &#233; ver o seu reflexo entre os n&#250;meros. Porque h&#225; (1) &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;n&#250;meros&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;,&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;(2) rela&#231;&#245;es entre os n&#250;meros (reflexo da Raz&#227;o); (3) exist&#234;ncia (abstracta) de n&#250;meros e rela&#231;&#245;es entre eles, porque o que h&#225; de comum entre os n&#250;meros e as suas rela&#231;&#245;es &#233; serem &#171;coisas&#187; que existem.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <id type="integer">22</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>63</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Introdu&#231;&#227;o: Ocultismo
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">3</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Sofro, L&#237;dia, do medo do destino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A leve pedra que um momento ergue&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As lisas rodas do meu carro, aterra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Meu cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo quanto me ameace de mudar-me&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para melhor que seja, odeio e fujo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deixem-me os deuses minha vida sempre&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Sem renovar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meus dias, mas que um passe e outro passe&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ficando eu sempre quase o mesmo, indo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para a velhice como um dia entra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;No anoitecer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>80a</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Sofro, L&#237;dia, do medo do destino. [2]
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Vai alta a nuvem que passa.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vai alta a nuvem que passa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vai alto o meu pensamento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; escravo da tua gra&#231;a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como a nuvem o &#233; do vento.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>7-9-1934</data>
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    <id type="integer">24</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>48</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Vai alta a nuvem que passa.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Passa uma nuvem pelo sol&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passa uma pena por quem v&#234;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A alma &#233; como um girassol:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vira-se ao que n&#227;o est&#225; ao p&#233;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Passou a nuvem; o sol volta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A alegria girassolou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pend&#227;o latente de revolta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que hora maligna te enrolou?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <id type="integer">25</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>153</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Passa uma nuvem pelo sol
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Bem sei que h&#225; ilhas l&#225; ao sul de tudo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde h&#225; paisagens que n&#227;o pode haver.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;T&#227;o belas que s&#227;o como que o veludo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do tecido que o mundo pode ser.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Bem sei. Vegeta&#231;&#245;es olhando o mar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Coral, encostas, tudo o que &#233; a vida&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tornado amor e luz, o que o sonhar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;D&#225; &#224; imagina&#231;&#227;o anoitecida.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que ali agita os ramos em torpor&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passa de leve por meu pensamento &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o pensamento julga que &#233; amor.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sei, sim, &#233; belo, &#233; luz, &#233; imposs&#237;vel, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Existe, dorme, tem a cor e o fim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, ainda que n&#227;o haja, &#233; t&#227;o vis&#237;vel &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; uma parte natural de mim.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sei tudo, sim, sei tudo. E sei tamb&#233;m&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o &#233; l&#225; que h&#225; isso que l&#225; est&#225;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei qual &#233; a luz que essa paisagem tem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E qual o mar por que se vai para l&#225;.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:27+01:00</created-at>
    <data>20-9-1934</data>
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    <id type="integer">26</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>120</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Bem sei que h&#225; ilhas l&#225; ao sul de tudo
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;MANEIRA DE BEM SONHAR&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cuidar&#225;s primeiro em nada respeitar, em nada crer, em nada (...)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Guardar&#225;s da tua atitude ante o que n&#227;o respeites, a vontade de respeitar alguma coisa; do teu desgosto ante o que n&#227;o ames o desejo doloroso de amar algu&#233;m; do teu desprezo pela vida guardar&#225;s a ideia de que deve ser bom viv&#234;-la e am&#225;-la. E assim ter&#225;s constru&#237;do os alicerces do edif&#237;cio dos teus sonhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Repara bem que a obra que te prop&#245;es fazer &#233; no mais alto de tudo. Sonhar &#233; encontrarmo-nos. Vais ser o Colombo da tua alma. Vais buscar as suas paisagens. Cuida bem pois em que o teu rumo seja certo e n&#227;o possam errar os teus instrumentos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A arte de sonhar &#233; dif&#237;cil porque &#233; uma arte de passividade, onde o que &#233; de esfor&#231;o &#233; na concentra&#231;&#227;o da aus&#234;ncia de esfor&#231;o. A arte de dormir se a houvesse, deveria ser de qualquer forma parecida com esta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Repara bem: a arte de sonhar n&#227;o &#233; a arte de orientar os sonhos. Orientar &#233; agir. O sonhador verdadeiro entrega-se a si pr&#243;prio, deixa-se possuir por si pr&#243;prio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foge a todas as provoca&#231;&#245;es materiais. H&#225; no in&#237;cio a tenta&#231;&#227;o de te masturbares. H&#225; a do &#225;lcool, a do &#243;pio, a do (...). Tudo isso &#233; esfor&#231;o e procura. Para seres um bom sonhador, tens de n&#227;o ser sen&#227;o sonhador. &#211;pio e morfina compram-se nas farm&#225;cias &#8212; como, pensando nisto queres poder sonhar atrav&#233;s deles? Masturba&#231;&#227;o &#233; uma coisa f&#237;sica &#8212; como queres tu que (...)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que te sonhes masturbando-te, v&#225;; que em sonhar talvez fumando &#243;pio, recebendo morfina te embriagues da ideia do &#243;pio (...) da morfina dos sonhos &#8212; n&#227;o h&#225; sen&#227;o que elogiar-te por isso: est&#225;s no teu papel &#225;ureo de sonhador perfeito.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Julga-te sempre mais triste e mais infeliz do que &#233;s. Isso n&#227;o faz mal. E mesmo, por ilus&#227;o, um pouco escadas para o sonho.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:28+01:00</created-at>
    <data>s.d.</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
    <id type="integer">27</id>
    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>193</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>MANEIRA DE BEM SONHAR
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;BICARBONATO DE SODA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;S&#250;bita, uma ang&#250;stia... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, que ang&#250;stia, que n&#225;usea do est&#244;mago &#224; alma! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que amigos que tenho tido! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que esterco metaf&#237;sico os meus prop&#243;sitos todos!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Uma ang&#250;stia, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma desconsola&#231;&#227;o da epiderme da alma, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um deixar cair os bra&#231;os ao sol-p&#244;r do esfor&#231;o... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Renego. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Renego tudo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Renego mais do que tudo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Renego a gl&#225;dio e fim todos os deuses e a nega&#231;&#227;o deles.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas o que &#233; que me falta, que o sinto faltar-me no est&#244;mago e na circula&#231;&#227;o do sangue? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que atordoamento vazio me esfalfa no c&#233;rebro?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o: vou existir. Arre! Vou existir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E-xis-tir...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E--xis--tir...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Renunciar de portas todas abertas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perante a paisagem todas as paisagens, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem esperan&#231;a, em liberdade, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem nexo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acidente da inconsequ&#234;ncia da superf&#237;cie das coisas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mon&#243;tono mas dorminhoco, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que brisas quando as portas e as janelas est&#227;o todas abertas! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que ver&#227;o agrad&#225;vel dos outros!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;D&#234;em-me de beber, que n&#227;o tenho sede!&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:28+01:00</created-at>
    <data>20-6-1930</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>287</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>BICARBONATO DE SODA
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Being is that by which, outside which nothing can be conceived. (If anything be conceived it is within being).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Being is that in which nothing can be conceived but Being. E.g. if time be anything real it is identical with Being. But if time be Being, Being is time, which is false, for, by observation immediate, Being is Being and no more.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;*&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Pure Being cannot be conceived as having anything (for ex. world) dependent on it, for that would be something in some way conceived beyond Being, outside Being. If what is thought to depend be a reality, it is Being. If a realitg of another kind...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;If an illusion, a manifestation...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Being is that in which nothing can be conceived but Being. For if anything (for example Good) could be conceived, it would follow that pure Being is imperfect or, in other words, is not pure Being, for it were not self&#8209;sufficient.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>23</pagina>
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    <titulo>Being is that by which, outside which...
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;All things in the world are subject to classification in the form of a series, of which the beginning is &lt;i&gt;zero&lt;/i&gt; and the end &lt;i&gt;infinity&lt;/i&gt;, that is to say which has no beginning and no end. Yet in consideration of this it is necessary to give these negations a positive aspect, and to say that the Series begins in zero and ends in infinity. Good and evil are thus subjected to the series; if we make good the term, zero is absolute ill and absolute good is infinity.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>64</pagina>
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    <titulo>All things in the world are subject to classification...
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  <texto>
    <autor-id type="integer">3</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;S&#234; o dono de ti&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem fechares os olhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na dura m&#227;o aperta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com um tacto encavado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo exterior&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contra a palma sentindo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra cousa que a palma.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>S&#234; dono de ti
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Ambos &#224; beira do po&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ambos &#224; beira do po&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Achamos que &#233; muito fundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deita-se a pedra, e o que eu ou&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; teu olhar, que &#233; meu mundo.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>48</pagina>
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    <titulo>Ambos &#224; beira do po&#231;o
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#201; brando o dia, brando o vento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; brando o sol e brando o c&#233;u.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim fosse meu pensamento!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim fosse eu, assim fosse eu!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas entre mim e as brandas gl&#243;rias&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deste c&#233;u limpo e este ar sem mim&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Interv&#234;m sonhos e mem&#243;rias...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser eu assim, ser eu assim!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ah, o mundo &#233; quanto n&#243;s trazemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Existe tudo quanto existo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; porque vemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E tudo &#233; isto, tudo &#233; isto!&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
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    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>&#201; brando o dia, brando o vento.
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Aspectos &#8212; Pref&#225;cio geral&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;1. Alberto Caeiro (1889 - 1915) &#8212; O Guardador de Rebanhos e outros poemas e fragmentos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2. Ricardo Reis: Odes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3. Ant&#243;nio Mora: Alberto Caeiro e a Renova&#231;&#227;o do paganismo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;4. &#193;lvaro de Campos: Arco de Triunfo&lt;i&gt;, &lt;/i&gt;Poemas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;5. Vicente Guedes: Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>42</pagina>
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    <titulo>Aspectos &#8212; Pref&#225;cio geral
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;L. do D.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Para sentir a del&#237;cia e o terror da velocidade n&#227;o preciso de autom&#243;veis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro el&#233;ctrico e a espantosa faculdade de abstrac&#231;&#227;o que tenho e cultivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num carro el&#233;ctrico em marcha eu sei, por uma atitude constante e instant&#226;nea de an&#225;lise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separ&#225;-las de todo, at&#233; serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo n&#227;o dentro do carro mas dentro da mera-velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o del&#237;rio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o Puro imitar da velocidade e a meu bom prazer aument&#225;-la ou diminu&#237;-la, alarg&#225;-la para al&#233;m de todas as velocidades poss&#237;veis de ve&#237;culos comboios.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Correr riscos reais, al&#233;m de me apavorar n&#227;o &#233; por medo que eu sinta excessivamente &#8212; perturba-me a perfeita aten&#231;&#227;o &#224;s minhas sensa&#231;&#245;es, o que me incomoda e me despersonaliza.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca vou para onde h&#225; risco. Tenho medo a t&#233;dio dos perigos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Um poente &#233; um fen&#243;meno intelectual.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>193,4</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Para sentir a del&#237;cia e o terror da velocidade...
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Pure Being cannot be conceived as in time because what is in time is not to&#8209;day the same as it was yesterday, nor will be to&#8209;morrow the same as it is today.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;But cannot what is immutable be conceived as immutable in time?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Being has no attributes; it is in itself essence and attributes, substance and accidents, unity and plurality. (Or rather by being both is neither.)&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>1906</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>24</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Pure Being cannot be conceived...
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;Notes on Metaphysics&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Zero is identical and the same in all properties, in all attributes, but infinity is different in each. How can this be conciliated with the theory that Zero is equal to infinity?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>65</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Notes on Metaphysics
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Aquela senhora velha&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aquela senhora velha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que fala com t&#227;o bom modo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece ser uma abelha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nos diz: &#171;N&#227;o incomodo.&#187;&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>48</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Aquela senhora velha
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Entre o luar e a folhagem,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre o sossego e o arvoredo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre o ser noite e haver aragem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passa um segredo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segue-o minha alma na passagem&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;T&#233;nue lembran&#231;a ou saudade,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Princ&#237;pio ou fim do que n&#227;o foi,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o tem lugar, n&#227;o tem verdade,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Atrai e d&#243;i.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segue-o meu ser em liberdade.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vazio encanto &#233;brio de si!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tristeza ou alegria o traz?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que sou dele a quem sorri?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o &#233; nem faz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; de segui-lo me perdi.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Entre o luar e a folhagem,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Bem sei que todas as m&#225;goas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#227;o como as m&#225;goas que s&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parecidas com as &#225;guas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que continuamente v&#227;o...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quero, pois, ter guardada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma tristeza de mim&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o possa ser levada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por essas &#225;guas sem fim.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quero uma tristeza minha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma m&#225;goa que me seja&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma esp&#233;cie de rainha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cujo trono se n&#227;o veja.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>122</pagina>
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    <titulo>Bem sei que todas as m&#225;goas
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Ideias metaf&#237;sicas do Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ideias metaf&#237;sicas do Desconhecido&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ideias metaf&#237;sicas do P&#243;&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>43</pagina>
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    <titulo>Ideias metaf&#237;sicas do Livro do Desassossego
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;L. do D.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O entusiasmo &#233; uma grosseria.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A express&#227;o do entusiasmo &#233;, mais do que tudo, uma viola&#231;&#227;o dos direitos da nossa insinceridade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanh&#227; podemos s&#234;-lo por coisa contr&#225;ria.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Por mim n&#227;o tive convic&#231;&#245;es. Tive sempre impress&#245;es. Nunca poderia odiar uma terra em que eu houvesse visto um poente escandaloso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Exteriorizar impress&#245;es &#233; mais persuadirmo-nos de que as temos do que termo-las.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <id type="integer">42</id>
    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>459</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>O entusiasmo &#233; uma grosseria.
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;TRAPO&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O dia deu em chuvoso. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A manh&#227;, contudo, estava bastante azul. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia deu em chuvoso. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde manh&#227; eu estava um pouco triste. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antecipa&#231;&#227;o? Tristeza? Coisa nenhuma? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei: j&#225; ao acordar estava triste. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia deu em chuvoso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Bem sei: a penumbra da chuva &#233; elegante. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bem sei: o sol oprime, por ser t&#227;o ordin&#225;rio, um elegante. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bem sei: ser suscept&#237;vel &#224;s mudan&#231;as de luz n&#227;o &#233; elegante. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;D&#234;em-me o c&#233;u azul e o sol vis&#237;vel. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#233;voa, chuvas, escuros &#8212; isso tenho eu em mim. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje quero s&#243; sossego. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;At&#233; amaria o lar, desde que o n&#227;o tivesse. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chego a ter sono de vontade de ter sossego.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o exageremos! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho efectivamente sono, sem explica&#231;&#227;o. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia deu em chuvoso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Carinhos? Afectos? S&#227;o mem&#243;rias... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; preciso ser-se crian&#231;a para os ter... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha madrugada perdida, meu c&#233;u azul verdadeiro! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O dia deu em chuvoso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Boca bonita da filha do caseiro,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Polpa de fruta de um cora&#231;&#227;o por comer...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando foi isso? N&#227;o sei...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No azul da manh&#227;...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O dia deu em chuvoso.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Presen&#231;a&lt;/b&gt;, n&#186; 34. Coimbra: Fev. 1932.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>289</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>TRAPO
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Being excludes relation. Does it exclude relativity? It excludes number in the sense that outside itself there is nought, but does it deny number, within itself?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>1906?</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>25</pagina>
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    <titulo>Being excludes relation.
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;Theory of Genesis in S[eries]&#8217;s philosophy:&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;This theory is made clear by an analogy with the numbers in an infinite series, in the simple series of arithmetical progression. Thus, O, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8,..., &#165; &#8212;. By looking upon this we can assert that the series begins at 1, though we are unable to say where it ends. To us, indeed, it does not end anywhere. But what we cannot explain is how to pass from &lt;i&gt;zero&lt;/i&gt; to &lt;i&gt;one&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Consider the problem of the world in time and see how exact is the analogy. Nay, there is more than an analogy; this of number is the basis of the other.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;For, of a truth, time is duration, duration is moments and moments are numbers in time; duration is the union of the ideas of number and of time.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;If we wish the solution of the problem of the world in time, we have but to consider number in its ideal extension, as it is here done, and to induce the idea of time.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Let us then examine the problem. In the first place it is to be noticed that the passage from zero to 1 is a passing of nothing to something, of a thing to its contrary. (If I may so speak.)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(But zero is not the contrary of anything for a &lt;i&gt;contrary&lt;/i&gt; is something and zero is nothing. Moreover, when we say a thing has a contrary, if we assert afterwards that zero is that contrary we unsay our former statement or make it absurd, for to say a thing is contrary to nothing, is to say it has no contrary at all. [...]&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The 1 cannot produce the 2, neither if it be taken in the sense of quantity nor in the sense of a unit of order. In the first case the one cannot sum itself to itself and produce 2. In the second, the one being only one by reason of there being other numbers obviously cannot have produced them. (Here is the materialistc difficulty. Thales, etc., in Arist. Met. I.)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The series then proceeds from a so-called nothing and yet has not &lt;i&gt;produced itself&lt;/i&gt;. The series has been produced. Produced by what? Not by any number of the series, because, as we have already seen, that is impossible. (Not by some numbers of the series, for then it is required to know how &lt;i&gt;the numbers which compose this sum&lt;/i&gt; have come to be. And if an attempt be made to answer this by twisting it in any way, the essay fails, for it can either make the sum a number &#8212; a case which we have already discussed &#8212; or &lt;i&gt;the whole&lt;/i&gt; which we shall now consider).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Not by the series as a whole, for, as I have said, nothing can produce itself.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;We must now make a distinction between the total and the series in itself (the whole). The total is produced by the units, consequently by units in a definite number. The whole, on the contrary, produces the numbers; it is not produced by them. [...]&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The series (whole) is Quantity, Number (in its most abstract meaning).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A total is any number resulting from a sum, for instance, 1302.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A number, a unit is any member of the series.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Some may yet think that a whole can be empirically obtained. They say, for instance, &#171;the numbers 1, 2, 3 plus an infinity of numbers give us the total series, the whole&#187;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;We must consider this argument. It contains an old term, that of infinity.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;What is this, what does it mean? It means either of 2 things: or the greatest possible number, that which contains all numbers; or that which transcends all number.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;lf it mean the first (as materialists indeed understand it) it is identical to the series, it means &#171;the whole&#187;. So that to prove the whole by it is to beg the question and most miserably to fail. &lt;span&gt;&lt;i&gt;Cur opium dormiri facit? Quia est in eo vis dormitiva&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Analogy and consequence of this in the materialist argument for the empirical origin for the idea of infinite.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>65</pagina>
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    <titulo>Theory of Genesis in Series&#8217;s philosophy:
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">3</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poemas de Ricardo Reis.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Edi&#231;&#227;o Cr&#237;tica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o sem lei, mas segundo leis diversas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre os homens reparte o fado e os deuses&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Sem justi&#231;a ou injusti&#231;a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Prazeres, dores, gozos e perigos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Bem ou mal, n&#227;o ter&#225;s o que mereces.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Querem os deuses a isto obrigar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Porque o Fado n&#227;o tem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Leis nossas com que reja a sua lei.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quem &#233; rei hoje, amanh&#227; escravo cruza&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o escravo de ontem que &#233; depois rei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Sem raz&#227;o um caiu,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem causa nele o outro ascender&#225;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o em n&#243;s, mas dos deuses no capricho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E nas sombras p'ra al&#233;m do seu dom&#237;nio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Est&#225; o que somos, e temos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vida e a morte do que somos n&#243;s.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Se te apraz mereceres, que te apraza&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por mereceres, n&#227;o porque te o Fado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;D&#234; o pr&#233;mio ou a paga&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De com const&#226;ncia haveres merecido.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;D&#250;bia &#233; a vida, inconstante o que a governa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que esperamos nem sempre acontece&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Nem nos falece sempre,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem h&#225; com que a alma uma ou outra cousa espere.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Torna teu cora&#231;&#227;o digno dos deuses&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E deixa a vida incerta ser quem seja.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;O que te acontecer&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aceita. Os deuses nunca se rebelam.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nas m&#227;os inevit&#225;veis do destino&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A roda r&#225;pida soterra hoje&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Quem ontem viu o c&#233;u&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do transit&#243;rio auge do seu giro.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>82</pagina>
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    <titulo>N&#227;o sem lei, mas segundo leis diversas
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Maria, se eu te chamar,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Maria, se eu te chamar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maria, vem c&#225; dizer&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o podes c&#225; chegar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim te consigo ver.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <titulo>Maria, se eu te chamar,
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Oi&#231;o, como se o cheiro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De flores me acordasse...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; m&#250;sica &#8212; um canteiro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De influ&#234;ncia e disfarce.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Impalp&#225;vel lembran&#231;a,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sorriso de ningu&#233;m,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com aquela esperan&#231;a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nem esperan&#231;a tem...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que importa, se sentir&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; n&#227;o se conhecer?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Oi&#231;o, e sinto sorrir&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que em mim nada quer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>156</pagina>
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    <titulo>Oi&#231;o, como se o cheiro
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o&lt;sub&gt; &lt;/sub&gt;quero rosas, desde que haja rosas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quero-as s&#243; quando n&#227;o as possa haver&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que hei-de fazer das coisas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que qualquer m&#227;o pode colher?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o quero a noite sen&#227;o quando a aurora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A fez em ouro e azul se diluir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que a minha alma ignora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; isso que quero possuir.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Para qu&#234;?... Se o soubesse, n&#227;o faria&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Versos para dizer que inda o n&#227;o sei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho a alma pobre e fria...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, com que esmola a aquecerei?...&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>7-1-1935</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>123</pagina>
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    <titulo>N&#227;o quero rosas, desde que haja rosas.
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Na Casa de Sa&#250;de de Cascais&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;inclui:&#8212; 1) Introdu&#231;&#227;o, entrevista com Ant&#243;nio Mora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;2) Alberto Caeiro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;3) Ricardo Reis&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;4) Proleg&#243;menos de Ant&#243;nio Mora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;5) Fragmentos&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vida e Obra do engenheiro &#193;lvaro de Campos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;escrito por Vicente Guedes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;publicado por Fernando Pessoa&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>1</pagina>
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    <titulo>Na Casa de Sa&#250;de de Cascais
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Sou mais velho que o Tempo e que o Espa&#231;o porque sou consciente. As coisas derivam de mim; a Natureza inteira &#233; a [&#8230;] das minhas sensa&#231;&#245;es.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Busco-me &#8212; n&#227;o encontro. Quero, e n&#227;o posso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sem mim, o sol nasce e se apaga; sem mim a chuva cai e o vento geme. N&#227;o s&#227;o por mim as esta&#231;&#245;es, nem o curso dos meses, nem a passagem das horas.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dono do mundo em mim, como de terras que n&#227;o posso trazer comigo (...)&lt;/p&gt;
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    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>97</pagina>
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    <titulo>Sou mais velho que o Tempo e que o Espa&#231;o porque sou consciente.
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  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;AH, UM SONETO...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Meu cora&#231;&#227;o &#233; um almirante louco &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;que abandonou a profiss&#227;o do mar &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e que a vai relembrando pouco a pouco &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;em casa a passear, a passear...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No movimento (eu mesmo me desloco &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;nesta cadeira, s&#243; de o imaginar) &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;o mar abandonado fica em foco &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;nos m&#250;sculos cansados de parar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;H&#225; saudades nas pernas e nos bra&#231;os. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; saudades no c&#233;rebro por fora. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; grandes raivas feitas de cansa&#231;os.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas &#8212; esta &#233; boa! &#8212; era do cora&#231;&#227;o &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;que eu falava... e onde diabo estou eu agora &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;com almirante em vez de sensa&#231;&#227;o?...&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Presen&#231;a&lt;/b&gt;, n&#186; 34. Coimbra: Fev. 1932.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>291</pagina>
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    <titulo>AH, UM SONETO...
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;What is the concept of Nothing (Zero)? Is the idea of nothing absence of idea? And the idea of abstract Being? ls it not as vague?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
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    <titulo>What is the concept of Nothing (Zero)?
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;The problem of the infinity and eternity of the world cannot be put, because we have no elements to solve it.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>70</pagina>
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    <titulo>The problem of the infinity and eternity of the world...
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Boca com olhos por cima&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Boca com olhos por cima&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ambos a estar a sorrir...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; sei onde est&#225; a rima&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do que n&#227;o ouso pedir.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>49</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Boca com olhos por cima
</titulo>
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Nuvens sobre a floresta...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sombra com sombra a mais...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha tristeza &#233; esta &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A das coisas reais.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A outra, a que pertence&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aos sonhos que perdi,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta hora n&#227;o me vence,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se a h&#225;, n&#227;o a h&#225; aqui.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas esta, a do arvoredo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que o c&#233;u sem luz invade,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faz-me receio e medo...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem foi minha saudade?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>157</pagina>
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    <titulo>Nuvens sobre a floresta...
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;ELEGIA NA SOMBRA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Lenta, a ra&#231;a esmorece, e a alegria&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; como uma mem&#243;ria de outrem. Passa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um vento frio na nossa nostalgia&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a nostalgia touca a desgra&#231;a.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Pesa em n&#243;s o passado e o futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dorme em n&#243;s o presente. E a sonhar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A alma encontra sempre o mesmo muro, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E encontra o mesmo muro ao despertar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quem nos roubou a alma? Que bruxedo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De que magia inc&#243;gnita e suprema&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos enche as almas de dol&#234;ncia e medo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta hora in&#250;til, apagada e extrema?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Os her&#243;is resplandecem a dist&#226;ncia &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num passado imposs&#237;vel de se ver&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com os olhos da f&#233; ou os da &#226;nsia;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembramos n&#233;voas, sonhos a esquecer.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que crime outrora feito, que pecado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos imp&#244;s esta est&#233;ril prova&#231;&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; indistintamente nosso fado &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como o sentimos bem no cora&#231;&#227;o?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que vit&#243;ria maligna conseguimos &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que guerras, com que armas, com que armada? &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que assim o seu castigo irreal sentimos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Colado aos ossos desta carne errada?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Terra t&#227;o linda com her&#243;is t&#227;o grandes, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bom Sol universal localizado &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pelo melhor calor que aqui expandes, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Calor suave e azul s&#243; a n&#243;s dado.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tanta beleza dada e gl&#243;ria ida! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tanta esperan&#231;a que, depois da gl&#243;ria,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; conhecem que &#233; f&#225;cil a descida &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das encostas an&#243;nimas da hist&#243;ria!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tanto, tanto! Que &#233; feito de quem foi?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ningu&#233;m volta? No mundo subterr&#226;neo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde a sombria luz por nula d&#243;i,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pesando sobre onde j&#225; esteve o cr&#226;nio,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o restitui Plut&#227;o [a ver?] o c&#233;u &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um her&#243;i ou o &#226;nimo que o faz, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como Eur&#237;dice dada &#224; dor de Orfeu;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou restituiu e olh&#225;mos para tr&#225;s?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nada. Nem f&#233; nem lei, nem mar nem porto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; a prolixa estagna&#231;&#227;o das m&#225;goas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como nas tardes ba&#231;as, no mar morto,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A dolorosa solid&#227;o das &#225;guas.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Povo sem nexo, ra&#231;a sem suporte,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que, agitada, indecisa, nem repare&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que &#233; ra&#231;a e que aguarda a pr&#243;pria morte&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como a um comboio expresso que aqui pare.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Torvelinho de doidos, descren&#231;a &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da pr&#243;pria consci&#234;ncia de se a ter,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada h&#225; em n&#243;s que, firme e crente, ven&#231;a &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nossa impossibilidade de querer.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Plagi&#225;rios da sombra e do abandono, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Registramos, quietos e vazios,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os sonhos que h&#225; antes que venha o sono &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o sono in&#250;til que nos deixa frios.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Oh, que h&#225;-de ser de n&#243;s? Ra&#231;a que foi&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como que um novo sol ocidental&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que houve por tipo o aventureiro e o her&#243;i &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E outrora teve nome Portugal...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;(Fala mais baixo! Deixa a tarde ser&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao menos uma extrema quieta&#231;&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que por ser fim fa&#231;a menos doer&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nosso descompassado cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Fala mais baixo! Somos sem rem&#233;dio,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Salvo se do ermo abismo onde Deus dorme&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos venha despertar do nosso t&#233;dio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qualquer obscuro sentimento informe.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sil&#234;ncio quase? Nada dizes! Calas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A esperan&#231;a vazia em que te acho,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P&#225;tria. Que doen&#231;a de teu ser se exala? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tu nem sabes dormir. Fala mais baixo!)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#211; incerta manh&#227; de nevoeiro &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que o rei morto vivo tornar&#225;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao povo ign&#243;bil e o far&#225; inteiro &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201;s qualquer coisa que Deus quer ou d&#225;?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; a tua Hora e o teu Exemplo? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; que vens, do fundo do que &#233; dado, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cumprir teu rito, reabrir teu Templo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vendando os olhos l&#250;cidos do Fado?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; que soa, no deserto de alma&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que Portugal &#233; hoje, sem sentir,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tua voz, como um balou&#231;o de palma&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao p&#233; do o&#225;sis de que possa vir?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; que esta tristeza desconforme &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ver&#225;, desfeita a tua cerra&#231;&#227;o, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Surgir um vulto, no nevoeiro informe, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nos fa&#231;a sentir o cora&#231;&#227;o?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando? Estagnamos. A melancolia &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das horas sucessivas [?] que a alma tem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enche de t&#233;dio a noite e chega o dia &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o t&#233;dio aumenta porque o dia vem.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;P&#225;tria, quem te feriu e envenenou? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem, com suave e maligno fingimento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Teu cora&#231;&#227;o suposto sossegou &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com abundante e in&#250;til alimento?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quem faz que durmas mais do que dormias?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que faz que jazas mais que at&#233; aqui?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aperto as tuas m&#227;os: como est&#227;o frias! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M&#227;o do meu ser que tu amas, que &#233; de ti?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vives, sim, vives porque n&#227;o morreste...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas a vida que vives &#233; um sono&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que indistintamente o teu ser veste&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos os sambenitos do abandono.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dorme, ao menos de vez. O Desejado &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Talvez n&#227;o seja mais que um sonho louco &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De quem, por muito ter, P&#225;tria, amado, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acha que todo o amor por ti &#233; pouco.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dorme, que eu durmo, s&#243; de te saber &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Presa da inquieta&#231;&#227;o que n&#227;o tem nome&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E nem revolta ou &#226;nsia sabes ter &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem da esperan&#231;a sentes sede ou fome.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dorme, e a teus p&#233;s teus filhos, n&#243;s que o somos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Colheremos, in&#250;teis e cansados&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O agasalho do amor que ainda pomos &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em ter teus p&#233;s gloriosos por amados.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dorme, m&#227;e P&#225;tria, nula e postergada, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, se um sonho de esperan&#231;a te surgir, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o creias nele, porque tudo &#233; nada,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E nunca vem aquilo que h&#225;-de vir.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dorme, que a tarde &#233; finda e a noite vem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dorme que as p&#225;lpebras do mundo incerto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Baixam solenes, com a dor que t&#234;m,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre o morti&#231;o olhar inda desperto.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quererias viver eternamente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fic&#231;&#227;o eterna ante este espa&#231;o mudo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; um v&#225;cuo azul? Dorme, que nada sente&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nem paira mais no ar, que fora almo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se n&#227;o fora a nossa alma erma e vazia,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que o nosso fado, vento frio e calmo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a tarde de n&#243;s mesmos, ba&#231;a e fria&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Como long&#237;nquo sopro altivo e humano &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essa tarde mon&#243;tona e serena&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que, ao morrer o imperador romano &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Disse: Fui tudo, nada vale a pena.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>125</pagina>
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    <titulo>ELEGIA NA SOMBRA
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;1. A Rep&#250;blica Nova&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2. Open Letter&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3. Impermanence&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;4. Di&#225;logos sobre a Tirania&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;5. Portugal&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;a) Caeiro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;b) O Regresso dos Deuses &#8212; Fernando Pessoa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;c) R. Reis&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;d) Proleg&#243;menos a uma reforma&#231;&#227;o do Pag. &#8212; Ant&#243;nio Mora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e) Novas Odes &#8212; R. Reis&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;a) Prometheus Revinctus&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;b) Itiner&#225;rio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;c) Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;d) Ligeia&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;e) D. Sebasti&#227;o&lt;/p&gt;
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Saber ser supersticioso ainda &#233; uma das artes que, realizadas a auge, marcam o homem superior.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Saber ser supersticioso ainda &#233; uma das artes que,
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;REALIDADE&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sim, passava aqui frequentemente h&#225; vinte anos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada est&#225; mudado &#8212; ou, pelo menos, n&#227;o dou por isso &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta localidade da cidade...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;H&#225; vinte anos!...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que eu era ent&#227;o! Ora, era outro...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; vinte anos, e as casas n&#227;o sabem de nada...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vinte anos in&#250;teis (e sei l&#225; se o foram! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei eu o que &#233; &#250;til ou in&#250;til?)... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vinte anos perdidos (mas o que seria ganh&#225;-los?)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tento reconstruir na minha imagina&#231;&#227;o &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem eu era e como era quando por aqui passava &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; vinte anos... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me lembro, n&#227;o me posso lembrar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O outro que aqui passava ent&#227;o, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se existisse hoje, talvez se lembrasse... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; tanta personagem de romance que conhe&#231;o melhor por dentro &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do que esse eu-mesmo que h&#225; vinte anos passava aqui!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sim, o mist&#233;rio do tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, o n&#227;o se saber nada,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, o termos todos nascido a bordo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Daquela janela do segundo-andar, ainda id&#234;ntica a si mesma, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Debru&#231;ava-se ent&#227;o uma rapariga mais velha que eu, mais lembradamente de azul.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Hoje, se calhar, est&#225; o qu&#234;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou parado f&#237;sica e moralmente: n&#227;o quero imaginar nada...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois Deus d&#225; licen&#231;a que o que n&#227;o existe seja fortemente iluminado. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando muito, nem penso... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho a impress&#227;o que as duas figuras se cruzaram na rua, nem ent&#227;o nem agora, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olh&#225;mos indiferentemente um para o outro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu o antigo l&#225; subi a rua imaginando um futuro girassol. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu o moderno l&#225; desci a rua n&#227;o imaginando nada.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Talvez isto realmente se desse...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Verdadeiramente se desse...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, carnalmente se desse...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sim, talvez...&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>293</pagina>
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    <titulo>REALIDADE
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;If anything, say, infinity exist, we may say that it possesses &lt;i&gt;being&lt;/i&gt;. But if it &lt;i&gt;possesses&lt;/i&gt; being what is itself that it should not be Being, but should possess it? If it be not Being it is not Being.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;What is that which is neither Being nor Not-Being? I believe we shall now find it. Being is immutable, Not-Being is immutable. That which is neither one nor the other must therefore have immutability on its essence. Movement, then, here is the essence of the world. Movement is not Being, but it is by Being. It is by Being: it exists. It is by Being; though a thing is incessantly passing to another thing, still that other thing is itself. A river does not pass to the sea.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A river follows itself into the sea. Movement is also by Not-Being it is a perpetual ceasing to exist. But movement in itself is.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It seems, it is true, that there can be in reasoning but Being and Not-Being, that which is not one must be the other. But, by experience, we take knowledge of movement.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Quem lavra julga que lavra&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quem lavra julga que lavra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas quem lavra &#233; o que acontece...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me d&#225;s uma palavra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a palavra n&#227;o me esquece.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Quem lavra julga que lavra
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o sei se &#233; sonho, se realidade,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se uma mistura de sonho e vida,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquela terra de suavidade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que na ilha extrema do sul se olvida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; a que ansiamos. Ali, ali&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vida &#233; jovem e o amor sorri&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Talvez palmares inexistentes,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#193;leas long&#237;nquas sem poder ser,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sombra ou sossego d&#234;em aos crentes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De que essa terra se pode ter&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Felizes, n&#243;s? Ali, talvez, talvez,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naquela terra, daquela vez,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas j&#225; sonhada se desvirtua,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; de pens&#225;-la cansou pensar;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sob os palmares, &#224; luz da lua,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sente-se o frio de haver luar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, nesta terra tamb&#233;m, tamb&#233;m&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mal n&#227;o cessa, n&#227;o dura o bem.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o &#233; com ilhas do fim do mundo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem com palmares de sonho ou n&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que cura a alma seu mal profundo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que o bem nos entra no cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; em n&#243;s que &#233; tudo. &#201; ali, ali,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que a vida &#233; jovem e o amor sorri.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>158</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>N&#227;o sei se &#233; sonho, se realidade,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;O meu sentimento &#233; cinza&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da minha imagina&#231;&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu deixo cair a cinza&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No cinzeiro da Raz&#227;o.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>132</pagina>
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    <titulo>O meu sentimento &#233; cinza
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Cinco Di&#225;logos sobre a Tirania&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Teatro Est&#225;tico:&lt;i&gt; &lt;/i&gt;1. O Mar; 2. (...); 3. Morte do P.[r&#237;nc&#237;pe]; 4. Salom&#233;; 5. Sakyamuni&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Itiner&#225;rio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quaresma, decifrador&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>46</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Cinco Di&#225;logos sobre a Tirania
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;LENDA IMPERIAL&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha imagina&#231;&#227;o &#233; uma cidade no Oriente. Toda a sua composi&#231;&#227;o de realidade no espa&#231;o tem a voluptuosidade de superf&#237;cie de um tapete rico e mole. As tendas que multicoloram as suas ruas destacam-se sobre n&#227;o sei que fundo que n&#227;o &#233; o delas como bordados de amarelo ou vermelho sobre cetim azul-clar&#237;ssimo. Toda a hist&#243;ria progressa dessa cidade voa em torno &#224; l&#226;mpada do meu sonho como uma borboleta apenas ouvida na penumbra do quarto. Minha fantasia habitou entre pompas outrora e recebeu das m&#227;os de rainhas j&#243;ias veladas de antiguidade. Atapetaram molezas &#237;ntimas os areais da minha inexist&#234;ncia e, h&#225;litos de penumbra,&lt;i&gt; &lt;/i&gt;as algas boiaram &#224; ostensiva dos meus rios. Fui por isso p&#243;rticos em civiliza&#231;&#245;es perdidas, febres de arabescos em frisos inertes, enegrecimentos de eternidade nos coleios das colunas partidas, mastros apenas nos naufr&#225;gios remotos, degraus s&#243; de tronos abatidos, v&#233;us nada velando, e como que velando sombras, fantasmas erguidos do ch&#227;o como fiamos de tur&#237;bulos arremessados. Funesto foi o meu reinado e cheia de guerras nas fronteiras long&#237;nquas a minha paz imperial no meu pal&#225;cio. Pr&#243;ximo sempre o ru&#237;do indeciso das festas afastadas; prociss&#245;es sempre para ir passar por sob as minhas janelas; mas nem peixes de ouro encarnado nas minhas piscinas, nem pomos entre as verduras paradas do meu pomar; nem mesmo, pobres choupanas onde os outros s&#227;o felizes, o fumo de chamin&#233;s de al&#233;m de &#225;rvores adormecem com baladas de simplicidade o mist&#233;rio cong&#233;nito da minha consci&#234;ncia de mim.&lt;/p&gt;
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>375</pagina>
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    <titulo>LENDA IMPERIAL
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;PSIQUETIPIA (OU PSICOTIPIA)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;S&#237;mbolos. Tudo s&#237;mbolos... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se calhar, tudo &#233; s&#237;mbolos... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser&#225;s tu um s&#237;mbolo tamb&#233;m?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Olho, desterrado de ti, as tuas m&#227;os brancas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pessoas independentes de ti... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olho-as: tamb&#233;m ser&#227;o s&#237;mbolos? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ent&#227;o todo o mundo &#233; s&#237;mbolo e magia? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se calhar &#233;... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E porque n&#227;o h&#225;-de ser?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;S&#237;mbolos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou cansado de pensar...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu Deus! e n&#227;o sabes...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu pensava nos s&#237;mbolos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Respondo fielmente &#224; tua conversa por cima da mesa...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &#171;&lt;i&gt;It was very strange, wasn&#8217;t it?&lt;/i&gt;&#187;  &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &#171;&lt;i&gt;Awfully strange. And how did it end?&lt;/i&gt;&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &#171;&lt;i&gt;Well, it didn&#8217;t end. It never does, you know.&lt;/i&gt;&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, &lt;i&gt;you know...&lt;/i&gt; Eu sei...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, eu sei...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; o mal dos s&#237;mbolos, &lt;i&gt;you know.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Yes, I know&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conversa perfeitamente natural... Mas os s&#237;mbolos?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o tiro os olhos de tuas m&#227;os... Quem s&#227;o elas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu Deus! Os s&#237;mbolos... Os s&#237;mbolos...&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>296</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>PSIQUETIPIA (OU PSICOTIPIA)
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;To say the will (infinite) acts on matter which is finite is to talk nonsense. The infinite cannot work nor act upon the finite. An infinite will does not act at all; it is, very simply, a will-in-power, more simply still, it is a &lt;i&gt;power&lt;/i&gt;. The moment there is an act, this will-in&#8209;power becomes determined as will&#8209;in&#8209;act, is finite no longer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>25</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>To say the will (infinite) acts on matter...
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tinhas um pente espanhol&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tinhas um pente espanhol&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No cabelo portugu&#234;s,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas quando te olhava o sol,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eras s&#243; quem Deus te fez.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>49</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Tinhas um pente espanhol
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Aqui onde se espera&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Isso que outrora era,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aqui onde, dormindo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se sente a noite vindo,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E nada importaria&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que fosse antes o dia,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aqui, aqui estarei&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como no ex&#237;lio um rei,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Gozando da ventura&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De n&#227;o ter a amargura&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;De reinar, mas guardando&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O nome venerando...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que mais quer quem descansa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da dor e da esperan&#231;a,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que ter a nega&#231;&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Sossego, s&#243; sossego &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De todo o cora&#231;&#227;o?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <titulo>Aqui onde se espera
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;J&#225; estou tranquilo. J&#225; n&#227;o espero nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; sobre meu vazio cora&#231;&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desceu a inconsci&#234;ncia aben&#231;oada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De nem querer uma ilus&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
</conteudo>
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    <titulo>J&#225; estou tranquilo. J&#225; n&#227;o espero nada.
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Primeiro Fausto &#8212; Fausto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segundo Fausto &#8212; Ad&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Terceiro Fausto &#8212; Lusbel&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;D. Sebasti&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ligeia (poema dram&#225;tico)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trilogia dos Gigantes: Briareu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Typhon&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Livor&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Prometheus Revinctus (E)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The Duke of Parma (E)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The Ship of Fools (E)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alberto Caeiro - 1 vol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ricardo Reis - 1 ou 2 vol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#193;lvaro de Campos - 1 vol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contra a Democracia&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Itiner&#225;rio (&#171;livros&#187; v&#225;rios)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;English Poems (E)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sociologia Pol&#237;tica&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Auto das Bacantes&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Auto de Orfeu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quaresma, Decifrador&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Marcos Alves&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contos para Metaf&#237;sicos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cinco Di&#225;logos sobre a Tirania&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Legendas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Notas e Pref&#225;cios&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Impermanence&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;English Sonets (in &#171;books&#187;)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bernardo Soares (contos)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Farm&#225;cia do Evaristo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Teatro Est&#225;tico (series)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aristography (and translated adaptations)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Telegrapic Code&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>xxxvii</pagina>
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    <titulo>Primeiro Fausto
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;L. do D.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O MAJOR&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nada h&#225; que t&#227;o intimamente revele, que t&#227;o completamente interprete a subst&#226;ncia do meu infort&#250;nio nato como o tipo de devaneio que, na verdade mais acarinho, o b&#225;lsamo que com mais &#237;ntima frequ&#234;ncia escolho para a minha ang&#250;stia de existir. O resumo da ess&#234;ncia do que desejo &#233; s&#243; isto: dormir a vida. Quero de mais &#224; vida, para que a possa desejar ida; quero de mais a n&#227;o viver para ter sobre a vida um anseio demasiado importuno.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim, &#233; este, que vou deixar escrito, o melhor dos meus sonhos preferidos. &#192; noite, &#224;s vezes, com a casa quieta, porque os donos sa&#237;ssem ou se calem, fecho as vidra&#231;as da minha janela, tapo-as com as pesadas portas; [...] num fato velho, aconchego-me na cadeira profunda, e prendo-me no sonho de que sou um major reformado num hotel de prov&#237;ncia, &#224; hora de depois de jantar, quando ele seja, com um outro mais s&#243;brio, o conviva lento que ficou sem raz&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Suponho-me nascido assim. N&#227;o me interessa a juventude do major reformado, nem os postos militares por onde subiu at&#233; &#224;quele meu anseio. Independente do Tempo e da Vida, o major que me suponho n&#227;o &#233; posterior a nenhuma vida que tivesse; n&#227;o tem, nem teve parentes; existe eternamente &#224;quele viver daquele hotel provinciano, cansado j&#225; de conversas de anedotas que teve com os parceiros na demora.&lt;/p&gt;
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>380</pagina>
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    <titulo>O MAJOR
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;MAGNIFICAT&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; que passar&#225; esta noite interna, o universo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu, a minha alma, terei o meu dia? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; que despertarei de estar acordado? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei. O sol brilha alto, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imposs&#237;vel de fitar. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As estrelas pestanejam frio, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imposs&#237;veis de contar. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O cora&#231;&#227;o pulsa alheio, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imposs&#237;vel de escutar. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; que passar&#225; este drama sem teatro, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou este teatro sem drama, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E recolherei a casa? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde? Como? Quando? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens l&#225; no fundo? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; esse! &#201; esse! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esse mandar&#225; como Josu&#233; parar o sol e eu acordarei; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E ent&#227;o ser&#225; dia. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sorri, dormindo, minha alma! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sorri, minha alma, ser&#225; dia!&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>298</pagina>
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    <titulo>MAGNIFICAT
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;If 2 principles be real, are they real in virtue of being 2, or in virtue of being real?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reality then is something outside, above them.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>26</pagina>
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    <titulo>If 2 principles be real,
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Boca de riso escarlate&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E de sorriso de rir...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu cora&#231;&#227;o bate, bate,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bate de te ver e ouvir.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>49</pagina>
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    <titulo>Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir...
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Redemoinha o vento,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Anda &#224; roda o ar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vai meu pensamento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Comigo a sonhar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vai saber na altura&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como no arvoredo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se sente a frescura&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passar alta a medo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vai saber de eu ser&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquilo que eu quis&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando ouvi dizer&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que o vento diz.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Redemoinha o vento,
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Desce a n&#233;voa da montanha,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desce ou nasce ou n&#227;o sei qu&#234;...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha alma &#233; a tudo estranha,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando v&#234;, v&#234; que n&#227;o v&#234;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais vale a n&#233;voa que a vida...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desce, ou sobe: enfim, existe.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu n&#227;o sei em que consiste&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ter a emo&#231;&#227;o por vivida,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, sem querer, estou triste.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Desce a n&#233;voa da montanha,
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Edi&#231;&#245;es da Cosm&#243;polis:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Athena &#8212; Cadernos de Reconstru&#231;&#227;o Pag&#227; &#8212; dirigidos por Ant&#243;nio Mora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Athena &#8212; Cahiers de Reconstruction Paienne. Directeur: Ant&#243;nio Mora. Edition Fran&#231;aise,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;traduite par Claude Pasteur.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Athena &#8212; A contribution to Pagan Reconstruction &#8212; Edited by Ant&#243;nio Mora. English Edition,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;translated from Portuguese by James L. Mason.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Arco de Triunfo &#8212; Poemas, com um Pref&#225;cio-Manifesto &#8212; &#193;lvaro de Campos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Livro do Desassossego &#8212;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Escrito por Vicente Guedes, e publicado por Fernando Pessoa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Teatro Est&#225;tico &#8212;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Fernando Pessoa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Epis&#243;dios &#8212;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;Versos &#8212; Fernando Pessoa.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Talvez edi&#231;&#245;es de livros de:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M&#225;rio de S&#225; Carneiro, Alfredo Pedro Guisado, Manuel Ant&#243;nio de Almeida, Jo&#227;o Correia de Oliveira, etc.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Edi&#231;&#245;es da Cosm&#243;polis:
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;L. do D.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ser major reformado parece-me uma coisa ideal. &#201; pena n&#227;o se poder ter sido eternamente apenas major reformado.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A sede de ser completo deixou-me neste estado de m&#225;goa in&#250;til.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A futilidade tr&#225;gica da vida.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A minha curiosidade irm&#227; das cotovias.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A ang&#250;stia p&#233;rfida dos poentes, t&#237;mida enx&#225;rcia nas auroras.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sentemo-nos aqui. De aqui v&#234;-se mais c&#233;u. &#201; consoladora a expans&#227;o enorme desta altura estrelada. D&#243;i a vida menos ao v&#234;-la; passa por nossa face quente da vida o aceno pequeno dum leque leve.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>446</pagina>
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    <titulo>Ser major reformado parece-me uma coisa ideal.
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;PECADO ORIGINAL&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ah, quem escrever&#225; a hist&#243;ria do que poderia ter sido? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser&#225; essa, se algu&#233;m a escrever, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A verdadeira hist&#243;ria da humanidade.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O que h&#225; &#233; s&#243; o mundo verdadeiro, n&#227;o &#233; n&#243;s, s&#243; o mundo; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que n&#227;o h&#225; somos n&#243;s, e a verdade est&#225; a&#237;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sou quem falhei ser. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Somos todos quem nos supusemos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A nossa realidade &#233; o que n&#227;o conseguimos nunca.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; daquela nossa verdade &#8212; o sonho &#224; janela da inf&#226;ncia? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; daquela nossa certeza &#8212; o prop&#243;sito &#224; mesa de depois?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Medito, a cabe&#231;a curvada contra as m&#227;os sobrepostas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre o parapeito alto da janela de sacada, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; da minha realidade, que s&#243; tenho a vida? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; de mim, que sou s&#243; quem existo?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quantos C&#233;sares fui!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Na alma, e com alguma verdade; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na imagina&#231;&#227;o, e com alguma justi&#231;a; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na intelig&#234;ncia, e com alguma raz&#227;o &#8212; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quantos C&#233;sares fui! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quantos C&#233;sares fui! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quantos C&#233;sares fui!&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>299</pagina>
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    <titulo>PECADO ORIGINAL
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968 (imp. 1993).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;The Infinite and the Eternal are the sensible expressions of the Immense.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The Infinite and the Eternal, as elevations of the second degree, are the second stage of man's aspiration after truth.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The Infinite and the Eternal are man's attempt to find an Absolute; they are, in very deed, a degrading of the Absolute.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;*&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Categories of Intellect&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Being&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;Extension&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;:&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Time&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Situation&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Space&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;Relation&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Quality. Quantity. Possession.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>27</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>The Infinite and the Eternal are the sensible expressions...
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Momento impercept&#237;vel,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que coisa foste, que h&#225;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; em mim qualquer coisa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nunca passar&#225;?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sei que, passados anos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que isto &#233; lembrarei,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem saber j&#225; o que era,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que at&#233; j&#225; o n&#227;o sei.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas, nada s&#243; que fosse,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fica dele um ficar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que ser&#225; suave ainda&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando eu o n&#227;o lembrar.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>163</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Momento impercept&#237;vel,
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;J&#225; n&#227;o me importo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;At&#233; com o que amo ou creio amar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sou um navio que chegou a um porto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E cujo movimento &#233; ali estar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nada me resta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do que quis ou achei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cheguei da festa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como fui para l&#225; ou ainda irei&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Indiferente&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A quem sou ou suponho que mal sou,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Fito a gente&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que me rodeia e sempre rodeou,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Com um olhar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que, sem o poder ver,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei [?] que &#233; sem ar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De olhar a valer.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E s&#243; me n&#227;o cansa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que a brisa me traz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De s&#250;bita mudan&#231;a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No que nada me faz.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>135</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>J&#225; n&#227;o me importo
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Bernardo Soares&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Rua dos Douradores&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os trechos v&#225;rios (Sinfonia de uma Noite Inquieta, Marcha F&#250;nebre, Na Floresta do Alheamento)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Experi&#234;ncias de Ultra-Sensa&#231;&#227;o:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;1. Chuva Obl&#237;qua&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2. Passos da Cruz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3. Os poemas de absor&#231;&#227;o musical que incluem Rio entre Sonhos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;4. V&#225;rios outros poemas que representam iguais experi&#234;ncias (Distinguir &#171;em congru&#234;ncia com a esfinge&#187; &#8212; se valer a pena conserv&#225;-lo &#8212; do &#171;Em horas inda louras&#187; meu)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Soares n&#227;o &#233; poeta. Na sua poesia &#233; imperfeito e sem a continuidade que tem na prosa; os seus versos s&#227;o o lixo da sua prosa, aparas do que escreve a valer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>s.d.</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ.: &lt;b&gt;Obra Po&#233;tica. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o, introdu&#231;&#227;o e notas de Maria Aliete Galhoz.) Rio de Janeiro: Ed. Jos&#233; Aguilar, 1960.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>xxxix</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Bernardo Soares &#8212; Rua dos Douradores
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;DACTILOGRAFIA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tra&#231;o sozinho, no meu cub&#237;culo de engenheiro, o plano, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Firmo o projecto, aqui isolado, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Remoto at&#233; de quem eu sou.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#225;usea da vida! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que abjec&#231;&#227;o esta regularidade! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que sono este ser assim!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Ilustra&#231;&#245;es, talvez, de qualquer livro de inf&#226;ncia), &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eram grandes paisagens do Norte, expl&#237;citas de neve, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outrora.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Temos todos duas vidas: &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A verdadeira, que &#233; a que sonhamos na inf&#226;ncia, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que continuamos sonhando, adultos num substrato de n&#233;voa; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A falsa, que &#233; a que vivemos em conviv&#234;ncia com outros, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; a pr&#225;tica, a &#250;til, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquela em que acabam por nos meter num caix&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Na outra n&#227;o h&#225; caix&#245;es, nem mortes,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; s&#243; ilustra&#231;&#245;es de inf&#226;ncia:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Grandes livros coloridos, para ver mas n&#227;o ler;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Grandes p&#225;ginas de cores para recordar mais tarde.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na outra somos n&#243;s,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na outra vivemos;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta morremos, que &#233; o que viver quer dizer;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste momento, pela n&#225;usea, vivo na outra...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ergue a voz o tic-tac estalado das m&#225;quinas de escrever.&lt;/p&gt;
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    <data>19-12-1933</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Presen&#231;a&lt;/b&gt;, 2&#170; s&#233;rie, n&#186;1. Coimbra: Nov. 1939.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>301</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>DACTILOGRAFIA
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;XI&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;A &#218;LTIMA NAU&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Levando a bordo El-Rei D. Sebasti&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E erguendo, como um nome, alto o pend&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do Imp&#233;rio,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi-se a &#250;ltima nau, ao sol aziago&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Erma, e entre choros de &#226;nsia e de pressago&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mist&#233;rio.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o voltou mais. A que ilha indescoberta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aportou? Voltar&#225; da sorte incerta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que teve?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deus guarda o corpo e a forma do futuro,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E breve.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ah, quanto mais ao povo a alma falta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais a minha alma atl&#226;ntica se exalta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E entorna,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E em mim, num mar que n&#227;o tem tempo ou espa&#231;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo entre a cerra&#231;&#227;o teu vulto ba&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que torna.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei a hora, mas sei que h&#225; a hora,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mist&#233;rio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Surges ao sol em mim, e a n&#233;voa finda:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mesma, e trazes o pend&#227;o ainda&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do Imp&#233;rio.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>XI. A &#218;LTIMA NAU
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Vai alto pela folhagem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um rumor de pertencer,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como se houvesse na aragem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma raz&#227;o de querer.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas, sim, &#233; como se o som&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do vento no arvoredo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tivesse um intuito, ou bom&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou mau, mas feito em segredo,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E que, pensando no abismo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde os ventos s&#227;o ningu&#233;m,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Subisse at&#233; onde cismo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, alto, alado, num vaiv&#233;m&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;De tormenta comovesse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As &#225;rvores agitadas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;At&#233; que delas me viesse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este mau conto de fadas.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>164</pagina>
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    <titulo>Vai alto pela folhagem
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;O v&#233;u das l&#225;grimas n&#227;o cega.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo, a chorar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que essa m&#250;sica me entrega &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A m&#227;e que eu tinha, o antigo lar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A crian&#231;a que fui,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O horror do tempo, porque flui,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O horror da vida, porque &#233; s&#243; matar!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo e adorme&#231;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num torpor em que me esque&#231;o &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que existo inda neste mundo que h&#225;...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou vendo minha m&#227;e tocar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E essas m&#227;os brancas e pequenas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cuja car&#237;cia nunca mais me afagar&#225; &#8212;,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tocam ao piano, cuidadosas e serenas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Meu Deus!)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;Un soir &#224; Lima.&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, vejo tudo claro!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou outra vez ali.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Afasto do luar externo [?] e raro &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os olhos com que o vi.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas qu&#234;? Divago e a m&#250;sica acabou...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Divago como sempre divaguei&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem ter na alma certeza de quem sou,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem verdadeira f&#233; ou firme lei&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Divago, crio eternidades minhas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Num &#243;pio de mem&#243;ria e de abandono.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entronizo fant&#225;sticas rainhas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem para elas ter o trono.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sonho porque me banho &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No rio irreal da m&#250;sica evocada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha alma &#233; uma crian&#231;a esfarrapada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que dorme num recanto obscuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De meu s&#243; tenho,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na realidade certa e acordada, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os trapos da minha alma abandonada,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a cabe&#231;a que sonha contra o muro.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas, m&#227;e, n&#227;o haver&#225;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um Deus que me n&#227;o torne tudo v&#227;o, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(ou) Um outro mundo em que isso agora est&#225;?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Divago ainda: tudo &#233; ilus&#227;o. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;Un soir &#224; Lima&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quebra-te, cora&#231;&#227;o...&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>137</pagina>
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    <titulo>O v&#233;u das l&#225;grimas n&#227;o cega.
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Obras ant&#243;nimas:&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Em Ingl&#234;s:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The Mad Fiddler &#8212; Poems&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Five Poems &#8212; or Three Unprintable Poems&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Prometheus Revinctus&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fifty Sonnets or Seventy &#8212;one Sonnets&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(perhaps also another book)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Em Portugu&#234;s:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Itiner&#225;rio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Livro do Desassossego&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Teatro Est&#225;tico&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Meio-autonimamente:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#193;lvaro de Campos: Arco de Triunfo&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>53</pagina>
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    <titulo>Obras ant&#243;nimas:
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  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;MARINETTI, ACAD&#201;MICO&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;L&#225; chegam todos, l&#225; chegam todos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qualquer dia, salvo venda, chego eu tamb&#233;m...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se nascem, afinal, todos para isso...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o tenho rem&#233;dio sen&#227;o morrer antes,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o tenho rem&#233;dio sen&#227;o escalar o Grande Muro...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se fico c&#225;, prendem-me para ser social...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;L&#225; chegam todos, porque nasceram para Isso,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E s&#243; se chega ao Isso para que se nasceu...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;L&#225; chegam todos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Marinetti, acad&#233;mico...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;As Musas vingaram-se com focos el&#233;ctricos, meu velho,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a tua din&#226;mica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f......&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
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    <titulo>MARINETTI, ACAD&#201;MICO
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;XII&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;PRECE&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;b&gt;
                &lt;i /&gt;
              &lt;/b&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Senhor, a noite veio&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt; &lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;e a alma &#233; vil.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tanta foi a tormenta e a vontade!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Restam-nos hoje, no sil&#234;ncio hostil,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mar universal e a saudade.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas a chama, que a vida em n&#243;s criou,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se ainda h&#225; vida ainda n&#227;o &#233; finda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O frio morto em cinzas a ocultou:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A m&#227;o do vento pode ergu&#234;-la ainda.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;D&#225; o&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt; &lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;sopro, a aragem &#8212; ou desgra&#231;a ou &#226;nsia &#8212;,&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com que a chama do esfor&#231;o se remo&#231;a,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E outra vez conquistemos a Dist&#226;ncia &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do mar ou outra, mas que seja nossa!&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>73</pagina>
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    <titulo>XII. PRECE
</titulo>
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Ouvi os s&#225;bios todos discutir,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Podia a todos refutar a rir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas preferi, bebendo na ampla sombra,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Indefinidamente s&#243; ouvir.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Manda quem manda porque manda, nem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Importa que mal mande ou mande bem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos s&#227;o grandes quando a hora &#233; sua.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por baixo cada um &#233; o mesmo algu&#233;m.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o invejo a pompa, e ao poder,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Visto que pode, sem raz&#227;o nem ser.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Obedece, que a vida dura pouco&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem h&#225; por isso muito que sofrer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Ouvi os s&#225;bios todos discutir,
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A Tenta&#231;&#227;o do Longe (conto)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cr&#243;nicas Anormais&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;I. O T&#233;dio (se n&#227;o fosse o t&#233;dio, aborrec&#237;amo-nos &#8212;Lu&#237;s VIII)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;II. Elogio dos C[astos] dos P[ederastas] e dos M[asturbados]&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;L. do Des. III. O Para&#237;so da Febre&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;A Laguna da Febre&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Veneza da Febre&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Vida Febril&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;IV. Mancheia de verdades novas para os artistas do futuro&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>A Tenta&#231;&#227;o do Longe (conto)
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Primeiro&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;D. SEBASTI&#195;O&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;b&gt;
                &lt;i /&gt;
              &lt;/b&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esperai! Ca&#237; no areal e na hora adversa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que Deus concede aos seus&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para o intervalo em que esteja a alma imersa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em sonhos que s&#227;o Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que importa o areal e a morte e a desventura&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se com Deus me guardei?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; O que eu me sonhei que eterno dura,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; Esse que regressarei.&lt;/p&gt;
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    <titulo>Primeiro: D. SEBASTI&#195;O
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Segundo&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;O QUINTO IMP&#201;RIO&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;b&gt;
                &lt;i /&gt;
              &lt;/b&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Triste de quem vive em casa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contente com o seu lar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem que um sonho, no erguer de asa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fa&#231;a at&#233; mais rubra a brasa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da lareira a abandonar!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Triste de quem &#233; feliz!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vive porque a vida dura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada na alma lhe diz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais que a li&#231;&#227;o da raiz &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ter por vida a sepultura.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Eras sobre eras se somem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No tempo que em eras vem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser descontente &#233; ser homem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que as for&#231;as cegas se domem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pela vis&#227;o que a alma tem!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E assim, passados os quatro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tempos do ser que sonhou,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A terra ser&#225; teatro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do dia claro, que no atro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da erma noite come&#231;ou.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Gr&#233;cia, Roma, Cristandade,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Europa &#8212; os quatro se v&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para onde vai toda idade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem vem viver a verdade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que morreu D. Sebasti&#227;o?&lt;/p&gt;
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    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:31+01:00</created-at>
    <data>21-2-1933</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>82</pagina>
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    <titulo>Segundo: O QUINTO IMP&#201;RIO
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A EVOLU&#199;&#195;O DO COM&#201;RCIO&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Este estudo &#233; propriamente nosso. N&#227;o lhe fomos buscar os elementos a nenhum tratado. N&#227;o tivemos mestre para escrev&#234;-lo. O conhecimento atento da hist&#243;ria, e a an&#225;lise firme dos factos que ela fornece, foi quanto nos foi preciso para a sua elabora&#231;&#227;o. Como n&#227;o plagi&#225;mos, nem imit&#225;mos, nem se quer aceit&#225;mos criticamente, mas pens&#225;mos por nossa cabe&#231;a, visto que ela existe, achamos conveniente come&#231;ar este artigo por dizer que ele &#233; nosso, e que em nenhum ensaio ou tratado estranho se encontra o estudo que ele encerra, nem, portanto, os ensinamentos que desse estudo se derivam. O seu a seu dono, mesmo quando sejamos n&#243;s o dono...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A actividade social chamada com&#233;rcio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas de sociedades imposs&#237;veis, &#233; contudo um dos dois caracter&#237;sticos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro caracter&#237;stico distintivo &#233; o que se denomina cultura. Entre o com&#233;rcio e a cultura houve sempre uma rela&#231;&#227;o &#237;ntima, ainda n&#227;o bem explicada, mas observada por muitos. &#201;, com efeito, not&#225;vel que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na cria&#231;&#227;o de valores culturais s&#227;o as que mais proeminentemente se destacaram no exerc&#237;cio ass&#237;duo do com&#233;rcio. Comercial, eminentemente comercial, foi Atenas. Comercial, eminentemente comercial, foi Floren&#231;a.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A rela&#231;&#227;o entre os dois fen&#243;menos &#233; ao mesmo tempo de paralelismo e de causa-e-efeito. Toda a vida &#233; essencialmente rela&#231;&#227;o, e a vida social, portanto, &#233; essencialmente rela&#231;&#227;o entre mdiv&#237;duos, quando simples vida social; e entre povos, quando vida civilizacional. Ora, como os fen&#243;menos da vida superior s&#227;o de duas ordens &#8212; materiais e mentais &#8212;, devem ser materiais e mentais os fen&#243;menos da vida superior civilizacional; e, como a vida &#233; essencialmente rela&#231;&#227;o, esses fen&#243;menos devem ser de rela&#231;&#227;o. Como o com&#233;rcio &#233;, por sua natureza, uma entrepenetra&#231;&#227;o econ&#243;mica das sociedades, &#233; no com&#233;rcio que as rela&#231;&#245;es materiais entre sociedades atingem o seu m&#225;ximo; e como a cultura &#233; uma entrepenetra&#231;&#227;o art&#237;stica e filos&#243;fica das sociedades, &#233; na cultura que as rela&#231;&#245;es mentais entre povos conseguem o seu auge. Segue que uma sociedade com um alto grau de desenvolvimento material e mental e, portanto, com um alto desenvolvimento da vida de rela&#231;&#227;o, for&#231;osamente ser&#225; altamente comercial e altamente cultural, paralelamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acresce, ainda, que o com&#233;rcio &#233; uma distribui&#231;&#227;o, centr&#237;fuga ou centr&#237;peta, da produ&#231;&#227;o material, ou ind&#250;stria; e a cultura &#233; uma distribui&#231;&#227;o, centr&#237;fuga ou centr&#237;peta, da produ&#231;&#227;o mental, ou arte. Os fen&#243;menos s&#227;o, pois, rigorosamente paralelos. E, assim como nos pa&#237;ses de grande produ&#231;&#227;o art&#237;stica a curiosidade pela arte alheia se desenvolve, pois que a cria&#231;&#227;o art&#237;stica pr&#243;pria n&#227;o pode exercer-se sem interesse pela arte, e portanto tamb&#233;m pela arte dos outros, assim tamb&#233;m num pa&#237;s de grande produ&#231;&#227;o industrial a necessidade de produtos, alheios &#8212; que o pr&#243;prio pa&#237;s n&#227;o pode, ou n&#227;o pode convenientemente, produzir &#8212; nasce do est&#237;mulo &#224;s necessidades internas que essa grande produ&#231;&#227;o criou, depois de ter tido nelas origem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas entre os dois fen&#243;menos &#8212; com&#233;rcio e cultura &#8212; h&#225;, tamb&#233;m, uma rela&#231;&#227;o de causa-e-efeito. A cultura, ao aperfei&#231;oar-se, tende para a universalidade, isto &#233;, para n&#227;o excluir da sua curiosidade elemento algum estranho. Quanto mais f&#225;cil for o contacto com elementos estranhos tanto mais essa curiosidade se animar&#225;, e a cultura permanecer&#225; viva. Ora como o fen&#243;meno material precede sempre o fen&#243;meno mental, o meio mais seguro de se formarem contactos mentais &#233; terem-se formado contactos materiais; e como a cultura exige necessariamente um contacto demorado e pac&#237;fico, o contacto material, que a estimule, ter&#225; que ser demorado e pac&#237;fico &#8212; e &#233; isto mesmo que, em contraposi&#231;&#227;o &#224; guerra, distingue a actividade social chamada com&#233;rcio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O estabelecimento, um pouco demorado desta analogia ou paridade entre o fen&#243;meno cultural e o com&#233;rcio n&#227;o &#233; uma esp&#233;cie de degress&#227;o ou devaneio neste artigo e nesta Revista. Visa, antes de mais nada, a mostrar claramente a import&#226;ncia social do com&#233;rcio, e a mostr&#225;-la &#224;queles mesmos que frequentemente a esquecem ou a negam. E como esses, em geral, s&#227;o os que s&#227;o ou se julgam pessoas de cultura, o argumento, que se lhes op&#245;e, &#233; tirado das pr&#243;prias preocupa&#231;&#245;es deles; responde-se-lhes na pr&#243;pria l&#237;ngua que falam ou dizem falar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas esta demonstra&#231;&#227;o visa, tamb&#233;m, a estabelecer &#8212; para o que vamos expor do que nos parece terem sido, adentro da civiliza&#231;&#227;o europeia, os est&#225;dios da evolu&#231;&#227;o do com&#233;rcio &#8212; uma esp&#233;cie de contraprova constante. Se com&#233;rcio e cultura s&#227;o actividades sociais necessariamente an&#225;logas e paralelas, deve haver uma analogia e um paralalelismo entre os est&#225;dios da evolu&#231;&#227;o comercial e os da evolu&#231;&#227;o cultural. Determinado, pois, um est&#225;dio da evolu&#231;&#227;o do com&#233;rcio, ser&#225; f&#225;cil verificar se est&#225; bem determinado, verificando-se se lhe corresponde um est&#225;dio paralelo de cultura.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tr&#234;s s&#227;o as fases que, a nosso ver, o com&#233;rcio tem atravessado no decurso da civiliza&#231;&#227;o a que pertencemos &#8212; isto &#233;, daquela civiliza&#231;&#227;o que come&#231;a na chamada Idade M&#233;dia e de a&#237; se estende aos nossos dias. A primeira frase &#8212; a do comerciante mercador (assim lhe chamaremos) &#8212; vai do in&#237;cio dessa civiliza&#231;&#227;o at&#233; ao come&#231;o da &#233;poca &#8220;moderna&#8221;, isto &#233;, o per&#237;odo, do s&#233;culo dezoito para o dezanove, em que se deu o advento da m&#225;quina e do individualismo econ&#243;mico. A segunda fase &#8212; a que chamaremos do comerciante negociante &#8212; vai de aqui at&#233; &#224; vinda, n&#227;o j&#225; da m&#225;quina, mas da ci&#234;ncia da m&#225;quina, ou seja do que denota a forma&#231;&#227;o do tipo industrial moderno &#8212; a predomin&#226;ncia absoluta (pois at&#233; ali era s&#243; relativa) da ci&#234;ncia, por meio da engenharia, na vida pr&#225;tica; a mecaniza&#231;&#227;o, como dizia Rathenau. A terceira fase &#8212; a do comerciante industrial (tal &#233; o nome que lhe da-&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;remos) &#8212; &#233; a que parte e nasce deste &#250;ltimo fen&#243;meno e est&#225; dando a cor ao tempo presente. A raz&#227;o dos tr&#234;s nomes distintivos, de que acabamos de servir-nos, ver-se-&#225; no decurso desta breve exposi&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cumpre, por&#233;m, e sempre, advertir que a realidade n&#227;o &#233; uma r&#233;gua, nem uma s&#233;rie de caixas: n&#227;o tem marcas distintas, nem conhece separa&#231;&#245;es absolutas. Quando, portanto, estabelecemos, para a nossa conveni&#234;ncia mental, &#8220;fases&#8221; e &#8220;per&#237;odos&#8221; na vida e na hist&#243;ria, e indicamos certos fen&#243;menos como sinais do princ&#237;pio e do fim dessas fases, n&#227;o devemos esquecer que esses fen&#243;menos, que nos servem convenientemente de balizas, n&#227;o s&#227;o instant&#226;neos mas prolongados; e que, assim, h&#225; um largo espa&#231;o em que duas &#8220;&#233;pocas&#8221; sucessivas se confundem e se misturam, a ponto de n&#227;o podermos bem dizer se tal ano ou caso est&#225; em uma ou outra delas, ou se n&#227;o estar&#225;, por assim falar, em as duas ao mesmo tempo. Com esta reserva fundamental t&#234;m sempre que entender-se as classifica&#231;&#245;es que se fazem na vida e, sobretudo, na hist&#243;ria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acresce, em mat&#233;ria hist&#243;rica, uma outra reserva, n&#227;o menos importante. &#8220;Civiliza&#231;&#227;o&#8221; &#233; um termo abstracto; a realidade concreta est&#225; nas na&#231;&#245;es, ou nas regi&#245;es ou camadas sociais delas, que comp&#245;em essa &#8220;civiliza&#231;&#227;o&#8221;. Ora essas v&#225;rias na&#231;&#245;es e, dentro elas, essas partes delas, n&#227;o caminham a par e no mesmo passo. No mesmo s&#233;culo h&#225; pa&#237;ses que est&#227;o vivendo em &#8220;s&#233;culos&#8221; diferentes; no mesmo pais h&#225; regi&#245;es e camadas sociais que est&#227;o vivendo simultaneamente em &#233;pocas diversas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando estudamos um per&#237;odo hist&#243;rico, e buscamos determinar &lt;i&gt;os seus caracter&#237;sticos, &lt;/i&gt;fazemo-lo pelos pa&#237;ses e pelas camadas sociais que est&#227;o na vanguarda t&#237;pica do movimento que nos parece ser o da civiliza&#231;&#227;o, muito embora esses pa&#237;ses e essas camadas sejam na ocasi&#227;o uma minoria. Nem se deve confundir a vanguarda da &#8220;civiliza&#231;&#227;o&#8221; com a vanguarda da vitalidade social: quando &#233; ascendente a curva da civiliza&#231;&#227;o, a vanguarda est&#225; no ponto mais alto; quando &#233; descendente, est&#225; no ponto mais baixo. Avan&#231;a-se para a morte como para a vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com estas reservas fatais ter&#225; o leitor consciente que entender, n&#227;o s&#243; este breve ensaio, mas qualquer estudo hist&#243;rico em que se fale da &#8220;evolu&#231;&#227;o&#8221;, de &#8220;fases de progresso&#8221;, de &#8220;per&#237;odos de civiliza&#231;&#227;o&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Na &#233;poca em que colocamos o primeiro est&#225;dio da evolu&#231;&#227;o do com&#233;rcio a civiliza&#231;&#227;o tinha inicialmente, e substancialmente, o tipo guerreiro e religioso. Sendo assim, o exerc&#237;cio de qualquer mister que n&#227;o fosse o das armas ou do sacerd&#243;cio resultava, para a imagina&#231;&#227;o de todas as classes, inferior e desprez&#237;vel. Os misteres que tinham por fim vis&#237;vel o lucro tinha-os essa &#233;poca por uma esp&#233;cie de servid&#227;o volunt&#225;ria, e o distinguia com o ferrete com que se marca a sordidez. Na propor&#231;&#227;o em que ainda sobrevive (pois h&#225; fen&#243;menos sociais em que ainda sobrevive), o esp&#237;rito que animou a forma&#231;&#227;o e a conserva&#231;&#227;o dessa &#233;poca, nessa mesma propor&#231;&#227;o se mant&#233;m ainda o desprezo pelo comerciante. Atinge de prefer&#234;ncia, &#233; certo, o pequeno comerciante de retalho, cuja mod&#233;stia social lhe n&#227;o confere o antigo opr&#243;bio. E, at&#233; certo ponto, o pequeno retalhista &#8212; neste mundo moderno de grandes armaz&#233;ns e grandes armazenistas &#8212; &#233; realmente uma sobreviv&#234;ncia, embora uma sobreviv&#234;ncia necess&#225;ria. Traz, portanto, ligado a si, com os caracter&#237;sticos da &#233;poca ida em que todos eram mentalmente como ele &#8212; por muito que materialmente divergissem &#8212;, uma esp&#233;cie de sombra do desd&#233;m que nessa &#233;poca lhe davam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta atitude social, universal na Idade M&#233;dia para o com&#233;rcio inteiro, sofreu uma transforma&#231;&#227;o, n&#227;o decisiva mas epis&#243;dica, na Renascen&#231;a; e, como &#233; natural, sobretudo a sofreu nas pequenas rep&#250;blicas semiburguesas que distinguiam principalmente a It&#225;lia nesse per&#237;odo. Mas, no conceito geral, o comerciante n&#227;o deixou de ser encarado como, mais tarde &#8212; fora j&#225; da &#233;poca da verdadeira servid&#227;o &#8212;, haveria de ser encarado o oper&#225;rio; como, ali&#225;s, muita gente ainda encara o oper&#225;rio nos nossos dias. E, se o comerciante escapava a este opr&#243;bio nas cidades-estados da Renascen&#231;a era, em verdade, n&#227;o s&#243; pelo car&#225;cter especial da civiliza&#231;&#227;o nessas comunidades, mas principalmente em virtude da riqueza que acumulasse. A &#233;poca n&#227;o dava para melhor conceito. Era o homem rico, e n&#227;o o comerciante, que nessas sociedades desnobilizadas conseguia a considera&#231;&#227;o social. Subsistia forte o velho instinto aristocr&#225;tico: tornadas necessariamente, em muitos casos, pequenas plutocracias, as cidades-estado da Renascen&#231;a honravam essencialmente o comerciante, quando o honravam, n&#227;o como comerciante mas como plutocrata &#8212; como, portanto, em certo modo, aristocrata adentro desse sistema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A contraprova, segundo o crit&#233;rio que estabelecemos, &#233; f&#225;cil. A emerg&#234;ncia epis&#243;dica do comerciante na vida social &lt;i&gt;foi &lt;/i&gt;acompanhada nesta &#233;poca, e exactamente nas mesmas comunidades, pela emerg&#234;ncia, igualmente epis&#243;dica, do artista. O facto &#233; conhecid&#237;ssimo. O tipo geral de cultura, por&#233;m, era de pura erudi&#231;&#227;o; e, sendo assim, a cultura era necessariamente restrita. Era, ainda, servil e emp&#237;rica, pois a simples erudi&#231;&#227;o &#233;, de sua natureza, parasit&#225;ria; e o esp&#237;rito cient&#237;fico, que ent&#227;o renascia, n&#227;o penetrava, sen&#227;o incerta e episodicamente, na cultura. Onde havia cultura, por&#233;m, e notadas as reservas expostas, ela era intensa, profunda e curiosa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O com&#233;rcio, nesta &#233;poca, tinha exactamente o car&#225;cter emp&#237;rico, &#8220;especial&#8221; e, como com&#233;rcio consciente, epis&#243;dico, que a cultura do mesmo tempo revela. A mentalidade do comerciante desse tempo era a do nosso comerciante de retalho, ainda que exercesse o com&#233;rcio em grande escala. O com&#233;rcio por grosso, como hoje o entendemos, n&#227;o era conhecido. &#193; parte isto, havia um com&#233;rcio emp&#237;rico, de aventura. Assim, ao conceito social que se formava do com&#233;rcio correspondia, em certo modo, a pr&#243;pria primitividade dele, ou, em outras palavras, o conceito que ele formava de si mesmo. Nenhum elemento de expans&#227;o consciente, ou de organiza&#231;&#227;o esbo&#231;ada, havia entrado, ou podia entrar, no com&#233;rcio deste tempo. A inexist&#234;ncia da contabilidade, propriamente dita, define suficientemente o car&#225;cter comercial do per&#237;odo. As determinantes sociais do tempo eram outras; o com&#233;rcio vivia &#224; parte, se n&#227;o economicamente, pelo menos socialmente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; esta a fase a que cham&#225;mos &#8220;do comerciante mercador&#8221;. Em certo sentido, e por uma raz&#227;o j&#225; exposta, poder&#237;amos ter-lhe chamado &#8220;do comerciante oper&#225;rio&#8221;. Haveria restri&#231;&#245;es especiais que fazer; mas em sua generalidade representativa, a designa&#231;&#227;o n&#227;o seria injusta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim as coisas se mantiveram, salvas as prim&#237;cias das for&#231;as vindouras, at&#233; se darem, ou se acentuarem, os tr&#234;s fen&#243;menos que transformaram, simult&#226;nea e relacionadamente, os m&#233;todos comerciais e a situa&#231;&#227;o social do comerciante. Esses tr&#234;s fen&#243;menos foram: 1) a transforma&#231;&#227;o social, havia muito preparada, que irrompeu violentamente na Revolu&#231;&#227;o Francesa; 2) o desenvolvimento da vida ultramarina; e 3) o advento da m&#225;quina e, correlativamente, o aperfei&#231;oamento dos transportes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O efeito da primeira destas causas foi psicologicamente curioso. A altera&#231;&#227;o da situa&#231;&#227;o social do comerciante, proveniente da altera&#231;&#227;o geral de posi&#231;&#245;es sociais, transformou necessariamente a mentalidade dele. O mesmo homem tem uma alma diferente, sobretudo na ac&#231;&#227;o, quando se sente livre e quando se sente subordinado.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ao subordinado s&#227;o organicamente imposs&#237;veis a iniciativa e a organiza&#231;&#227;o. Na &#233;poca em que era socialmente subordinado, n&#227;o podia o comerciante sequer pensar em dar ao com&#233;rcio uma expans&#227;o coerente, 1.&#186;, porque essa expans&#227;o era automaticamente tolhida por for&#231;as sociais invenc&#237;veis; 2.&#186;, porque, repercutidas essas for&#231;as sociais subconscientemente, no esp&#237;rito do pr&#243;prio comerciante, a ele nem sequer ocorria a possibilidade dessa expans&#227;o coerente. Os esp&#237;ritos subordinados s&#243; se sentem bem na rotina, porque a rotina &#233; a subordina&#231;&#227;o. Liberto, por&#233;m, o comerciante, pela transforma&#231;&#227;o social moderna, dos &#250;ltimos v&#237;nculos da Idade M&#233;dia, pode por fim dedicar-se ao com&#233;rcio, n&#227;o como a um simples modo de ganhar a vida mas como a uma profiss&#227;o; n&#227;o como a um mister mas como a uma arte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi pois nesta &#233;poca que se definiram ou se iniciaram os tipos de com&#233;rcio hoje correntes, e que n&#243;s, nascidos j&#225; tarde na nova era, mal podemos pensar que n&#227;o existissem sempre. Aperfei&#231;oou-se o esp&#237;rito de distribui&#231;&#227;o e o pr&#243;prio esp&#237;rito de com&#233;rcio. Desta &#233;poca datam, organizadamente, o com&#233;rcio de atacado e o com&#233;rcio de concentra&#231;&#227;o; nela se desenvolveu a vida comission&#225;ria e, mais tarde, se formaram os &#8220;grandes armaz&#233;ns" de retalho, os consignat&#225;rios e, por especializa&#231;&#245;es sucessivas, os agentes de toda a ordem que hoje simplificam as opera&#231;&#245;es de importa&#231;&#227;o e exporta&#231;&#227;o, de distribui&#231;&#227;o e de transporte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Paralelamente a isto, os reflexos econ&#243;micos do individualismo do tempo, estimulando &#8212; fomentando mesmo &#8212; a concorr&#234;ncia, compeliram o comerciante a sistematizar cada vez mais os seus esfor&#231;os, a orientar cada vez mais pensadamente a sua actividade, a fazer do seu com&#233;rcio, n&#227;o s&#243; uma arte, mas uma arte cuidadosamente exercida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste mesmo sentido influ&#237;ram poderosamente as outras duas causas que cit&#225;mos como determinantes deste per&#237;odo comercial. O desenvolvimento da vida ultramarina, estimulando largamente o com&#233;rcio a grande dist&#226;ncia e em grande escala, veio alargar os horizontes habituais do com&#233;rcio normal e for&#231;ar grande n&#250;mero de comerciantes a, segundo a frase inglesa, &#8220;pensar imperialmente&#8221;. E o advento da m&#225;quina, for&#231;ando inevitavelmente a ind&#250;stria a tomar contacto directo com a ci&#234;ncia, alguma coisa insensivelmente lhe insuflou da sistematiza&#231;&#227;o que &#233; a ess&#234;ncia desta; e como o com&#233;rcio est&#225; em contacto &#237;ntimo com a ind&#250;stria, para ele foi tamb&#233;m passando lentamente esse esp&#237;rito de sistematiza&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em contraposi&#231;&#227;o a isto, mas de acordo com o individualismo da &#233;poca, o grande impulso que o com&#233;rcio recebera, a liberta&#231;&#227;o que teve da inferioriza&#231;&#227;o social, as facilidades que estabeleceu a multiplica&#231;&#227;o de transportes e a sua melhoria &#8212; tudo isto fez com que se canalizassem para o com&#233;rcio in&#250;meras actividades sem prepara&#231;&#227;o especial ou tradicional para o exerc&#237;cio dele. E isto retardou e complicou a sistematiza&#231;&#227;o que se esbo&#231;ava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; esta fase toda que cham&#225;mos &#8220;do comerciante negociante&#8221;. Empreg&#225;mos esta express&#227;o n&#227;o como boa, mas &#224; falta de melhor, e sobretudo para n&#227;o dizer &#8220;do comerciante comerciante&#8221;, como seria realmente pr&#243;prio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que queremos indicar por ela &#233; que neste per&#237;odo o com&#233;rcio tomou realmente, e at&#233; certo ponto, consci&#234;ncia de si mesmo. Organizou-se &lt;i&gt;individualmente, &lt;/i&gt;analiticamente. Tornou-se arte, mais ou menos bem aplicada. Distingue este per&#237;odo, significativamente, a organiza&#231;&#227;o definida da contabilidade. Uma coisa ainda faltava a este com&#233;rcio &#8212; o elemento final da organiza&#231;&#227;o, que &#233; a coordena&#231;&#227;o, a s&#237;ntese. H&#225; organiza&#231;&#227;o, mas fragment&#225;ria; h&#225; sistematiza&#231;&#227;o, mas ainda instintiva. Por isso nos servimos da palavra &#8220;arte&#8221; ao caracterizar este per&#237;odo, e errar&#237;amos se us&#225;ssemos de qualquer termo que se aproximasse de &#8220;ci&#234;ncia&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O fen&#243;meno cultural, que acompanha este fen&#243;meno comercial, &#233; de um paralelismo flagrante e exacto. O que distingue, nessa esfera, esta &#233;poca &#233; a preocupa&#231;&#227;o cient&#237;fica e a da vulgariza&#231;&#227;o ou populariza&#231;&#227;o da cultura. Com a ci&#234;ncia, a cultura toma consci&#234;ncia de si mesma; com o querer por for&#231;a vulgarizar a ci&#234;ncia, perturba e perverte essa consci&#234;ncia que logrou. A vulgariza&#231;&#227;o cient&#237;fica e cultural do s&#233;culo dezanove foi quase sempre incoerente e incoordenada, a populariza&#231;&#227;o de conhecimentos as mais das vezes imprudente e imperfeita. H&#225; coisas que se perdem quando se vulgarizam; h&#225; mat&#233;rias de todo imposs&#237;veis de popularizar. E o crescente desenvolvimento, a crescente especializa&#231;&#227;o da ci&#234;ncia, directa e indirecta, n&#227;o fez sen&#227;o multiplicar os conhecimentos invulgariz&#225;veis. O que, em mat&#233;ria cultural, essencialmente carimba este per&#237;odo &#233; a emerg&#234;ncia do jornalismo; e, em verdade, a evolu&#231;&#227;o do jornalismo e a do com&#233;rcio moderno s&#227;o de um paralelismo nitid&#237;ssimo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Como destas observa&#231;&#245;es claramente se depreende, estamos ainda hoje, em grande parte, e em muitas na&#231;&#245;es, adentro deste per&#237;odo, ou seja, ainda no s&#233;culo dezanove. Mas as na&#231;&#245;es da vanguarda comercial e cultural &#8212; valha essa vanguarda o que valer &#8212; passaram j&#225; nitidamente para outro per&#237;odo, e o certo &#233; que em todas as na&#231;&#245;es se esbo&#231;am, com maior ou menor clareza, os caracter&#237;sticos dum per&#237;odo novo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tr&#234;s s&#227;o as influ&#234;ncias que geraram, e est&#227;o gerando, a transforma&#231;&#227;o do segundo per&#237;odo no terceiro: 1) a intensifica&#231;&#227;o de todos os factores que criaram o segundo per&#237;odo, incluindo o pr&#243;prio individualismo &#8212; intensifica&#231;&#227;o por&#233;m t&#227;o grande que a diferen&#231;a entre os dois per&#237;odos, de quantitativa, passou a ser qualitativa; 2) o aparecimento n&#237;tido de concorr&#234;ncias &lt;i&gt;nacionais, &lt;/i&gt;organizadas e definidas, umas vezes refor&#231;ando, outras sobrepondo-se &#224;s concorr&#234;ncias individuais; e 3) o reaparecimento, e desenvolvimento rapid&#237;ssimo, do princ&#237;pio sindical.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O efeito principal destas causas &#8212; nitidamente sobre o com&#233;rcio, menos nitidamente, do ponto de vista pr&#225;tico, sobre a cultura &#8212; foi, onde quer que tenham aparecido fortemente, coagir o indiv&#237;duo, na sua vida material, a um grau de disciplina e de organiza&#231;&#227;o que em certas coisas &#8212; e o com&#233;rcio &#233; uma delas &#8212;merece j&#225;, quase, o nome de cient&#237;fica. A concorr&#234;ncia individual, desenvolvendo-se para al&#233;m de tudo que o s&#233;culo passado sonhara, obrigou o indiv&#237;duo a tomar todas as precau&#231;&#245;es para poder vencer; e onde essas precau&#231;&#245;es n&#227;o s&#227;o o abandono de todos os escr&#250;pulos &#8212; fen&#243;meno ali&#225;s hoje corrent&#237;ssimo em todos os ramos &#8212; s&#227;o o estudo atento dos processos a empregar, o estudo cient&#237;fico onde seja poss&#237;vel, para tomar a dianteira aos concorrentes. O desenvolvimento desmedido da ci&#234;ncia operou evidentemente no mesmo sentido &#8212; directamente, penetrando todos do esp&#237;rito cient&#237;fico, mas do esp&#237;rito cient&#237;fico de precis&#227;o e, sobretudo, especializa&#231;&#227;o, pois as ci&#234;ncias, &#224; medida que se desenvolvem, aproximam-se de um estado matem&#225;tico e, ao mesmo tempo, se especializam acentuadamente; e, indirectamente, atrav&#233;s da ind&#250;stria, agora inteiramente penetrada da ci&#234;ncia, como se v&#234; na proemin&#234;ncia enorme, e crescente, da engenharia, hoje cheia de ramifica&#231;&#245;es.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste mesmo sentido operaram os factores a que cham&#225;mos as concorr&#234;ncias nacionais e o princ&#237;pio sindical &#8212; este &#250;ltimo, por&#233;m, um pouco duvidosamente. A &#8220;concorr&#234;ncia nacional&#8221;organizada foi trazida para a evid&#234;ncia universal pela Alemanha, cujo sistema de estado n&#227;o s&#243; a estimulava, mas como que a compelia, a organizar nacionalmente, como uma guerra &#8212; com uma t&#225;ctica e uma estrat&#233;gia estudadas &#8212;, a expans&#227;o do seu com&#233;rcio. Este factor mais obrigou os comerciantes de toda a parte a dar ao seu com&#233;rcio uma organiza&#231;&#227;o e uma coordena&#231;&#227;o parecidas com aquelas que s&#227;o hoje inevit&#225;veis na ind&#250;stria. E &#233; por isto que damos a este per&#237;odo da evolu&#231;&#227;o do com&#233;rcio o nome de &#8220;do comerciante industrial&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O princ&#237;pio sindical &#8212; propriamente reaccion&#225;rio ou retr&#243;grado, pois que &#233; uma revers&#227;o &#224;s corpora&#231;&#245;es medievais &#8212; emergiu nas classes oper&#225;rias, e de a&#237; galgou para todas as outras. Como, seja mau ou bom do ponto de vista social, sempre &#233; um elemento de coordena&#231;&#227;o, temos nele mais um elemento que se reflectiu no esp&#237;rito geral e o impeliu mais para se compenetrar da necessidade de organiza&#231;&#227;o. Acresce que o esp&#237;rito de classe ou de profiss&#227;o, que ele tende a criar, tem tamb&#233;m efeitos de rigorosa especialidade, onde esse esp&#237;rito n&#227;o seja apenas pol&#237;tico; assim, no caso das associa&#231;&#245;es comerciais, gerais e especiais, e das c&#226;maras de com&#233;rcio, se estabeleceu para o comerciante individual uma maior facilidade de estudar a sua profiss&#227;o, ou o ramo especial dela que exerce. E o esp&#237;rito geral de organiza&#231;&#227;o com isto necessariamente se ampliou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O certo &#233; que hoje, e mormente nos pa&#237;ses mais avan&#231;ados materialmente, se vai tornando cada vez mais dif&#237;cil o exerc&#237;cio prof&#237;cuo e duradouro do com&#233;rcio a quem n&#227;o o exer&#231;a como se fosse uma ind&#250;stria, com estudo, &#8220;ci&#234;ncia&#8221; e sistematiza&#231;&#227;o completa. Nesses mesmos pa&#237;ses a especializa&#231;&#227;o vai crescendo; &#233; corrente nos Estados Unidos da Am&#233;rica as ind&#250;strias afastarem de si por completo toda a actividade comercial, delegando em distribuidores dom&#233;sticos e de exporta&#231;&#227;o a venda dos artigos que fabricam. Em tudo isto se v&#234; o esp&#237;rito que anima, no com&#233;rcio, a nossa &#233;poca. N&#227;o sabemos se isto &#233; progresso &#8212; porque, em verdade, n&#227;o se sabe ao certo o que &#233; que constitui o progresso &#8212;, mas &#233; fora de d&#250;vida que &#233; muito mais prof&#237;cuo, muito mais interessante e, at&#233;, muito mais simples o com&#233;rcio quando &#233; exercido desta maneira. A simplifica&#231;&#227;o da contabilidade organizada tamb&#233;m define bem, em sua esp&#233;cie, esta &#233;poca do com&#233;rcio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como estas observa&#231;&#245;es, que acabamos de fazer sobre a fase actual do com&#233;rcio, s&#227;o de uma grande evid&#234;ncia, e todos devem compreender que s&#227;o exactas, n&#227;o &#233; necess&#225;rio buscarmos neste caso a contraprova cultural, ou qualquer contraprova mesmo. E &#233; bom que n&#227;o tenhamos que ir buscar a contraprova cultural, pois &#8212; talvez porque a nossa &#233;poca atravessa uma grande crise de cultura &#8212; os fen&#243;menos de coordena&#231;&#227;o cultural est&#227;o muito menos n&#237;tidos do que os de coordena&#231;&#227;o comercial. O que se esbo&#231;a, por&#233;m, nos centros culturais mais representativos vem confirmar nitidamente o que j&#225; se passa nos meios comerciais do mesmo n&#237;vel. Mas, por enquanto, n&#227;o h&#225; nesse campo superior mais que esbo&#231;os, desejos, tend&#234;ncias. O esp&#237;rito da ci&#234;ncia e da engenharia ainda n&#227;o chegou &#224; arte e &#224; literatura.&lt;/p&gt;
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    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:31+01:00</created-at>
    <data>25-3-1926</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 3. Lisboa: 25-3-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>132</pagina>
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    <titulo>A EVOLU&#199;&#195;O DO COM&#201;RCIO
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Terceiro&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;O DESEJADO&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde quer que, entre sombras e dizeres, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Jazas, remoto, sente-te sonhado,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E ergue-te do fundo de n&#227;o-seres &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para teu novo fado!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem, Galaaz com p&#225;tria, erguer de novo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas j&#225; no auge da suprema prova,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;A&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;alma penitente do teu povo&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#192; Eucaristia Nova.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Mestre da Paz, ergue&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;teu gl&#225;dio ungido,&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Excalibur do Fim, em jeito tal&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Que sua Luz ao mundo&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;dividido&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Revele o Santo Gral!&lt;/p&gt;
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    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:31+01:00</created-at>
    <data>18-1-1934</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
    <id type="integer">98</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>84</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Terceiro: O DESEJADO
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A ESS&#202;NCIA DO COM&#201;RCIO&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aqui h&#225; anos, antes da Grande Guerra, correu os meios ingleses, como exemplo demonstrativo da insinua&#231;&#227;o comercial alem&#227;, a not&#237;cia do caso curioso das &#8220;ta&#231;as para ovos&#8221; &lt;i&gt;(eggcups) &lt;/i&gt;que se vendiam na &#205;ndia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O ingl&#234;s costuma comer os &#8220;ovos&#8221;, a que n&#243;s chamamos &#8220;quentes&#8221;, n&#227;o em copos e partidos, mas em pequenas ta&#231;as de lou&#231;a, do feitio de meio ovo, e em que o ovo, portanto, entra at&#233; metade; partem a extremidade livre do ovo, e comem-no assim, com, uma colher de ch&#225;, depois de lhe ter deitado sal e pimenta. Na &#205;ndia, col&#243;nia brit&#226;nica, assim se comiam, e naturalmente ainda se comem, os ovos &#8220;quentes". Como &#233; de supor, eram casas inglesas as que, por tradi&#231;&#227;o aparentemente inquebr&#225;vel, exportavam para a &#205;ndia as ta&#231;as para este fim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sucedeu, por&#233;m, que, alguns anos antes da Guerra, as firmas inglesas exportadoras deste artigo notaram que a procura dele na &#205;ndia decrescera quase at&#233; zero. Estranharam o facto, buscaram saber a causa, e n&#227;o tardou que descobrissem que estavam sendo batidas por casas exportadoras alem&#227;s, que vendiam id&#234;ntico artigo ao mesmo pre&#231;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se as casas alem&#227;s houvessem entrado no mercado &#237;ndio com o artigo a pre&#231;os mais baixos, sem d&#250;vida que os agentes dos exportadores ingleses teriam advertido estes sem demora. Mas, como o pre&#231;o era igual e a qualidade igual tamb&#233;m, n&#227;o era necess&#225;rio o aviso; nem houve receio sen&#227;o quando se verificou que havia raz&#227;o para mais que receio &#8212; isto &#233;, quando se verificou que, nestas condi&#231;&#245;es de duvidosa vantagem para um novo concorrente, o artigo alem&#227;o vencera por completo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Feita a averigua&#231;&#227;o ansiosa da causa deste mist&#233;rio, n&#227;o tardou que se descobrisse. Os ovos das galinhas indianas eram &#8212; e naturalmente ainda s&#227;o &#8212; ligeiramente maiores que os das galinhas da Europa, ou, pelo menos, das da Gr&#227;-Bretanha. Os fabricantes ingleses exportavam as ta&#231;as de tipo &#250;nico que produziam para o consumo dom&#233;stico. Essas ta&#231;as, evidentemente, serviam de um modo imperfeito aos ovos das galinhas da &#205;ndia. Os Alem&#227;es notaram isto, e fizeram ta&#231;as ligeiramente maiores, pr&#243;prias para receber esses ovos. N&#227;o tinham que alterar qualidade (podiam at&#233; baix&#225;-la), nem que diminuir o pre&#231;o; tinham certa a vit&#243;ria por o que em linguagem cient&#237;fica se chama a adapta&#231;&#227;o ao meio. Tinham resolvido, na &#205;ndia e para si, o problema de comer o ovo de Colombo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Esta hist&#243;ria, em apar&#234;ncia t&#227;o simples, encerra um ensinamento que todo o comerciante, que o n&#227;o seja simplesmente por brincar &#224;s vendas, devia tomar a peito, compreender na sua ess&#234;ncia. Um comerciante, qualquer que seja, n&#227;o &#233; mais que um servidor do p&#250;blico, ou de um p&#250;blico; e recebe uma paga, a que chama o seu &#8220;lucro&#8221;, pela presta&#231;&#227;o desse servi&#231;o. Ora toda a gente que serve deve, parece-nos, buscar agradar a quem serve. Para isso &#233; preciso estudar a quem se serve &#8212; mas estud&#225;-lo sem preconceitos nem antecipa&#231;&#245;es; partindo, n&#227;o do princ&#237;pio de que os outros pensam como n&#243;s, ou devem pensar como n&#243;s &#8212;porque em geral n&#227;o pensam como n&#243;s &#8212;, mas do princ&#237;pio de que, se queremos servir os outros (para lucrar com isso ou n&#227;o), n&#243;s &#233; que devemos pensar como eles: o que temos que ver &#233; como &#233; que eles efectivamente pensam, e n&#227;o como &#233; que nos seria agrad&#225;vel ou conveniente que eles pensassem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada revela mais uma incapacidade fundamental para o exerc&#237;cio do com&#233;rcio que o h&#225;bito de concluir o que os outros querem sem estudar os outros, fechando-nos no gabinete da nossa pr&#243;pria cabe&#231;a, e esquecendo que os olhos e os ouvidos &#8212; os sentidos, enfim &#8212; &#233; que fornecem os elementos que o nosso c&#233;rebro h&#225;-de elaborar, para com essa elabora&#231;&#227;o formar a nossa experi&#234;ncia.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O estudo do p&#250;blico, isto &#233; dos mercados, &#233; de tr&#234;s ordens &#8212; econ&#243;mico, psicol&#243;gico e propriamente social. Isto &#233;, para entrar num mercado, seja dom&#233;stico ou estranho, &#233; preciso: 1) saber as condi&#231;&#245;es de aceita&#231;&#227;o econ&#243;mica do artigo, e aquelas em que trabalha, e em que oferece, a concorr&#234;ncia; 2) conhecer a &#237;ndole dos compradores, para, &#224; parte quest&#245;es de pre&#231;o, saber qual a melhor forma de apresentar, de distribuir e de reclamar o artigo; 3) averiguar quais as circunst&#226;ncias especiais, se as houver, que, de ordem profunda e social ou pol&#237;tica, ou superficial e de moda ou de momento, obrigam a determinadas correc&#231;&#245;es no resultado dos dois estudos anteriores.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#201; espantoso &#8212; n&#227;o: &#233; pavoroso &#8212; o n&#250;mero de comerciantes que cotam para um mercado, estrangeiro e at&#233; nacional, espontaneamente ou solicitados, sem averiguar se n&#227;o estar&#227;o cotando um pre&#231;o que seja um disparate de tal ordem que os desqualifique intelectualmente &#8212; e a desqualifica&#231;&#227;o intelectual &#233; por vezes pior que a moral &#8212; no esp&#237;rito dos que recebem a oferta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando um comerciante, que use a cabe&#231;a para fins mais interiores que a coloca&#231;&#227;o do chap&#233;u, verifica que lhe &#233; imposs&#237;vel cotar convenientemente para certo mercado, deve responder a um pedido de cota&#231;&#227;o que, dadas estas ou aquelas circunst&#226;ncias, n&#227;o pode cotar nesse momento; ou que oferece a um pre&#231;o mais alto que o do mercado (mas mostre que conhece o pre&#231;o do mercado), por&#233;m que o artigo, se &#233; mais caro, &#233; porque &#233; melhor; ou que, por n&#227;o ter nesse momento dispon&#237;vel sen&#227;o um tipo desse artigo, n&#227;o pode cotar sen&#227;o em determinadas condi&#231;&#245;es.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A maioria dos comerciantes &#8212; sim, infelizmente, a maioria! &#8212;n&#227;o faz isto, nem nada que disto se aproxime. Cota um pre&#231;o, porque esse pre&#231;o lhe dar&#225; certo lucro e n&#227;o olha a mais. N&#227;o lhe passa pela cabe&#231;a, sequer, que &#233; preciso, &#224;s vezes, n&#227;o cotar com lucro, sendo essa aus&#234;ncia de lucro uma aut&#234;ntica despesa de publicidade. E porque n&#227;o lhe passa isto pela cabe&#231;a? Porque vive s&#243; no presente e tem casa comercial sem amanh&#227;. Porque n&#227;o pensa que, mesmo quando se n&#227;o possa cotar convenientemente, se deve atrair convenientemente; e que a demonstra&#231;&#227;o de intelig&#234;ncia e de estudo das conveni&#234;ncias e necessidades alheias &#233;&lt;i&gt; \&lt;/i&gt;uma demonstra&#231;&#227;o da posi&#231;&#227;o sobre os ombros de uma cabe&#231;a que cont&#233;m miolos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O estudo psicol&#243;gico do mercado &#233; tamb&#233;m importante, mas, ao passo que o seu estudo econ&#243;mico &#233; essencial e fundamental em qualquer g&#233;nero de com&#233;rcio, &#233; o com&#233;rcio de retalho e as formas do outro com&#233;rcio (de origem directamente industrial) que com ele tem semelhan&#231;a, que mais t&#234;m que atender a este elemento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A maneira de fabricar, de apresentar, de distribuir e de reclamar um artigo varia conforme a &#237;ndole geral dos indiv&#237;duos que comp&#245;em o mercado onde se pretende vend&#234;-lo. Num meio de gente educada as condi&#231;&#245;es s&#227;o diferentes, para todos estes casos, do que num meio de analfabetos. Um meio provinciano &#8212; educado ou n&#227;o &#8212; tem uma psicologia distinta da de um meio de cidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O modo de encarar a vida, ou, pelo menos, certos aspectos da vida, varia de pa&#237;s para pa&#237;s, de regi&#227;o para regi&#227;o. A humanidade, sem d&#250;vida, &#233; a mesma em toda a parte. Sucede, por&#233;m, que em toda a parte &#233; diferente. &#201; a mesma nas coisas essenciais, nos sentimentos fundamentais; mas,&lt;sub&gt; &lt;/sub&gt;as mais das vezes, n&#227;o s&#227;o as coisas realmente essenciais que ela tem por essenciais, nem os sentimentos fundamentais que a preocupam como fundamentais. Em todos os tempos, em todas as terras, &#233; o local, o superficial, o ocasional, o que mais tem preocupado a humanidade. Ora, &#233; ao que mais preocupa a humanidade e constitui portanto as suas necessidades, que o com&#233;rcio essencialmente se dirige. E &#233; por isso que o comerciante, que deveras o seja, tem para consigo mesmo o dever de estudar psicologicamente, e um a um, os agrupamentos humanos a que destina os seus artigos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O estudo propriamente social do meio &#233; aparentado com o seu estudo psicol&#243;gico, mas, ao mesmo tempo, distinto dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O estudo psicol&#243;gico tem por objecto a mentalidade t&#237;pica dos componentes de um determinado meio comerci&#225;vel; o estudo propriamente social tem por objecto os h&#225;bitos puramente exteriores, as conven&#231;&#245;es, permanentes ou de acaso (e a estas &#250;ltimas chama-se modas), e os caprichos incaracter&#237;sticos desses mesmos indiv&#237;duos. &#201; claro que esses h&#225;bitos e essas conven&#231;&#245;es formam parte da &#237;ndole dessa gente; mas &#233; uma parte &#8220;externa&#8221;, que n&#227;o pode ser adivinhada atrav&#233;s de um estudo cuidadoso dos indiv&#237;duos, mas tem que ser conhecida, mais propriamente, atrav&#233;s do estudo do meio em que eles vivem, considerado como destacado deles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Suponhamos que temos que introduzir determinado artigo na It&#225;lia. Nem para todos os artigos se dar&#225; &#8212; mas sem d&#250;vida haver&#225; alguns para cuja coloca&#231;&#227;o importe considerar (&#224; parte as circunst&#226;ncias econ&#243;micas, de que n&#227;o estamos agora tratando) o italiano como italiano; o italiano como romano, veneziano, genov&#234;s, etc.; o italiano como governado pelo regime fascista; o italiano como crescentemente detestador da Fran&#231;a; e assim indefinida, mas, ao mesmo tempo, muito definidamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um industrial que inventasse e produzisse um tipo de &lt;i&gt;whisky &lt;/i&gt;novo, bom e barato, teria um mercado certo nas Ilhas Brit&#226;nicas; mas, se tivesse a lembran&#231;a de ornar as garrafas desse l&#237;quido de um r&#243;tulo com a bandeira daquele imp&#233;rio, n&#227;o deveria admirar-se de ver a maioria dos habitantes do Estado Livre da Irlanda impor-se o horroroso sacrif&#237;cio de o n&#227;o beber. O produto estava psicologicamente certo para esse meio, mas estava &#8220;socialmente&#8221; errado. Parece-nos que assim transmitimos claramente ao leitor a ideia da distin&#231;&#227;o entre o crit&#233;rio psicol&#243;gico e o, por assim dizer, sociol&#243;gico no estudo comercial dos mercados.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Em resumo: o comerciante &#233; um servidor do p&#250;blico, tem que estudar esse p&#250;blico, e as diferen&#231;as de p&#250;blico para p&#250;blico se o artigo que vende ou explora n&#227;o &#233; limitado a um mercado s&#243;.O comerciante n&#227;o pode ter opini&#245;es &lt;i&gt;como comerciante &lt;/i&gt;nem deve fazer comercialmente qualquer coisa que leve a crer que as tem. Um comerciante portugu&#234;s que fa&#231;a um r&#243;tulo encarnado e verde, ou azul e branco, comete um erro comercial: quem segue a pol&#237;tica das cores do r&#243;tulo n&#227;o lhe compra o produto por isso, e quem segue a pol&#237;tica oposta deixa muitas vezes de o comprar. Por um lado n&#227;o ganha, por outro perde.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais incis&#237;vamente ainda: o comerciante n&#227;o tem personalidade, tem com&#233;rcio; a sua personalidade deve estar subordinada, como comerciante, ao seu com&#233;rcio; e o seu com&#233;rcio est&#225; fatalmente subordinado ao seu mercado, isto &#233;, ao p&#250;blico que o far&#225; com&#233;rcio e n&#227;o brincadeira de crian&#231;as com escrit&#243;rio e escrita.&lt;/p&gt;
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    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:31+01:00</created-at>
    <data>25-1-1926</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 1. Lisboa: 25-1-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>141</pagina>
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    <titulo>A ESS&#202;NCIA DO COM&#201;RCIO
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Quarto&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;AS ILHAS AFORTUNADAS&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que voz vem no som das ondas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o &#233; a voz do mar?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; a voz de algu&#233;m que nos fala,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas que, se escutamos, cala,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por ter havido escutar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E s&#243; se, meio dormindo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem saber de ouvir ouvimos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Que ela nos diz&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;a esperan&#231;a&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A que, como uma crian&#231;a&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dormente, a dormir sorrimos.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;S&#227;o ilhas afortunadas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#227;o terras sem ter lugar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde o Rei mora esperando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, se vamos despertando,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cala a voz, e h&#225; s&#243; o mar.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:31+01:00</created-at>
    <data>26-3-1934</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
    <id type="integer">100</id>
    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>85</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Quarto: AS ILHAS AFORTUNADAS
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;AS ALGEMAS&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Suponha o leitor que lhe diz&#237;amos:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; H&#225; um pa&#237;s em que, depois das oito horas da noite, &#233; crime previsto e punido o comprar ma&#231;&#227;s, bananas, uvas, ananases e t&#226;maras, sendo por&#233;m permitida a compra de damascos, figos, p&#234;ssegos e passas. Depois das oito horas n&#227;o se pode ali, legalmente, comprar arenque, mas podem comprar-se salm&#227;o e linguado. Nesse pa&#237;s &#233; crime comprar, depois das oito horas, um pastel&#227;o cozinhado, se estiver frio; mas a lei permite a sua venda se, conforme os seus dizeres, &#8220;estiver quente ou morno&#8221;. A sopa em latas, que v&#225;rios fabricantes fornecem, n&#227;o pode ser comprada depois das oito horas, a n&#227;o ser que o merceeiro a aque&#231;a. Chocolates, doces, sorvetes n&#227;o podem ser comprados depois das nove e meia da noite, estando por&#233;m abertas as lojas que os fornecem. O camar&#227;o &#233;, nessa terra, um problema jur&#237;dico tremendo, pois existe um camar&#227;o em latas que se n&#227;o sabe se, tecnicamente, &#233; camar&#227;o ou conserva; e os jurisconsultos e legisladores desse pa&#237;s j&#225; uma vez reuniram em conclave solene para determinar a categoria jur&#237;dica do camar&#227;o nesse estado. Tamb&#233;m neste pa&#237;s se n&#227;o pode comprar aspirina, ou outro qualquer analg&#233;sico, depois das oito horas da noite, a n&#227;o ser, diz a lei, que o farmac&#234;utico fique convencido que &#8220;h&#225; motivos razo&#225;veis para supor" que algu&#233;m tenha dores de cabe&#231;a. N&#227;o se pode, ainda nesse pa&#237;s, comprar, depois das oito horas da noite, um charuto ou um ma&#231;o de cigarros num bufete de caminho-de-ferro, salvo se se comprar tamb&#233;m comida para consumo no comboio. Na ag&#234;ncia de publica&#231;&#245;es, que h&#225; ali em qualquer gare, n&#227;o &#233; legal comprar, depois da mesma hora fat&#237;dica, um livro ou uma revista, ainda que a ag&#234;ncia esteja, como em geral est&#225;, aberta. Nesse pais...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta altura o leitor, irritado, interrompe...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; N&#227;o h&#225; pa&#237;s nenhum onde isso aconte&#231;a!... A n&#227;o ser que se chame &#8220;pa&#237;s&#8221; a qualquer reino de revista de ano, ou a qualquer na&#231;&#227;o sonhada entre os quatro muros de Rilhafoles...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enganar-se-ia o leitor que efectivamente fizesse esse reparo. Existe, em verdade, o pa&#237;s onde se d&#227;o aquelas circunst&#226;ncias legais. Esse pa&#237;s &#233; a Inglaterra &#8212; a livre e pr&#225;tica Inglaterra. E a lei que prescreve aquilo tudo, promulgada durante a Guerra e ainda em vigor, &#233; a &lt;i&gt;Defence of the Realm Act &lt;/i&gt;(Lei de Defesa do Reino!), popularmente conhecida, das iniciais do seu nome, pela designa&#231;&#227;o de &#8220;Dora&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Fixemo-nos um pouco neste exemplo fant&#225;stico. Atentemos um pouco neste caso espantoso. O que temos diante de n&#243;s &#233; um sinal dos tempos. O ter-se chegado a promulgar, e o continuar-se a manter, num pa&#237;s de que se diz, n&#227;o sem motivo, que est&#225; na vanguarda da civiliza&#231;&#227;o, uma lei da natureza delirante daquelas cujas prescri&#231;&#245;es cit&#225;mos, revela flagrantemente a que ponto se chegou no emprego legislativo da restri&#231;&#227;o do com&#233;rcio e do consumo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A legisla&#231;&#227;o restritiva do com&#233;rcio e do consumo, a regulamenta&#231;&#227;o pelo Estado da vida puramente individual, era corrente na civiliza&#231;&#227;o mon&#225;rquica da Idade M&#233;dia, e no que dela permaneceu na subsequente. O s&#233;culo XIX considerou sempre seu t&#237;tulo de gl&#243;ria o ter libertado, ou o ir libertando, progressivamente o indiv&#237;duo, social e economicamente, das peias do Estado. No fundo, a doutrina do s&#233;culo XIX &#8212; representada em seu relevo m&#225;ximo nas teorias sociais de Spencer &#8212; &#233; uma revers&#227;o &#224; pol&#237;tica da Gr&#233;cia Antiga, expressa ainda para n&#243;s na &lt;i&gt;Pol&#237;tica &lt;/i&gt;de Arist&#243;teles &#8212; que o Estado existe para o indiv&#237;duo, e n&#227;o o indiv&#237;duo para o Estado, excepto quando um manifesto interesse colectivo, como na guerra, compele o indiv&#237;duo a abdicar da sua liberdade em proveito da defesa da sociedade, cuja exist&#234;ncia, ali&#225;s, &#233; a garantia do exerc&#237;cio dessa sua mesma liberdade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas de h&#225; um tempo para c&#225; &#8212; j&#225; desde antes da Guerra, mas sobretudo depois da Guerra, que teve por consequ&#234;ncia acentuar certas tend&#234;ncias, e entre elas estas, esbo&#231;adas anteriormente &#8212; a tend&#234;ncia legislativa come&#231;ou a ser exactamente contr&#225;ria &#224; do s&#233;culo anterior na pr&#225;tica e dos s&#233;culos anteriores na teoria. Recome&#231;ou-se a restringir, social e economicamente, a liberdade do indiv&#237;duo. Come&#231;ou&lt;i&gt; &lt;/i&gt;a tolher-se, social e economicamente, a vida do comerciante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema divide-se, evidentemente, em dois problemas &#8212; o social e pol&#237;tico, e o comercial. O problema propriamente social resume-se nisto: que utilidade, geral ou particular, para a sociedade ou para o indiv&#237;duo, tem o emprego da legisla&#231;&#227;o desta ordem? E o problema propriamente pol&#237;tico &#233; o da quest&#227;o das fun&#231;&#245;es leg&#237;timas do Estado, e dos seus naturais limites &#8212; um dos problemas mais graves, e porventura menos sol&#250;veis, da sociologia. N&#227;o pertence por&#233;m &#224; &#237;ndole desta Revista o tratar destes problemas, nem, portanto, sequer determinar as causas &#237;ntimas do fen&#243;meno legislativo cuja evolu&#231;&#227;o acab&#225;mos de sumariamente descrever.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; o problema comercial que tem que preocupar-nos. E o problema comercial &#233; este: Quais s&#227;o as consequ&#234;ncias comerciais, e econ&#243;micas, da aplica&#231;&#227;o da legisla&#231;&#227;o restritiva? E, se as consequ&#234;ncias n&#227;o s&#227;o comercial e economicamente ben&#233;ficas, em proveito de qu&#234;, ou de quem, &#233; que se julga leg&#237;timo, necess&#225;rio, ou conveniente produzir esse malef&#237;cio comercial e econ&#243;mico?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E dar-se-&#225; efectivamente esse proveito?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; o que vamos examinar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A legisla&#231;&#227;o restritiva assume cinco aspectos, consoante o elemento social que pretende beneficiar. H&#225;, (l) a legisla&#231;&#227;o restritiva que pretende beneficiar a colectividade, o pa&#237;s: &#233; a que pro&#237;be&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;a importa&#231;&#227;o de determinados artigos, em geral os chamados &#8220;de luxo&#8221;, com o fito de evitar um desequil&#237;brio cambial. H&#225;, (2) a legisla&#231;&#227;o restritiva que pretende beneficiar o consumidor colectivo: &#233; a que pro&#237;be a exporta&#231;&#227;o de determinados artigos, em geral os chamados &#8220;de primeira necessidade&#8221;, para que n&#227;o escasseiem no mercado. H&#225;, (3) a legisla&#231;&#227;o restritiva que pretende beneficiar o consumidor individual: &#233; a que pro&#237;be ou cerceia a venda de determinados artigos &#8212; desde a coca&#237;na &#224;s bebidas alco&#243;licas &#8212; por o seu uso, ou f&#225;cil abuso, ser nocivo ao indiv&#237;duo; e aquela legisla&#231;&#227;o corrente que pro&#237;be, por exemplo, o jogo de azar &#233; exactamente da mesma natureza. H&#225;, (4) a legisla&#231;&#227;o restritiva que pretende beneficiar o oper&#225;rio e o empregado: &#233; a que restringe as horas de trabalho, e as de abertura de estabelecimentos, e p&#245;e limites e condi&#231;&#245;es ao exerc&#237;cio de determinados com&#233;rcios e de determinadas ind&#250;strias. H&#225;, (5) a legisla&#231;&#227;o restritiva que pretende beneficiar o industrial: &#233; a legisla&#231;&#227;o pautal na sua generalidade proteccionista.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fixemos, desde j&#225;, o primeiro ponto; tiremos, desde j&#225;, a primeira conclus&#227;o, que &#233; inevit&#225;vel. Todos estes tipos de legisla&#231;&#227;o restritiva &#8212; beneficiem ou n&#227;o a quem pretendem beneficiar &#8212;prejudicam aquela desgra&#231;ada entidade chamada o comerciante. A 1.&#170; esp&#233;cie de legisla&#231;&#227;o restritiva limita-lhe as importa&#231;&#245;es; a 2.&#170; limita-lhe as exporta&#231;&#245;es; a 3.&#170; limita-lhe as vendas; a 4.&#170; limita-lhe as condi&#231;&#245;es de produ&#231;&#227;o, se &#233; tamb&#233;m industrial, e as horas de venda, se &#233; simples comerciante; a 5.&#170; restringe-lhe a liberdade de concorrer. N&#227;o consideremos agora se seria socialmente leg&#237;tima ou ileg&#237;tima a liberdade que ele teria se essa v&#225;ria legisla&#231;&#227;o lha n&#227;o restringisse. Fixemos apenas este ponto: toda esta legisla&#231;&#227;o prejudica o comerciante, toda esta legisla&#231;&#227;o tende a diminuir e afogar o com&#233;rcio dum pa&#237;s e, na propor&#231;&#227;o em que o faz, a cercear a expans&#227;o da sua vida econ&#243;mica. Este ponto fica assente, fica irrevogavelmente assente. Resta saber se h&#225; qualquer proveito social neste desproveito comercial, se qualquer dos elementos sociais, que se procura beneficiar com este preju&#237;zo ao com&#233;rcio, efectivamente beneficia com esse preju&#237;zo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A restri&#231;&#227;o das importa&#231;&#245;es, e sobretudo a dos artigos &#8220;de luxo&#8221;, n&#227;o ocorreu nunca a qualquer c&#233;rebro l&#250;cido como processo directo, ou fundamental, para melhorar o c&#226;mbio. Todos sabem que a melhoria cambial tem que partir de origens mais vitais e mais profundas. Essa medida &#233; t&#227;o-somente um processo acess&#243;rio, ou auxiliar, de tentar conseguir esta melhoria. Mas essas importa&#231;&#245;es, que se restringem, de alguma parte h&#227;o-de vir. E n&#227;o &#233; de supor que o pa&#237;s, ou pa&#237;ses, de onde elas v&#234;m, aceitem de bom grado essa limita&#231;&#227;o, por pequena que seja, da sua exporta&#231;&#227;o. Exercer&#227;o repres&#225;lias &#8212; as chamadas repres&#225;lias econ&#243;micas. Restringir&#227;o, por sua vez, a nossa exporta&#231;&#227;o para eles. E assim a limita&#231;&#227;o da nossa importa&#231;&#227;o redundar&#225; numa limita&#231;&#227;o da nossa exporta&#231;&#227;o. O impedir que saia ouro dar&#225; em impedir tamb&#233;m que ele entre. Resultado final, pelo melhor: preju&#237;zo para o comerciante importador; nenhuma influ&#234;ncia real no c&#226;mbio; preju&#237;zo para o comerciante exportador; perturba&#231;&#227;o da vida econ&#243;mica geral; irrita&#231;&#227;o do consumidor. Resumo: preju&#237;zo e nada.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A restri&#231;&#227;o da exporta&#231;&#227;o, para que o artigo n&#227;o falte no mercado, exerce-se evidentemente apenas quando se manifeste a tend&#234;ncia de exportar esses artigos, de prefer&#234;ncia a vend&#234;-los no pa&#237;s. Ora essa tend&#234;ncia s&#243; se manifestar&#225; se a exporta&#231;&#227;o for mais remuneradora. E, havendo realmente consumo no pa&#237;s, a exporta&#231;&#227;o ser&#225; mais remuneradora s&#243; quando a moeda dele estiver desvalorizada. Ora num pa&#237;s de moeda desvalorizada um dos primeiros prop&#243;sitos dos dirigentes deve ser o valoriz&#225;-la; provocar e estimular a exporta&#231;&#227;o &#233; um dos processos mais directos para consegui-lo; mas proibir a exporta&#231;&#227;o n&#227;o &#233; maneira mais recomend&#225;vel de a estimular. Isto, por&#233;m, &#233; o menos. Limitar a exporta&#231;&#227;o &#233; limitar a produ&#231;&#227;o. Obrigando o produtor, ou comerciante seu agente, a vender abaixo do que pode vender, desconsola-se a produ&#231;&#227;o e o com&#233;rcio. Resulta que o produtor e o comerciante ou procuram a porta falsa do contrabando, com o que se lesa o Estado, e portanto a colectividade; ou baixam instintivamente a produ&#231;&#227;o e a actividade de venda por verem limitados os seus interesses prim&#225;rios. Ningu&#233;m exerce de gra&#231;a uma profiss&#227;o, por generoso que seja fora do exerc&#237;cio dela. Depois, proibir a exporta&#231;&#227;o &#233; proibir o com&#233;rcio de exporta&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como, quando se exporta, se exporta para alguma parte, e essa alguma parte, se n&#227;o pode comprar a n&#243;s, comprar&#225; a outrem, segue que a limita&#231;&#227;o da nossa exporta&#231;&#227;o &#233;, muitas vezes, n&#227;o s&#243; a limita&#231;&#227;o da exporta&#231;&#227;o presente mas tamb&#233;m a da exporta&#231;&#227;o futura, pois perdemos mercados que, mais tarde, quando a nossa exporta&#231;&#227;o estiver reliberada, talvez j&#225; estejam conquistados por outrem, e se nos n&#227;o abram de novo com facilidade. Assim a legisla&#231;&#227;o restritiva que visa a abastecer o mercado nacional tende, no fim, para desabastec&#234;-lo e, quando visa a restringir temporariamente a exporta&#231;&#227;o, consegue, muitas vezes, restringi-la definitivamente.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cheg&#225;mos ao ponto c&#243;mico desta travessia legislativa. Cheg&#225;mos ao exame daquela legisla&#231;&#227;o restritiva que visa a beneficiar o indiv&#237;duo, impedindo que ele fa&#231;a mal &#224; sua preciosa sa&#250;de moral e f&#237;sica. &#201; este o caso de legisla&#231;&#227;o restritiva que se acha tipicamente exemplificado no diploma que &#233; o exemplo de toda a legisla&#231;&#227;o restritiva, quer quanto &#224; sua natureza quer quanto aos seus efeitos &#8212; a famosa Lei Seca dos Estados Unidos da Am&#233;rica. Vejamos em que deu a opera&#231;&#227;o dessa lei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o olhemos ao caso social; trat&#225;-lo n&#227;o est&#225; na &#237;ndole desta Revista, nem, portanto, na deste artigo. N&#227;o consideremos o que h&#225; de deprimente e de ign&#243;bil na circunst&#226;ncia de se prescrever a um adulto, a um homem, o que h&#225;-de beber e o que n&#227;o h&#225;-de beber; de lhe p&#244;r a&#231;aimo, como a um c&#227;o, ou um colete de for&#231;as, como a um doido. Nem consideremos que, indo por esse caminho, n&#227;o h&#225; lugar certo onde logicamente se deva parar: e se o Estado nos indica o que havemos de beber, por que n&#227;o decretar o que havemos de comer, de vestir, de fazer? por que n&#227;o prescrever onde havemos de morar, com quem havemos de casar ou n&#227;o casar, com quem havemos de dar-nos ou n&#227;o dar-nos? Todas estas coisas t&#234;m import&#226;ncia para a nossa sa&#250;de f&#237;sica e moral; e se o Estado se disp&#245;e a ser m&#233;dico, tutor e ama para uma delas, por que raz&#227;o se n&#227;o dispor&#225; a s&#234;-lo para todas?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o olhemos, tamb&#233;m, a que este interesse paternal &#233; exercido pelo Estado, e que o Estado n&#227;o &#233; uma entidade abstracta, mas se manifesta atrav&#233;s de ministros, burocratas e fiscais &#8212; homens, ao que parece, e nossos semelhantes, e incompetentes portanto, do ponto de vista moral, se n&#227;o de todos os pontos de vista, para exercer sobre n&#243;s qualquer vigil&#226;ncia ou tutela em que sintamos uma autoridade plaus&#237;vel. N&#227;o olhemos a isto tudo, que indigna e repugna; olhemos s&#243; &#224;s consequ&#234;ncias rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram tr&#234;s.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;1) Dada a cria&#231;&#227;o necess&#225;ria, para o &#8220;cumprimento&#8221; da Lei, de vastas legi&#245;es de fiscais &#8212; mal pagos, como quase sempre s&#227;o os funcion&#225;rios do Estado, relativamente ao meio em que vivem &#8212;, a f&#225;cil corruptibilidade desses elementos, neste caso t&#227;o solicitados, tornou a Lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gast&#225;-lo. Assim esta lei dum pa&#237;s democr&#225;tico &#233;, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais s&#243;brios dentro delas. N&#227;o h&#225; lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequ&#234;ncia da Lei Seca, o acr&#233;scimo de corruptibilidade dos funcion&#225;rios do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privil&#233;gios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2) Paralelamente a esta larga corrup&#231;&#227;o dos fiscais do Estado, pagos, quando n&#227;o para directamente fornecer bebidas alco&#243;licas pelo menos para as n&#227;o ver fornecer, estabeleceu-se,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;adentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organiza&#231;&#227;o extens&#237;ssima, coordenada e disciplinada, com servi&#231;os complexos perfeitamente distribu&#237;dos, destinada &#224; t&#233;cnica variada da viola&#231;&#227;o da Lei. Ficou definitivamente criado e organizado o com&#233;rcio ilegal de bebidas alco&#243;licas. E d&#225;-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se op&#245;em &#224; revoga&#231;&#227;o da Lei Seca, pois que &#233; dela que vivem. Afirma-se, mesmo que, dada a poderosa influ&#234;ncia, eleitoral e social, do Estado dos Contrabandistas, n&#227;o poder&#225; ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequ&#234;ncia da Lei Seca, a substitui&#231;&#227;o do com&#233;rcio normal e honesto por um com&#233;rcio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter que assumir uma organiza&#231;&#227;o poderosa para poder exercer-se, se tornar um segundo Estado, anti-social, dentro do pr&#243;prio Estado. E, como derivante desta segunda consequ&#234;ncia, temos, &#233; claro, o preju&#237;zo do Estado, pois n&#227;o &#233; de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3) Quais, foram, por&#233;m, as consequ&#234;ncias da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? J&#225; vimos que quem tem dinheiro, seja ou n&#227;o alco&#243;lico, continua a beber o que quiser. &#201; igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e &#233; alco&#243;lico, bebe da mesma maneira e gasta mais &#8212; isto &#233;, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. H&#225; ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alco&#243;licos que, n&#227;o podendo por qualquer raz&#227;o obter bebidas alco&#243;licas normais, passaram a ingerir espantosos suced&#226;neos &#8212; lo&#231;&#245;es de cabelo, por exemplo &#8212;, com resultados pouco moralizadores para a pr&#243;pria sa&#250;de. Surgiram tamb&#233;m no mercado americano v&#225;rias drogas n&#227;o alco&#243;licas, mas ainda mais prejudiciais que o &#225;lcool; essas livremente vendidas, pois, se &#233; certo que arruinam a sa&#250;de, arruinam contudo adentro da lei, e sem &#225;lcool. E o facto &#233; que, segundo informa&#231;&#227;o recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conceda-se, por&#233;m, aos que votaram e defendem este magno diploma que numa sec&#231;&#227;o do p&#250;blico ele produziu resultados ben&#233;ficos &#8212; aqueles resultados que eles apontam no acr&#233;scimo de dep&#243;sitos nos bancos populares e caixas econ&#243;micas. Essa sec&#231;&#227;o do p&#250;blico, composta de indiv&#237;duos trabalhadores, poupados e pouco alco&#243;licos, n&#227;o podendo com efeito, beber qualquer coisa alco&#243;lica sem correr v&#225;rios riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto n&#227;o ser dada freneticamente ao &#225;lcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos &#8212; &#8220;moralizar&#8221; quem n&#227;o precisava ser moralizado. Temos, pois, como &#250;ltima consequ&#234;ncia da Lei Seca, um efeito escusado e in&#250;til sobre uma parte da popula&#231;&#227;o, um efeito nulo sobre outra, e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A legisla&#231;&#227;o pautal, que visa a proteger ind&#250;strias nacionais, enferma ordinariamente de um mal parecido com o de que sofre a legisla&#231;&#227;o oper&#225;ria, a que acab&#225;mos de referir-nos. Raras vezes se estuda devidamente o equil&#237;brio a estabelecer entre os interesses dessas ind&#250;strias e os interesses do consumidor. Por isso o proteccionismo &#233; frequentemente excessivo, e da&#237; resulta, em uns casos, o afastamento do consumidor e um consequente preju&#237;zo para a pr&#243;pria ind&#250;stria que se pretendeu beneficiar; em outros casos, em que o consumo &#233; &#8220;for&#231;ado&#8221; e a venda portanto certa, o assumir a ind&#250;stria protegida um car&#225;cter parasit&#225;rio, que a desvitaliza e assim a desprepara para as conting&#234;ncias econ&#243;micas do futuro. A legisla&#231;&#227;o proteccionista, quando sabiamente orientada, consegue realmente proteger e animar a ind&#250;stria nacional; mas o ser sabiamente orientada quer dizer que nela se estudaram bem os interesses diversos do consumidor e do comerciante importador. E, se estes interesses se estudaram, e se equilibraram com os do industrial, n&#227;o se trata j&#225; de uma lei restritiva, mas de uma simples medida econ&#243;mica sem car&#225;cter especial. As leis proteccionistas s&#243; podem dizer-se restritivas quando das pautas resulta um proibicionismo evidente. S&#227;o as leis desta ordem que caem dentro do nosso estudo, e &#233; a elas que se aplicam as considera&#231;&#245;es acima feitas.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Examinados, assim, todos os g&#233;neros de legisla&#231;&#227;o restritiva, cheg&#225;mos &#224; conclus&#227;o que todos eles t&#234;m de comum: 1) prejudicar o comerciante; 2) produzir perturba&#231;&#245;es econ&#243;micas; 3) nunca beneficiar, e as mais das vezes prejudicar, as pr&#243;prias classes em cujo proveito essas leis foram feitas. A legisla&#231;&#227;o restritiva, em todos os seus ramos, resulta, portanto, in&#250;til e nociva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nenhuma lei &#233; ben&#233;fica se ataca qualquer classe social ou restringe a sua liberdade. As classes sociais n&#227;o vivem separadas, em compartimentos estanques. Vivem em perp&#233;tua interdepend&#234;ncia, em constante entrepenetra&#231;&#227;o. O que lesa uma, lesa todas. A lei que ataca uma, &#233; a todas que ataca. Todo este artigo &#233; uma demonstra&#231;&#227;o desse facto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o &#233;, pois, s&#243; o comerciante, mas o p&#250;blico em geral, que tem o dever para consigo mesmo de reagir en&#233;rgica e constantemente contra a promulga&#231;&#227;o das leis restritivas, invariavelmente mal&#233;ficas, como se demonstrou, por ben&#233;ficas que pare&#231;am ou as instituem.&lt;/p&gt;
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    <data>25-2-1926</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 2. Lisboa: 25-2-1926.&lt;/p&gt;
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    <pagina>145</pagina>
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    <titulo>AS ALGEMAS
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Quinto&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;O ENCOBERTO&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;b&gt;
                &lt;i /&gt;
              &lt;/b&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que s&#237;mbolo fecundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem na aurora ansiosa?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Cruz Morta do Mundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Vida, que &#233; a Rosa.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que s&#237;mbolo divino&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Traz o dia j&#225; visto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Cruz, que &#233; o Destino,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Rosa, que &#233; o Cristo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que s&#237;mbolo final&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mostra o sol j&#225; desperto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na Cruz morta e fatal&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Rosa do Encoberto.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>Quinto: O ENCOBERTO
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Muita gente fala de com&#233;rcio como se ele fosse s&#243; um. Na realidade n&#227;o h&#225; com&#233;rcio: h&#225; com&#233;rcios. No exerc&#237;cio de um empregam-se qualidades diferentes do que no exerc&#237;cio de outro. H&#225;, &#233; certo, princ&#237;pios e preceitos comuns a todos os g&#233;neros de com&#233;rcio. Esses, por&#233;m, s&#227;o abstractos e gerais, e aplicam-se tamb&#233;m a outras colectividades, n&#227;o comerciais, que implicam o servi&#231;o do p&#250;blico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos pa&#237;ses de grande desenvolvimento comercial, e onde, portanto, cada esp&#233;cie de com&#233;rcio se especializou definidamente, h&#225; diferen&#231;as at&#233; de mentalidade entre os comerciantes de uma esp&#233;cie e os comerciantes de outra esp&#233;cie. O com&#233;rcio comission&#225;rio implica o uso de faculdades diversas daquelas que entram em campo no com&#233;rcio de conta pr&#243;pria. A mentalidade do grande exportador (empregando &#8220;grande&#8221; no sentido de compet&#234;ncia, e n&#227;o propriamente de vulto das transac&#231;&#245;es) difere da mentalidade do grande importador. A t&#233;cnica do com&#233;rcio interno aparta-se por vezes extraordinariamente da do com&#233;rcio externo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este princ&#237;pio deve ter-se presente, n&#227;o s&#243; para fins de organiza&#231;&#227;o mas tamb&#233;m para fins de se tratar competentemente com os chefes de casas comerciais de pa&#237;ses que atingiram uma especializa&#231;&#227;o mercantil definida.&lt;/p&gt;
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    <data>25-4-1926</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 4. Lisboa: 25-4-1926.&lt;/p&gt;
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    <pagina>154</pagina>
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    <titulo>Muita gente fala de com&#233;rcio como se ele fosse s&#243; um.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Primeiro&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;O BANDARRA&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;b&gt;
                &lt;i /&gt;
              &lt;/b&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sonhava, an&#243;nimo e disperso,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Imp&#233;rio por Deus mesmo visto,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Confuso como o Universo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E plebeu como Jesus Cristo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o foi nem santo nem her&#243;i,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas Deus sagrou com Seu sinal&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este, cujo cora&#231;&#227;o foi&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o portugu&#234;s mas Portugal.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>91</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Primeiro: O BANDARRA
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Na confec&#231;&#227;o da correspond&#234;ncia comercial h&#225; dois crit&#233;rios fundamentais e opostos, entre os quais &#233; dif&#237;cil escolher o que deva preferir-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro crit&#233;rio &#233; o de &#8220;marcar personalidade&#8221; na correspond&#234;ncia e no seu estilo &#8212; isto &#233;, buscar imprimir um cunho distintivo e pessoal a todas as cartas, de modo que em qualquer delas se reconhe&#231;a, por assim dizer, a mesma voz que nas outras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O segundo crit&#233;rio &#233; o de adaptar o estilo e fei&#231;&#227;o da carta ao estilo e fei&#231;&#227;o das cartas do correspondente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A nosso ver, nenhum dos crit&#233;rios &#233; universalmente prefer&#237;vel. H&#225; casos em que um estaria errado, casos em que estaria errado o oposto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O importante &#233; chamar-se a aten&#231;&#227;o do comerciante para a exist&#234;ncia dos dois crit&#233;rios. Saber que eles existem, e em que consistem, &#233; o principal.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>25-5-1926</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 5. Lisboa: 25-5-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>154</pagina>
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    <titulo>Na confec&#231;&#227;o da correspond&#234;ncia comercial h&#225; dois crit&#233;rios&#8230;
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Segundo&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;ANT&#211;NIO VIEIRA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt; &lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;c&#233;u estrela o azul e tem grandeza.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este, que teve a fama e a gl&#243;ria tem,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imperador da l&#237;ngua portuguesa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi-nos um c&#233;u tamb&#233;m.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No imenso espa&#231;o seu de meditar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Constelado de forma e de vis&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Surge, pren&#250;ncio claro do luar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;El-Rei D. Sebasti&#227;o. &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas n&#227;o, n&#227;o &#233; luar: &#233; luz do et&#233;reo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; um dia; e, no c&#233;u amplo de desejo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A madrugada irreal do Quinto Imp&#233;rio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Doira as margens do Tejo.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:32+01:00</created-at>
    <data>31-7-1929</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>92</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Segundo: ANT&#211;NIO VIEIRA
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;O nosso tempo, em que tantas actividades complexas se desenvolvem, criou profiss&#245;es novas, algumas estranh&#237;ssimas. Mas entre elas ainda n&#227;o apareceu uma que &#233; muito precisa &#8212; a de professor de leitura para as pessoas que j&#225; sabem ler.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esta observa&#231;&#227;o n&#227;o &#233; um disparate. Um grande n&#250;mero de pessoas &#8212; a maioria, talvez, se v&#237;ssemos bem &#8212; s&#227;o absolutamente desatentas: nem v&#234;em o que v&#234;em, nem l&#234;em o que est&#227;o lendo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; extraordin&#225;rio o n&#250;mero de neg&#243;cios que se demoram, se complicam inutilmente, ou, at&#233;, se enredam com gravidade, por o comerciante se n&#227;o dar ao trabalho de ler o que lhe escrevem. Depois responde concordando com o que n&#227;o se lhe prop&#244;s, ou perguntando o que j&#225; est&#225; dito. Todo o homem de neg&#243;cios deve ler as cartas que recebe palavra a palavra e atentamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A correspond&#234;ncia comercial deve ser lida em sossego e sem interrup&#231;&#227;o, nem no meio de uma carta, nem mesmo entre carta e carta, para que n&#227;o se perca a continuidade da aten&#231;&#227;o. Lida cada carta, deve fazer-se um r&#225;pido, e instintivo, esbo&#231;o mental do sentido do seu conte&#250;do. O comerciante tem pressa? L&#234; depois, quando tiver vagar. Nunca tem vagar? Se n&#227;o tem vagar para trabalhar, o que &#233; que lhe tira o vagar?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>25-3-1926</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 3. Lisboa: 25-3-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>155</pagina>
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    <titulo>O nosso tempo, em que tantas actividades complexas se desenvolvem,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Terceiro&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Escrevo meu livro &#224; beira-m&#225;goa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu cora&#231;&#227;o n&#227;o tem que ter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho meus olhos quentes de &#225;gua.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; tu, Senhor, me d&#225;s viver.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;S&#243; te sentir e te pensar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meus dias v&#225;cuos enche e doura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas quando querer&#225;s voltar?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando &#233; o Rei? Quando &#233; a Hora?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando vir&#225;s a ser o Cristo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De a quem morreu o falso Deus,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a despertar do mal que existo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Nova Terra e os Novos C&#233;us?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando vir&#225;s, &#243; Encoberto,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sonho das eras portugu&#234;s,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tornar-me mais que o sopro incerto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De um grande anseio que Deus fez?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ah, quando querer&#225;s, voltando,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fazer minha esperan&#231;a amor?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da n&#233;voa e da saudade quando?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando, meu Sonho e meu Senhor?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>93</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Terceiro: Escrevo meu livro &#224; beira-m&#225;goa.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Em correspond&#234;ncia comercial h&#225; tr&#234;s princ&#237;pios que conv&#233;m ter presentes: antes mais explicado que mais breve; antes muitos par&#225;grafos do que poucos; antes responder depressa, embora dizendo s&#243; parte, que demorar a resposta para dizer tudo.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:32+01:00</created-at>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 3. Lisboa: 25-3-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>155</pagina>
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    <titulo>Em correspond&#234;ncia comercial h&#225; tr&#234;s princ&#237;pios&#8230;
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Um comerciante nunca oficia. Mesmo dirigindo-se &#224;s inst&#226;ncias oficiais, n&#227;o abdica da f&#243;rmula comercial &#8212; a que para o caso seja mais apropriada &#8212; de abrir e fechar a carta.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 1. Lisboa: 25-1-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>156</pagina>
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    <titulo>Um comerciante nunca oficia.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Uma carta &#225;spera ou violenta &#233; sempre injustificada, porque &#233; sempre in&#250;til. Indisp&#245;e, e n&#227;o d&#225; resultado. Quem n&#227;o paga porque n&#227;o quer, n&#227;o passa a pagar por lhe dizerem que n&#227;o paga porque n&#227;o quer. Isto j&#225; ele sabe. E quem n&#227;o paga porque n&#227;o pode, n&#227;o fica contente que se lhe diga ou se lhe insinue que n&#227;o paga porque n&#227;o quer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:32+01:00</created-at>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 1. Lisboa: 25-1-1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>156</pagina>
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    <titulo>Uma carta &#225;spera ou violenta &#233; sempre injustificada,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;REALITY&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Compositional reality is of three types: &lt;i&gt;Direct&lt;/i&gt;, as when a table is conceived (and indeed seen) to be composed of parts (legs, top), and, finally, of the material (wood, steel, or whatever it may be) from which it is made;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Indirect&lt;/i&gt;, as when its chemical and physical composition, its final atomic composition, is meant;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Mathematic&lt;/i&gt;, as when (this being the case of a being in space) its geometric aspect or form is considered.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Now compositional reality is true reality in so far as its data are of the same type as that of Simple reality. The only true reality of the compositional type is the one I have called direct; for the legs and top of the table, as also the material from which the table is made, are visible in the same manner as the whole table is visible. Nevertheless there is here a process of analysis; simple but real.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mathematic reality is no longer reality at all. The form, weight and size of the table are of this type. These are all given, indeed, by senses; but by a particular use of the senses. (...)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Indirect reality is still furthet from the primary sense-impression.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A table has weight, has form, has size. These things are properties of the table, but they do not compose the table to the senses. Similarly a table has a final atomic structure, that of the material or materials from which it is made.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Now these &#171;realities&#187; that make up the table are of the same kind. The atom &#8212; the final element, physical element, whatever it may be &#8212; &#171;exists&#187; in exactly the same manner as the weight, or the size, or the shape of the table exists.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neither each, nor all, of these things taken together in any conceivable way constitute the table. It is the table that is constituted, to us, by them.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;These things are all DIMENSIONS. Weight, size, atomic constitution, are as much dimensions of the table as its height, width and depth are. These 3 last are decompositions of the geometric constitution of the table. The atoms are similarly decompositions of the (...)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;There need be no inquiry into the infinite, or not infinite, divisibility of the physical ultimate. The physical ultimate is no more and no less than the mathematical ultimate, which is the point. To inquire into the infinite, or not infinite, divisibility of the physical ultimate, is to TRANSFER TO THE PHYSICAL, ULTIMATE CHARACTERISTICS WHICH BELONG TO THE MATHEMATICAL ULTIMATE.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Atoms, the physical ultimates, do not exist in space; they exist in things which exist in space. Yet these things do not exist in space in virtue of physical, but of mathematical, composition.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It is as if we were to speak of the weight of a straight line, thus transferring one characteristic...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Now, whereas a table is a reality, for it is a datum of the senses, the composition of the table is not a reality in the same sense, because it is a datum, not of the senses, but of the analysis, however rudimentary and spontaneous, of sense-impressions.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;But an analysis of sense-impression is an analysis, not of reality &#8212; for reality, being only reality in so far as it is perceived and only really and fully perceived in so far as it is only perceived and not analysed or reasoned about &#8212; but of an impression of reality. Compositional reality cannot therefore be understood unless it is studied in the percipient and not in the perceived.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A dimension is therefore only comprehensible in so far as the percipient is studied. Now a dimension being of space (&#171;dimension&#187; in the usual geometrical meaning), to understand a dimension we must conceive the percipient as an experiencer of space, or in space; and this means that we must consider him as having a position.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;This simplifies matters at once. We have proved (?) that a real body is composed of an infinite number of dimensions. Why then do we speak normally of only three dimensions?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Why is it impossible to us to conceive &#8212; except transferentially, non-sensively, by mathematical conception &#8212; of four or more dimensions? Because sight, which gives that sense of space on which dimensions are conceived, is static, from one point at a time. If we could travel round a sphere in a right line, tracing a circle round it, or, in other words, following a circle of its geometric composition, and if we could [do] this either in no time, extra-temporally, or receive the sense impression of the whole only at the end and then instantaneously and totally, we would have the notion of a straight line, or of a point, and not of a circumference. There is, then, nothing mysterious in this conflict between the inevitable three dimensions of sense-conception (so to speak) and the possible more of mathematical analysis (?). Position limits our concept of dimensions.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;If, again, we could see an object from two sides at the same time (which, be it noted, is not the same thing as being two persons in different points of space, but the same person with the same eyes in two places) an immediate new concept of dimensions would appear to us.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It must be strictly understood that when we say that a solid is composed of an infinite number of dimensions, we mean that infinite number of dimensions to signify geometrical dimensions. We do not mean extra-geometrical properties  &#8212; such as weight, size, colour &#8212; to be taken as &#171;dimensions&#187;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The dimensions are exclusively spatial, the body has an infinite number of dimensions strictly and exclusively from the spatial standpoint, as a thing existing in space and not &#171;in weight&#187;, &#171;in colour&#187;, &#171;in size&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;It may be said that the notion of inifinite divisibility is numerical and not geometric &#8212; that there is no reason to exclude this from the physical ultimate, unless it be excluded, also, from the geometric ultimate.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Infinite divisibility, however, means something else. Divisibility of the kind meant implies space.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Divisibility in general does not; it implies only number. When we say that six divided by three is two, we do not refer to any spatial operation.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The concept of plurality is all that is needed for this.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>26</pagina>
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    <titulo>REALITY
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;P&#225;ginas de Pensamento Pol&#237;tico.&lt;/b&gt; Vol II. Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;No fecho das cartas onde se d&#225; tratamento de Excel&#234;ncia nunca se emprega a palavra &#8220;estima&#8221;. &#192;s Excel&#234;ncias compete &#8220;considera&#231;&#227;o&#8221; ou &#8220;respeito&#8221;. Estima &#233; s&#243; para as Senhorias.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; Publ. in &lt;b&gt;Revista de Com&#233;rcio e Contabilidade&lt;/b&gt;, n&#186; 1. Lisboa: 25-1-1926.&lt;/p&gt;
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    <pagina>156</pagina>
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    <titulo>No fecho das cartas onde se d&#225; tratamento de Excel&#234;ncia&#8230;
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O mundo, (a) que chamamos externo &#8212; por oposi&#231;&#227;o ao outro, porventura n&#227;o menos externo em que nos surgem como nossos os fen&#243;menos da consci&#234;ncia (de n&#243;s pr&#243;prios) &#8212; aparece-nos essencialmente como um &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;n&#250;mero &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;indefinido de coisas ou objectos ou elementos, mais ou menos diferentes entre si, e manifestando-se-nos, em oposi&#231;&#227;o &#224;quele outro &#171;mundo&#187; a que podemos chamar interno, pela ocupa&#231;&#227;o do que chamamos &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;espa&#231;o&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#227;o estes dois conceitos &#8212; o de n&#250;mero e o de espa&#231;o &#8212; os dois fundamentos em que a experi&#234;ncia essencial assenta sua determina&#231;&#227;o e seu conhecimento do mundo (a que chamamos) externo. Aparecem-nos como n&#227;o s&#243; ambos essenciais, sen&#227;o tamb&#233;m co-essenciais a essa experi&#234;ncia obbjectiva. Se consideramos o n&#250;mero, de per si e como conceito logicamente anterior ao, e por isso concebido independentemente do espa&#231;o, n&#227;o temos, ao conceb&#234;-lo, um conceito de mundo externo, sen&#227;o apenas o conceito abstracto de n&#250;mero; ideia n&#227;o j&#225; (...) sen&#227;o metaf&#237;sica, conceito an&#225;logo ao que Pit&#225;goras formava do mesmo n&#250;mero, e Plat&#227;o de todas as ideias a que em l&#243;gica chamamos gerais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Considerado, tamb&#233;m, o espa&#231;o sem n&#250;mero, isto &#233;, sem n&#250;mero de objectos que o ocupem e nele se &#171;manifestem&#187;, fica-nos um conceito abstracto de espa&#231;o concretamente impens&#225;vel, v&#225;cuo puro, abstracto, mera possibilidade de mundos; nem mesmo defin&#237;vel como extens&#227;o; pois, sendo o puro &#171;lugar onde&#187;, por&#233;m, aparecendo-nos sem limite, partes (pois que seriam n&#250;meros abertos nele) ou composi&#231;&#227;o, (...) em nada o poderemos distinguir &#8212; salvo no nome, que n&#227;o &#233; nada &#8212; do conceito an&#225;logo de &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;tempo, &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;sem an&#225;logo no mundo interior nosso.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Discorremos, em tudo isto, f&#237;sica que n&#227;o metafisicamente. Metafisicamente todos os conceitos s&#227;o poss&#237;veis, ainda que envolvam contradi&#231;&#227;o; pois que a metaf&#237;sica improv&#225;vel e inverific&#225;vel determinadamente, se ocupa, n&#227;o de tal exist&#234;ncia, sen&#227;o da exist&#234;ncia em si, do ser considerado s&#243; como ser &#8212; e como da exist&#234;ncia em si, nada sabemos de certo, ignoramos portanto poder admitir, que inclua, ou mesmo seja essencialmente, contradi&#231;&#227;o ou nega&#231;&#227;o de si, ou mesmo coisa nenhuma.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>O mundo, (a) que chamamos externo &#8212; por oposi&#231;&#227;o ao outro,
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A cause is a relation of alteration (&lt;i&gt;movement&lt;/i&gt;) between two things.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Put a match unlight upon your hand. It will have no effect on your organism. There is here then no proper cause &#8212; in the mere relation of contiguity.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The day comes after the night, and the night after the day but, etc.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cause then does not consist, of necessity, in a relation of succession.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Now, if you drink, for instance, prussic acid, you will die. The prussic acid was the direct &lt;i&gt;cause&lt;/i&gt; of your death. There are here contiguity, succession, but as we have seen, cause has not its essence in these. What then is here more? There is here an &lt;i&gt;alteration&lt;/i&gt; produced.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Run a billiard ball against another: this last, when struck will move away. Here are contiguity, succession, and what more? A &lt;i&gt;movement&lt;/i&gt;, that is to say a kind of an alteration. We now can perceive the characteristic of Cause. &lt;span&gt;[...]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>35</pagina>
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    <titulo>A cause is a relation of alteration (movement) between two things.
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tens um livro que n&#227;o l&#234;s,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tens um livro que n&#227;o l&#234;s,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tens uma flor que desfolhas;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tens um cora&#231;&#227;o aos p&#233;s&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E para ele n&#227;o olhas.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>42</pagina>
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    <titulo>Tens um livro que n&#227;o l&#234;s,
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;As mis&#233;rias de um homem que sente o t&#233;dio da vida do terra&#231;o da sua vila rica s&#227;o uma coisa; s&#227;o outra coisa as mis&#233;rias de quem, como eu, tem que contemplar a paisagem do meu quarto num 4&#186; andar da Baixa, e sem poder esquecer que &#233; ajudante de guarda-livros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Tout notaire a r&#234;v&#233; des sultanes&#187;...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tenho um prazer &#237;ntimo, da ironia do rid&#237;culo imerecido, quando, sem que algu&#233;m estranhe, declaro, nos actos oficiais, em que &#233; preciso dizer a profiss&#227;o: empregado no com&#233;rcio&lt;i&gt;. &lt;/i&gt;N&#227;o sei como inserto o meu nome vem assim no Anu&#225;rio Comercial.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ep&#237;grafe ao Di&#225;rio&lt;i&gt;:&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Guedes (Vicente), empregado do com&#233;rcio, Rua dos Retroseiros, 17-4&#186;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Anu&#225;rio Comercial de Portugal&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mania do absurdo e do paradoxo &#233; o animal spirits dos tristes. Como o homem normal, diz disparates por vitalidade, e por sangue d&#225; palmadas nas costas de outros, os incapazes de entusiasmo e de alegria d&#227;o cambalhotas na intelig&#234;ncia, a seu frio modo fazem os gestos quentes da vida.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>180,1</pagina>
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    <titulo>As mis&#233;rias de um homem que sente o t&#233;dio da vida...
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;MATTER AND FORM&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;There are 2 fundamental conditions of existence: one of these is time and the other is space. Through each of these the Unknown is manifested.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Through Space its condition &#8212; is pure Matter, primary matter. Pure matter has no duration. When there is duration there is change; and pure matter cannot change: for if it change what is it to change to? To something other than matter. But then it is no longer pure matter, it exists no longer by space. If it cannot change in itself, it must (appear to change), bear change in itself.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;But to bear change in itself it must admit a &#171;changeness&#187;, (a principle of change). This must be the pure result of extension and of duration. This is Form.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <titulo>MATTER AND FORM
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Nunca dizes se gostaste&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nunca dizes se gostaste&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Daquilo que te calei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei bem que o adivinhaste.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que pensaste n&#227;o sei.&lt;/p&gt;
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    <titulo>Nunca dizes se gostaste
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;PACI&#202;NCIAS&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i /&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As tias velhas dos que as tiveram, nos ser&#245;es a petr&#243;leo das casas vagas na prov&#237;ncia, entretinham a hora em que a criada dorme ao som crescente da chaleira [...] a fazer paci&#234;ncias com cartas. Tem saudades em mim desse sossego in&#250;til algu&#233;m que se coloca no meu lugar. Vem o ch&#225; e o baralho velho amontoa-se regular ao canto da mesa. O guarda-lou&#231;a enorme escurece a sombra, na sala de jantar a penumbrada. Sua de sono a cara da criada apressada lentamente por acabar. Vejo isso tudo em mim com uma ang&#250;stia e uma saudade independentes de ter rela&#231;&#227;o com qualquer coisa. E, sem querer, ponho-me a considerar qual &#233; o estado de esp&#237;rito de quem faz paci&#234;ncias com cartas.&lt;/p&gt;
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>181</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>PACI&#202;NCIAS
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Notes&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;1. Alteration is of Time.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;Transference is of space.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2. Critique of Materialism.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Materially, the only thing that really exists is the present moment.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Rationally it is different.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;The conclusion to be drawn from fatalism: that what reason knows exists before reason; that is to say, to the human reason the future is present.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>38</pagina>
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    <titulo>Notes - 1. Alteration is of Time.
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;O vaso que dei &#224;quela&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O vaso que dei &#224;quela&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o sabe quem lho deu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225;-de ser posto &#224; janela&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem ningu&#233;m saber que &#233; meu.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>43</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>O vaso que dei &#224;quela
</titulo>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Poentes de [...] e ritual feito, acontecidos, sem querer, ao fundo de paisagens.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Paisagem cabisbaixa, sem contrastes; cujos &#250;nicos montes eram os nossos pensamentos de que ali n&#227;o havia montes; e esses montes eram verdadeiramente um detalhe morto da paisagem.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Calmas vozes dividindo palavras por desfastio, para al&#233;m de paredes de nuvens... A nossa vida vale pouco e n&#227;o nos sobra tempo para sentirmos bater o cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;[At&#233; os l&#237;rios (...)]&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
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    <titulo>Poentes de [...] e ritual feito, acontecidos, sem querer,
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  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&#8220;Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;DOIS EXCERTOS DE ODES&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(FINS DE DUAS ODES, NATURALMENTE)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;I&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;......&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem, Noite antiqu&#237;ssima e id&#234;ntica, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Noite Rainha nascida destronada, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Noite igual por dentro ao sil&#234;ncio. Noite &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com as estrelas lantejoulas r&#225;pidas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No teu vestido franjado de Infinito.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem, vagamente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem, levemente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem sozinha, solene, com as m&#227;os ca&#237;das &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao teu lado, vem &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E traz os montes long&#237;nquos para o p&#233; das &#225;rvores pr&#243;ximas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Funde num campo teu todos os campos que vejo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faze da montanha um bloco s&#243; do teu corpo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apaga-lhe todas as diferen&#231;as que de longe vejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todas as estradas que a sobem, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todas as v&#225;rias &#225;rvores que a fazem verde-escuro ao longe. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todas as casas brancas e com fumo entre as &#225;rvores, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E deixa s&#243; uma luz e outra luz e mais outra, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na dist&#226;ncia imprecisa e vagamente perturbadora. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na dist&#226;ncia subitamente imposs&#237;vel de percorrer.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nossa Senhora &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das coisas imposs&#237;veis que procuramos em v&#227;o, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dos sonhos que v&#234;m ter connosco ao crep&#250;sculo, &#224; janela. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dos prop&#243;sitos que nos acariciam &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos grandes terra&#231;os dos hot&#233;is cosmopolitas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao som europeu das m&#250;sicas e das vozes longe e perto. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que doem por sabermos que nunca os realizaremos... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem, e embala-nos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem e afaga-nos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Beija-nos silenciosamente na fronte, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;T&#227;o levemente na fronte que n&#227;o saibamos que nos beijam &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sen&#227;o por uma diferen&#231;a na alma. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E um vago solu&#231;o partindo melodiosamente &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do antiqu&#237;ssimo de n&#243;s &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde t&#234;m raiz todas essas &#225;rvores de maravilha &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cujos frutos s&#227;o os sonhos que afagamos e amamos &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque os sabemos fora de rela&#231;&#227;o com o que h&#225; na vida.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem solen&#237;ssima, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Solen&#237;ssima e cheia &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De uma oculta vontade de solu&#231;ar, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Talvez porque a alma &#233; grande e a vida pequena. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E todos os gestos n&#227;o saem do nosso corpo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E s&#243; alcan&#231;amos onde o nosso bra&#231;o chega, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E s&#243; vemos at&#233; onde chega o nosso olhar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem, dolorosa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mater-Dolorosa das Ang&#250;stias dos T&#237;midos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M&#227;o fresca sobre a testa em febre dos humildes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sabor de &#225;gua sobre os l&#225;bios secos dos Cansados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem, l&#225; do fundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do horizonte l&#237;vido,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem e arranca-me&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do solo de ang&#250;stia e de inutilidade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde vicejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Folha a folha l&#234; em mim n&#227;o sei que sina&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E desfolha-me para teu agrado,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para teu agrado silencioso e fresco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma folha de mim lan&#231;a para o Norte,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde est&#227;o as cidades de Hoje que eu tanto amei;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra folha de mim lan&#231;a para o Sul,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde est&#227;o os mares que os Navegadores abriram;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outra folha minha atira ao Ocidente,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que eu sem conhecer adoro;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a outra, as outras, o resto de mim&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Atira ao Oriente,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a f&#233;,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao Oriente pomposo e fan&#225;tico e quente,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao Oriente budista, bram&#226;nico, sinto&#237;sta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao Oriente que tudo o que n&#243;s n&#227;o temos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que tudo o que n&#243;s n&#227;o somos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao Oriente onde &#8212; quem sabe? &#8212; Cristo talvez ainda hoje viva,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem sobre os mares, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre os mares maiores, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre os mares sem horizontes precisos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem e passa a m&#227;o pelo dorso da fera, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E acalma-o misteriosamente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#211; domadora hipn&#243;tica das coisas que se agitam muito!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem, cuidadosa, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem, maternal, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P&#233; antep&#233; enfermeira antiqu&#237;ssima, que te sentaste &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#192; cabeceira dos deuses das f&#233;s j&#225; perdidas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que viste nascer Jeov&#225; e J&#250;piter, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E sorriste porque tudo te &#233; falso e in&#250;til.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vem, Noite silenciosa e ext&#225;tica,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vem envolver na noite manto branco&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O meu cora&#231;&#227;o...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Serenamente como uma brisa na tarde leve,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tranquilamente com um gesto materno afagando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com as estrelas luzindo nas tuas m&#227;os&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a lua m&#225;scara misteriosa sobre a tua face.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos os sons soam de outra maneira&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando tu vens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando tu entras baixam todas as vozes,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ningu&#233;m te v&#234; entrar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ningu&#233;m sabe quando entraste,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sen&#227;o de repente, vendo que tudo se recolhe,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que tudo perde as arestas e as cores,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que no alto c&#233;u ainda claramente azul&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; crescente n&#237;tido, ou c&#237;rculo branco, ou mera luz nova que vem,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A lua come&#231;a a ser real.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>30-6-1914</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Revista de Portugal&lt;/b&gt;, n&#186;4. Lisboa: Jul. 1938.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>155</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>I - Vem, Noite antiqu&#237;ssima e id&#234;ntica,
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Contemplo o lago mudo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que uma brisa estremece.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei se penso em tudo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou se tudo me esquece.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O lago nada me diz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sinto a brisa mex&#234;-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei se sou feliz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem se desejo s&#234;-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tr&#233;mulos vincos risonhos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na &#225;gua adormecida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por que fiz eu dos sonhos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A minha &#250;nica vida?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>122</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Contemplo o lago mudo
</titulo>
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Time and space cannot by themselves make individuality. Being is needed. A dead man occupies Time and Space, but has no individuality, no Being.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>39</pagina>
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    <titulo>Time and space cannot by themselves make individuality.
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tive uma flor para dar&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tive uma flor para dar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A quem n&#227;o ousei dizer&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que lhe queria falar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a flor teve que morrer.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <titulo>Tive uma flor para dar
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;L. do D.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Reconhe&#231;o hoje que falhei, s&#243; pasmo, &#224;s vezes, de n&#227;o ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu n&#227;o tinha a for&#231;a cega dos vencedores ou a vis&#227;o certa [?] dos loucos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era l&#250;cido e triste como um dia frio.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tenho elementos espirituais de bo&#233;mio, desses que deixam a vida ir como uma coisa que se escapa das m&#227;os e a tal hora em que o gesto de a obter dorme na mera ideia de faz&#234;-lo. Mas n&#227;o tive a compensa&#231;&#227;o exterior do esp&#237;rito bo&#233;mio &#8212; o descuidado f&#225;cil das emo&#231;&#245;es imediatas e abandonadas. Nunca fui mais que um bo&#233;mio isolado, o que &#233; um absurdo; ou um bo&#233;mio m&#237;stico, o que &#233; uma coisa imposs&#237;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Certas horas-intervalos que tenho vivido, horas perante a natureza, esculpidas na ternura do isolamento, ficar-me-&#227;o para sempre como medalhas. Nesses momentos esqueci todos os meus prop&#243;sitos de vida, todas as minhas direc&#231;&#245;es desejadas. Gozei n&#227;o ser nada com uma plenitude de bonan&#231;a espiritual, caindo no rega&#231;o azul das minhas aspira&#231;&#245;es. N&#227;o gozei nunca, talvez, uma hora indel&#233;vel, isenta de um fundo espiritual de fal&#234;ncia e de des&#226;nimo. Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detr&#225;s dos muros da minha consci&#234;ncia, em outros quintais, mas o aroma e a pr&#243;pria cor dessas flores tristes atravessavam intuitivamente os muros, e o lado de l&#225; deles, onde floriam as rosas, nunca deixaram de ser, no mist&#233;rio confuso do meu ser, um lado de c&#225; &#8212; esbatido na minha sonol&#234;ncia de viver.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Foi num mar interior que o rio da minha vida findou. &#192; roda do meu solar sonhado todas as &#225;rvores estavam no outono. Esta paisagem circular &#233; a coroa-de-espinhos da minha alma. Os momentos mais felizes da minha vida foram sonhos, e sonhos de tristeza, e eu via-me nos lagos deles como um Narciso cego que gozou a frescura pr&#243;ximo da &#225;gua, sentindo-se debru&#231;ado nela, por uma vis&#227;o anterior e nocturna, segredada &#224;s emo&#231;&#245;es abstractas, vivida nos recantos da imagina&#231;&#227;o com um cuidado materno em preferir-se.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sei que falhei. Gozo a vol&#250;pia indeterminada da fal&#234;ncia como quem d&#225; um apre&#231;o exausto a uma febre que o enclausura.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:32+01:00</created-at>
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    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
    <id type="integer">128</id>
    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>213</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Reconhe&#231;o hoje que falhei,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&#8220;Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)&#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;II&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ah o crep&#250;sculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E a m&#227;o de mist&#233;rio que abafa o bul&#237;cio, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o cansa&#231;o de tudo em n&#243;s que nos corrompe &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para uma sensa&#231;&#227;o exacta e precisa e activa da Vida! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada rua &#233; um canal de uma Veneza de t&#233;dios &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que misterioso o fundo un&#226;nime das ruas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das ruas ao cair da noite, &#243; Ces&#225;rio Verde, &#243; Mestre, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#211; do &#171;Sentimento de um Ocidental&#187;!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que inquieta&#231;&#227;o profunda, que desejo de outras coisas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nem s&#227;o pa&#237;ses, nem momentos, nem vidas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que desejo talvez de outros modos de estados de alma &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Humedece interiormente o instante lento e long&#237;nquo!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Um horror son&#226;mbulo entre luzes que se acendem,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um pavor terno e l&#237;quido, encostado &#224;s esquinas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como um mendigo de sensa&#231;&#245;es imposs&#237;veis&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o sabe quem lhas possa dar...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando eu morrer, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando me for, ignobilmente, como toda a gente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por aquele caminho cuja ideia se n&#227;o pode encarar de frente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por aquela porta a que, se pud&#233;ssemos assomar, n&#227;o assomar&#237;amos &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para aquele porto que o capit&#227;o do Navio n&#227;o conhece, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seja por esta hora condigna dos t&#233;dios que tive, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por esta hora m&#237;stica e espiritual e antiqu&#237;ssima, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por esta hora em que talvez, h&#225; muito mais tempo do que parece, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Plat&#227;o sonhando viu a ideia de Deus &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esculpir corpo e exist&#234;ncia nitidamente plaus&#237;vel. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Seja por esta hora que me leveis a enterrar, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por esta hora que eu n&#227;o sei como viver, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que n&#227;o sei que sensa&#231;&#245;es ter ou fingir que tenho, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por esta hora cuja miseric&#243;rdia &#233; torturada e excessiva, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cujas sombras v&#234;m de qualquer outra coisa que n&#227;o as coisas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cuja passagem n&#227;o ro&#231;a vestes no ch&#227;o da Vida Sens&#237;vel &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cruza as m&#227;os sobre o joelho, &#243; companheira que eu n&#227;o tenho nem quero ter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cruza as m&#227;os sobre o joelho e olha-me em sil&#234;ncio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A esta hora em que eu n&#227;o posso ver que tu me olhas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olha-me em sil&#234;ncio e em segredo e pergunta a ti pr&#243;pria&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; Tu que me conheces &#8212; quem eu sou...&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Revista de Portugal&lt;/b&gt;, n&#186;4. Lisboa: Jul. 1938.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>160</pagina>
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    <titulo>II - Ah o crep&#250;sculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;D&#225; a surpresa de ser&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; alta, de um louro escuro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faz bem s&#243; pensar em ver&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seu corpo meio maduro.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Seus seios altos parecem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Se ela estivesse deitada)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dois montinhos que amanhecem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem ter que haver madrugada.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E a m&#227;o do seu bra&#231;o branco&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assenta em palmo espalhado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre a sali&#234;ncia do flanco&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do seu relevo tapado.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Apetece como um barco.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tem qualquer coisa de gomo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu Deus, quando &#233; que eu embarco?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#211; fome, quando &#233; que eu como?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>123</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>D&#225; a surpresa de ser
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Durmo ou n&#227;o? Passam juntas em minha alma&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Coisas da alma e da vida em confus&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesta mistura atribulada e calma&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que n&#227;o sei se durmo ou n&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sou dois seres e duas consci&#234;ncias &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como dois homens indo bra&#231;o-dado. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sonolento revolvo omnisci&#234;ncias, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Turbulentamente estagnado.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desperto. Enfim: sou um, na realidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espregui&#231;o-me. Estou bem... Porqu&#234; depois,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De qu&#234;, esta vaga saudade?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>95</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Durmo ou n&#227;o? Passam juntas em minha alma
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Em cada instante que possa &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;decorrer uma eternidade, &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;visto que cada instante, infinitamente divis&#237;vel, &#233; infinito idealmente, isto &#233;, eterno.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;A divis&#227;o do tempo &#233; uma conven&#231;&#227;o. Realmente cada divis&#227;o dessas (seja qual for) &#233; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;uma eternidade.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O c&#233;lebre argumento de &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;&#233;ternit&#233; &#233;nub&#233;e&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &#233;&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;falso no que quer provar, por ser inconceb&#237;vel uma &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;&#233;ternit&#233; &#233;nub&#233;e.&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Se &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;avan&#231;amos &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;para o infinito n&#227;o avan&#231;amos realmente, mas estamos &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;essencialmente &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;estacion&#225;rios.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
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    <titulo>Em cada instante que possa decorrer uma eternidade,
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Quando olhaste para tr&#225;s,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando olhaste para tr&#225;s,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o supus que era por mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas sempre olhaste, e isso faz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que fosse melhor assim.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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</notas>
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    <titulo>Quando olhaste para tr&#225;s,
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tive um certo talento para a amizade, mas nunca tive amigos, quer porque eles me faltassem, quer porque a amizade que eu concebera fora um erro dos meus sonhos. Vivi sempre isolado, e cada vez mais isolado, quanto mais dei por mim.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>242</pagina>
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    <titulo>Tive um certo talento para a amizade, mas nunca tive amigos,
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt; </biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;ODE MAR&#205;TIMA&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Sozinho, no cais deserto, a esta manh&#227; de Ver&#227;o,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Olho pr&#243; lado da barra, olho pr&#243; Indefinido,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Olho e contenta-me ver,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vem muito longe, n&#237;tido, cl&#225;ssico &#224; sua maneira.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Deixa no ar distante atr&#225;s de si a orla v&#227; do seu fumo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vem entrando, e a manh&#227; entra com ele, e no rio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Aqui, acol&#225;, acorda a vida mar&#237;tima,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Erguem-se velas, avan&#231;am rebocadores,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Surgem barcos pequenos detr&#225;s dos navios que est&#227;o no porto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;H&#225; uma vaga brisa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas a minh'alma est&#225; com o que vejo menos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com o paquete que entra,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque ele est&#225; com a Dist&#226;ncia, com a Manh&#227;,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com o sentido mar&#237;timo desta Hora,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com a do&#231;ura dolorosa que sobe em mim como uma n&#225;usea,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como um come&#231;ar a enjoar, mas no esp&#237;rito.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Olho de longe o paquete, com uma grande independ&#234;ncia de alma,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E dentro de mim um volante come&#231;a a girar, lentamente.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Os paquetes que entram de manh&#227; na barra&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Trazem aos meus olhos consigo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O mist&#233;rio alegre e triste de quem chega e parte.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Trazem mem&#243;rias de cais afastados e doutros momentos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo o atracar, todo o largar de navio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; &#8212; sinto-o em mim como o meu sangue &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Inconscientemente simb&#243;lico, terrivelmente&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Amea&#231;ador de significa&#231;&#245;es metaf&#237;sicas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que perturbam em mim quem eu fui...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, todo o cais &#233; uma saudade de pedra!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E quando o navio larga do cais&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E se repara de repente que se abriu um espa&#231;o&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Entre o cais e o navio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vem-me, n&#227;o sei porqu&#234;, uma ang&#250;stia recente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma n&#233;voa de sentimentos de tristeza&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que brilha ao sol das minhas ang&#250;stias relvadas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como a primeira janela onde a madrugada bate,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E&lt;i&gt; &lt;/i&gt;me envolve com uma recorda&#231;&#227;o duma outra pessoa&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que fosse misteriosamente minha.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, quem sabe, quem sabe,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se n&#227;o parti outrora, antes de mim,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dum cais; se n&#227;o deixei, navio ao sol&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Obl&#237;quo da madrugada,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma outra esp&#233;cie de porto?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quem sabe se n&#227;o deixei, antes de a hora&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Do mundo exterior como eu o vejo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Raiar-se para mim,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um grande cais cheio de pouca gente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Duma grande cidade meio-desperta,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Duma enorme cidade comercial, crescida, apopl&#233;ctica,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanto quanto isso pode ser fora do Espa&#231;o e do Tempo?&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Real, vis&#237;vel como cais, cais realmente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Insensivelmente evocado,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#243;s os homens constru&#237;mos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os nossos cais nos nossos portos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os nossos cais de pedra actual sobre &#225;gua verdadeira,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que depois de constru&#237;dos se anunciam de repente&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Coisas-Reais, Esp&#237;ritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A certos momentos nossos de sentimento-raiz&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E, sem que nada se altere,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tudo se revela diverso.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Na&#231;&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Grande Cais Anterior, eterno e divino!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De que porto? Em que &#225;guas? E porque penso eu isto?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Grandes Cais como os outros cais, mas o &#242;nico.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cheio como eles de sil&#234;ncios rumorosos nas antemanh&#227;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E desabrochando com as manh&#227;s num ru&#237;do de guindastes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E chegadas de comboios de mercadorias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E sob a nuvem negra e ocasional e leve&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Do fundo das chamin&#233;s das f&#225;bricas pr&#243;ximas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que lhe sombreia o ch&#227;o preto de carv&#227;o pequenino que brilha,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre &#225;gua sombria.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, que essencialidade de mist&#233;rio e sentido parados&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em divino &#234;xtase revelador&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#203;s horas cor de sil&#234;ncios e ang&#250;stias&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o &#233; ponte entre qualquer cais e O Cais!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Cais negramente reflectido nas &#225;guas paradas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Bul&#237;cio a bordo dos navios,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#211; alma errante e inst&#225;vel da gente que anda embarcada,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da gente simb&#243;lica que passa e com quem nada dura,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que quando o navio volta ao porto&lt;/p&gt; &lt;p&gt;H&#225; sempre qualquer altera&#231;&#227;o a bordo!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;&#211; fugas cont&#237;nuas, idas, ebriedade do Diverso!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Alma eterna dos navegadores e das navega&#231;&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cascos reflectidos devagar nas &#225;guas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando o navio larga do porto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Flutuar como alma da vida, partir como voz,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Viver o momento tremulamente sobre &#225;guas eternas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ver portos misteriosos sobre a solid&#227;o do mar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Virar cabos long&#237;nquos para s&#250;bitas vastas paisagens&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por inumer&#225;veis encostas at&#243;nitas...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, as praias long&#237;nquas, os cais vistos de longe,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E depois as praias pr&#243;ximas, os cais vistos de perto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O mist&#233;rio de cada ida e de cada chegada,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Deste imposs&#237;vel universo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A cada hora mar&#237;tima mais na pr&#243;pria pele sentido!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O solu&#231;o absurdo que as nossas almas derramam&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sobre as extens&#245;es de mares diferentes com ilhas ao longe,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sobre as ilhas long&#237;nquas das costas deixadas passar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sobre o crescer n&#237;tido dos portos, com as suas casas e a sua gente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para o navio que se aproxima.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, a frescura das manh&#227;s em que se chega,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a palidez das manh&#227;s em que se parte,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando as nossas entranhas se arrepanham&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E uma vaga sensa&#231;&#227;o parecida com um medo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#8212; O medo ancestral de se afastar e partir,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;o misterioso receio ancestral &#224; Chegada e ao Novo &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Encolhe-nos a pele e agonia-nos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E todo o nosso corpo angustiado sente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como se fosse a nossa alma,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma inexplic&#225;vel vontade de poder sentir isto doutra maneira:&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma saudade a qualquer coisa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma perturba&#231;&#227;o de afei&#231;&#245;es a que vaga p&#225;tria?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A que costa? a que navio? a que cais?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que se adoece em n&#243;s o pensamento,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E s&#243; fica um grande v&#225;cuo dentro de n&#243;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma oca saciedade de minutos mar&#237;timos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E uma ansiedade vaga que seria t&#233;dio ou dor&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se soubesse como s&#234;-lo...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;A manh&#227; de Ver&#227;o est&#225;, ainda assim, um pouco fresca.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem d&#250;vida,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E n&#227;o porque eu o veja mover-se na sua dist&#226;ncia excessiva.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Na minha imagina&#231;&#227;o ele est&#225; j&#225; perto e &#233; vis&#237;vel&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em toda a extens&#227;o das linhas das suas vigias.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado obl&#237;quo.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Os navios que entram a barra,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os navios que saem dos portos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os navios que passam ao longe&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(Suponho-me vendo-os duma praia deserta) &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todos estes navios abstractos quase na sua ida&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todos estes navios assim comovem-me como se fossem outra coisa&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E n&#227;o apenas navios, navios indo e vindo.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;E os navios vistos de perto, mesmo que se n&#227;o v&#225; embarcar neles,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vistos dentro, atrav&#233;s das c&#226;maras, das salas, das despensas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Olhando de perto os mastros, afilando-se l&#225; pr&#243; alto,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ro&#231;ando pelas cordas, descendo as escadas inc&#243;modas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cheirando a untada mistura met&#225;lica e mar&#237;tima de tudo aquilo &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os navios vistos de perto s&#227;o outra coisa e a mesma coisa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;D&#227;o a mesma saudade e a mesma &#226;nsia doutra maneira.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Toda a vida mar&#237;tima! tudo na vida mar&#237;tima!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Insinua-se no meu sangue toda essa sedu&#231;&#227;o fina&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E eu cismo indeterminadamente as viagens.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As solid&#245;es mar&#237;timas como certos momentos no Pac&#237;fico&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em que n&#227;o sei por que sugest&#227;o aprendida na escola&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele &#233; o maior dos oceanos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de n&#243;s!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A extens&#227;o mais humana, mais salpicada, do Atl&#226;ntico!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O &#205;ndico, o mais misterioso dos oceanos todos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Mediterr&#226;neo, doce, sem mist&#233;rio nenhum, cl&#225;ssico, um mar para bater&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De encontro a esplanadas olhadas de jardins pr&#243;ximos por est&#225;tuas brancas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todos os mares, todos os estreitos, todas as ba&#237;as, todos os golfos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Queria apert&#225;-los ao peito, senti-los bem e morrer!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;E v&#243;s, &#243; coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Componde fora de mim a minha vida interior!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chamin&#233;s de vapores, h&#233;lices, g&#225;veas, fl&#226;mulas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Galdropes, escotilhas, caldeiras, colectores, v&#225;lvulas;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ca&#237;, por mim dentro em mont&#227;o, em monte,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como o conte&#250;do confuso de uma gaveta despejada no ch&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sede v&#243;s o tesouro da minha avareza febril,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sede v&#243;s os frutos da &#225;rvore da minha imagina&#231;&#227;o,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha intelig&#234;ncia,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vosso seja o la&#231;o que me une ao exterior pela est&#233;tica,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fornecei-me met&#225;foras imagens, literatura,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque em real verdade, a s&#233;rio, literalmente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minhas sensa&#231;&#245;es s&#227;o um barco de quilha pr&#243; ar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha imagina&#231;&#227;o uma &#226;ncora meio submersa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha &#226;nsia um remo partido,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Soa no acaso do rio um apito, s&#243; um.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Treme j&#225; todo o ch&#227;o do meu psiquismo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, os paquetes, as viagens, o n&#227;o-se-saber-o-paradeiro&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De Fulano-de-tal, mar&#237;timo, nosso conhecido!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah, a gl&#243;ria de se saber que um homem que andava connosco&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Morreu afogado ao p&#233; duma ilha do Pac&#237;fico!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#243;s que and&#225;mos com ele vamos falar nisso a todos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com um orgulho leg&#237;timo, com uma confian&#231;a invis&#237;vel&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que apenas o ter-se perdido o barco onde ele ia&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado &#225;gua pr&#243;s pulm&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;V&#227;o rareando &#8212; ai de mim! &#8212; os navios de vela nos mares!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E eu, que amo a civiliza&#231;&#227;o moderna, eu que beijo com a alma as m&#225;quinas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gostaria de ter outra vez ao p&#233; da minha vista s&#243; veleiros e barcos de madeira,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De n&#227;o saber doutra vida mar&#237;tima que a antiga vida dos mares!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque os mares antigos s&#227;o a Dist&#226;ncia Absoluta,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O Puro Longe, liberto do peso do Actual...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esses mares, maiores, porque se navegava mais devagar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esses mares, misteriosos, porque se sabia menos deles.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Todo o vapor ao longe &#233; um barco de vela perto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo o navio distante visto agora &#233; um navio no passado visto pr&#243;ximo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todos os marinheiros invis&#237;veis a bordo dos navios no horizonte&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#227;o os marinheiros vis&#237;veis do tempo dos velhos navios,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da &#233;poca lenta e veleira das navega&#231;&#245;es perigosas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da &#233;poca de madeira e lona das viagens que duravam meses.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Toma-me pouco a pouco o del&#237;rio das coisas mar&#237;timas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Penetram-me fisicamente o cais e a sua atmosfera,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E come&#231;o a sonhar, come&#231;o a envolver-me do sonho das &#225;guas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Come&#231;am a pegar bem as correias-de-transmiss&#227;o na minh&#213;alma&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a acelera&#231;&#227;o do volante sacode-me nitidamente.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Chamam por mim as &#225;guas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chamam por mim os mares.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chamam por mim, levantando uma voz corp&#243;rea, os longes,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As &#233;pocas mar&#237;timas todas sentidas no passado, a chamar.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Tu, marinheiro ingl&#234;s, Jim Barns meu amigo, foste tu&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que me ensinaste esse grito antiqu&#237;ssimo, ingl&#234;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que t&#227;o venenosamente resume&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para as almas complexas como a minha&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O chamamento confuso das &#225;guas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A voz in&#233;dita e impl&#237;cita de todas as coisas do mar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dos naufr&#225;gios, das viagens long&#237;nquas, das travessias perigosas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esse teu grito ingl&#234;s, tornado universal no meu sangue,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esse grito tremendo que parece soar&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De dentro duma caverna cuja ab&#243;bada &#233; o c&#233;u&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E parece narrar todas as sinistras coisas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E dizias assim, pondo uma m&#227;o de cada lado da boca,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fazendo porta-voz das grandes m&#227;os curtidas e escuras:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;&#8212;yyyy...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Schooner ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243; &#8212; yyyy...)&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer coisa.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estremece o vento. Sobe a manh&#227;. O calor abre.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sinto corarem-me as faces.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meus olhos conscientes dilatam-se.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O &#234;xtase em mim levanta-se, cresce avan&#231;a,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E com um ru&#237;do cego de arrua&#231;a acentua-se&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O giro vivo do volante.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;&#211; clamoroso chamamento&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A cujo calor, a cuja f&#250;ria fervem em mim&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Numa unidade explosiva todas as minhas &#226;nsias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meus pr&#243;prios t&#233;dios tornados din&#226;micos, todos!...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Apelo lan&#231;ado ao meu sangue&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dum amor passado, n&#227;o sei onde, que volve&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ainda tem for&#231;a para me atrair e puxar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que ainda tem for&#231;a para me fazer odiar esta vida&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que passo entre a impenetrabilidade f&#237;sica e ps&#237;quica&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da gente real com que vivo!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah seja como for, seja por onde for, partir!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Largar por a&#237; fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ir para Longe, ir para Fora, para a Dist&#226;ncia Abstracta,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Levado, como a poeira, plos&lt;i&gt; &lt;/i&gt;ventos, plos vendavais!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ir, ir, ir, ir de vez!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo o meu sangue raiva por asas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo o meu corpo atira-se pr&#224; frente!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Galgo pla minha imagina&#231;&#227;o fora em torrentes!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Atropelo-me, rujo, precipito-me!...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estoiram em espuma as minhas &#226;nsias&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a minha carne &#233; uma onda dando de encontro a rochedos!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Pensando nisto &#8212; &#243; raiva! pensando nisto &#8212; &#243; f&#250;ria!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de &#226;nsias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Subitamente, tremulamente, extraorbitadamente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com uma oscila&#231;&#227;o viciosa, vasta, violenta,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Do volante vivo da minha imagina&#231;&#227;o,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O cio sombrio e s&#225;dico da estr&#237;dula vida mar&#237;tima.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh capit&#227;es de navios! homens ao leme e em mastros!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que dormem em beliches rudes!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que dormem co'a Morte por travesseiro!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que t&#234;m tombadilhos, que t&#234;m pontes donde olhar&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A imensidade imensa do mar imenso!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh manipuladores dos guindastes de carga!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que metem a carga nos por&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que enrolam cabos no conv&#233;s!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que limpam os metais das escotilhas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens do leme! homens das m&#225;quinas! homens dos mastros!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gente de bon&#233; de pala! Gente de camisola de malha!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gente de &#226;ncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que vistes a Patag&#243;nia!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que passastes pela Austr&#225;lia!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que enchestes o vosso olhar de costas que nunca verei!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que fostes a terra em terras onde nunca descerei!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que comprastes artigos toscos em col&#243;nias &#224; proa de sert&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E fizestes tudo isso como se n&#227;o fosse nada!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como se isso fosse natural,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como se a vida fosse isso,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como nem sequer cumprindo um destino!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens do mar actual! homens do mar passado!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Comiss&#225;rios de bordo! escravos das gal&#233;s! combatentes de Lepanto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Piratas do tempo de Roma! Navegadores da Gr&#233;cia!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fen&#237;cios! Cartagineses! Portugueses atirados de Sagres&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Imposs&#237;vel!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que erguestes padr&#245;es, que destes nomes a cabos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que negociastes pela primeira vez com pretos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que primeiro vendestes escravos de novas terras!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que destes o primeiro espasmo europeu &#224;s negras at&#243;nitas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que trouxestes ouro, missanga, madeiras cheirosas, setas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De encostas explodindo em verde vegeta&#231;&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Homens que saqueastes tranquilas povoa&#231;&#245;es africanas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que fizestes fugir com o ru&#237;do de canh&#245;es essas ra&#231;as,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os pr&#233;mios de Novidade de quem, de cabe&#231;a baixa&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Arremete contra o mist&#233;rio de novos mares! Eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A v&#243;s todos num, a v&#243;s todos em v&#243;s todos como um,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A v&#243;s todos misturados, entrecruzados,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A v&#243;s todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu vos sa&#250;do, eu vos sa&#250;do, eu vos sa&#250;do!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh lah&#244;-lah&#244; laHO-lah&#225;-&#225;-&#225;-&#224;-&#224;!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Quero ir convosco, quero ir convosco,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ao mesmo tempo com v&#243;s todos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pra toda a parte pr'onde fostes!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quero encontrar vossos perigos frente a frente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cuspir dos l&#225;bios o sal dos mares que beijaram os vossos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ter bra&#231;os na vossa faina, partilhar das vossas tormentas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chegar como v&#243;s, enfim, a extraordin&#225;rios portos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fugir convosco &#224; civiliza&#231;&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Perder convosco a no&#231;&#227;o da moral!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sentir mudar-se no longe a minha humanidade!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Beber convosco em mares do sul&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Novas selvajarias, novas balb&#250;rdias da alma,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Novos fogos centrais no meu vulc&#226;nico esp&#237;rito!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ir convosco, despir de mim &#8212; ah! p&#245;e-te daqui pra fora! &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O meu traje de civilizado, a minha brandura de ac&#231;&#245;es,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meu medo inato das cadeias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha pac&#237;fica vida,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A minha vida sentada, est&#225;tica, regrada e revista!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;No mar, no mar, no mar, no mar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh! p&#244;r no mar, ao vento, &#224;s vagas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A minha vida!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Salgar de espuma arremessada pelos ventos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meu paladar das grandes viagens.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fustigar de &#225;gua chicoteante as carnes da minha aventura,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Repassar de frios oce&#226;nicos os ossos da minha exist&#234;ncia,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de s&#243;is,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meu ser cicl&#243;nico e atl&#226;ntico,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meus nervos postos como enx&#225;rcias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lira nas m&#227;os dos ventos!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navega&#231;&#245;es&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E as minhas esp&#225;duas gozar&#227;o a minha cruz!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Atai-me &#224;s viagens como a postes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a sensa&#231;&#227;o dos postes entrar&#225; pela minha espinha&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sobre conveses, ao som de vagas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que me rasgueis, mateis, firais!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O que quero &#233; levar pr&#224; Morte&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma alma a transbordar de Mar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201;bria a cair das coisas mar&#237;timas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanto dos marujos como das &#226;ncoras, dos cabos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanto das costas long&#237;nquas como do ru&#237;do dos ventos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufr&#225;gios&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como dos tranquilos com&#233;rcios,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanto dos mastros como das vagas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Levar pr&#224; Morte com dor, voluptuosamente,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De estranhas verdes absurdas sanguessugas mar&#237;timas!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Fa&#231;am enx&#225;rcias das minhas veias!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Amarras dos meus m&#250;sculos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Arranquem-me a pele, preguem-a &#224;s quilhas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fa&#231;am do meu cora&#231;&#227;o uma fl&#226;mula de almirante&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na hora de guerra dos velhos navios!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Calquem aos p&#233;s nos conveses meus olhos arrancados!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quebrem-me os ossos de encontro &#224;s amuradas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Derramem meu sangue sobre as &#225;guas arremessadas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nas vascas bravas das tormentas!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ter a aud&#225;cia ao vento dos panos das velas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ser, como as g&#225;veas altas, o assobio dos ventos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Can&#231;&#227;o para os navegadores ouvirem e n&#227;o repetirem!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Os marinheiros que se sublevaram&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Enforcaram o capit&#227;o numa verga.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Desembarcaram um outro numa ilha deserta.&lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;Marooned!&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt;O sol dos tr&#243;picos p&#244;s a febre da pirataria antiga&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nas minhas veias intensivas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os ventos da Patag&#243;nia tatuaram a minha imagina&#231;&#227;o&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De imagens tr&#225;gicas e obscenas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fogo, fogo, fogo, dentro de mim!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sangue! sangue! sangue! sangue!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Explode todo o meu c&#233;rebro!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Parte-se-me o mundo em vermelho!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estoiram-me com o som de amarras as veias!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E estala em mim, feroz, voraz,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A can&#231;&#227;o do Grande Pirata,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A morte berrada do Grande Pirata a cantar&lt;/p&gt; &lt;p&gt;At&#233; meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;L&#225; da r&#233; a morrer, e a berrar, a cantar:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Fifteen men on the Dead Man's Chest.&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Yo-ho ho and a bottle of rum!&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;E depois a gritar, numa voz j&#225; irreal, a estoirar no ar:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw!&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw!&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;Fetch a-a-aft the ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby.&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eia, que vida essa! essa era a vida, eia!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-lah&#244;-lah&#244;!-laHO-lah&#225;-&#225;-&#225;-&#224;-&#224;!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dedos decepados sobre amuradas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cabe&#231;as de crian&#231;as, aqui, acol&#225;!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gente de olhos fora, a gritar, a uivar!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ro&#231;o-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Rujo como um le&#227;o faminto para tudo isto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cravo unhas, parto garras; sangro dos dentes sobre isto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;De repente estala-me sobre os ouvidos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como um clarim a meu lado,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O velho grito, mas agora irado, met&#225;lico,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chamando a presa que se avista,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A escuna que vai ser tomada:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;&#8212;yyyy...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Schooner ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;&#8212; yyyy...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;O mundo inteiro n&#227;o existe para mim! Ardo vermelho!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Rujo na f&#250;ria da abordagem!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pirata-mor! C&#233;sar-Pirata!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pilho, mato, esfacelo, rasgo!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#243; sinto o mar, a presa, o saque!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#243; sinto em mim bater, baterem-me&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As veias das minhas fontes!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Escorre sangue quente a minha sensa&#231;&#227;o dos meus olhos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah piratas, piratas, piratas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Piratas, amai-me e odiai-me!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Misturai-me convosco, piratas!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Vossa f&#250;ria, vossa crueldade como falam ao sangue&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatr&#227;o nos conveses,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Trincasse velas, remos, cordame e poleame,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;E h&#225; uma sinfonia de sensa&#231;&#245;es incompat&#237;veis e an&#225;logas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;H&#225; uma orquestra&#231;&#227;o no meu sangue de balb&#250;rdias de crimes,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De estr&#233;pitos espasmados de orgias de sangue nos mares,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Furibundamente, como um vendaval de calor pelo esp&#237;rito,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nuvem de poeira quente anuviando a minha lucidez&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E fazendo-me ver e sonhar isto tudo s&#243; com a pele e as veias!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Aquela hora mar&#237;tima em que as presas s&#227;o assaltadas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o terror dos apresados foge pr&#224; loucura &#8212; essa hora,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, c&#233;u, nuvens,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Brisa, latitude, longitude, vozearia,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Queria eu que fosse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que fosse meu corpo e meu sangue, compusesse meu ser em vermelho,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das viola&#231;&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ser quanto foi no lugar dos saques!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ser quanto viveu ou jazeu no local das trag&#233;dias de sangue!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a v&#237;tima-s&#237;ntese, mas de carne e osso, de todos os piratas do mundo!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ser no meu ser subjugado a f&#234;mea que tem de ser deles&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E sentir tudo isso &#8212; todas estas coisas duma s&#243; vez &#8212; pela espinha!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#211; meus peludos e rudes her&#243;is da aventura e do crime!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minhas mar&#237;timas feras, maridos da minha imagina&#231;&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Amantes casuais da obliquidade das minhas sensa&#231;&#245;es!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A v&#243;s, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque ela teria convosco, mas s&#243; em esp&#237;rito, raivado&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sobre os cad&#225;veres nus das v&#237;timas que fazeis no mar!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oce&#226;nica&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Seu esp&#237;rito de bruxa dan&#231;aria invis&#237;vel em volta dos gestos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas m&#227;os estranguladoras!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ela em terra, esperando-vos, quando vi&#233;sseis, se acaso vi&#233;sseis,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Iria beber nos rugidos do vosso amor todo o vasto,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vit&#243;rias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E atrav&#233;s dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Agora, no auge conciso de sonhar o que v&#243;s faz&#237;eis,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Perco-me todo de mim, j&#225; n&#227;o vos perten&#231;o, sou v&#243;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A minha femininidade que vos acompanha &#233; ser as vossas almas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a pratic&#225;veis!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sugar por dentro a vossa consci&#234;ncia das vossas sensa&#231;&#245;es&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando ting&#237;eis de sangue os mares altos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Quando de vez em quando atir&#225;veis aos tubar&#245;es&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das crian&#231;as&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E lev&#225;veis as m&#227;es &#224;s amuradas para verem o que lhes acontecia!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Estar convosco na carnagem, na pilhagem!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estar orquestrado convosco na sinfonia dos saques!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah, n&#227;o sei qu&#234;, n&#227;o sei quanto queria eu ser de v&#243;s!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o era s&#243; ser-vos a f&#234;mea, ser-vos as f&#234;meas, ser-vos as v&#237;timas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ser-vos as v&#237;timas &#8212; homens, mulheres, crian&#231;as, navios &#8212;,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o era s&#243; ser a hora e os barcos e as ondas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o era s&#243; ser vossas almas, vossos corpos, vossa f&#250;ria, vossa posse,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o era s&#243; ser concretamente vosso acto abstracto de orgia,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;N&#227;o era s&#243; isto que eu queria ser &#8212; era mais que isto o Deus-isto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contr&#225;rio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um Deus monstruoso e sat&#226;nico, um Deus dum pante&#237;smo de sangue,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para poder encher toda a medida da minha f&#250;ria imaginativa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vit&#243;rias!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, torturai-me para me curardes! &lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha carne &#8212; fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Antes de ca&#237;rem sobre as cabe&#231;as e os ombros!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha imagina&#231;&#227;o o corpo das mulheres que violais!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha intelig&#234;ncia o conv&#233;s onde estais de p&#233; matando!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, hist&#233;rico, absurdo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O grande organismo de que cada acto de pirataria que se cometeu&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fosse uma c&#233;lula consciente &#8212; e todo eu turbilhonasse&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como uma imensa podrid&#227;o ondeando, e fosse aquilo tudo!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Com tal velocidade desmedida, pavorosa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A m&#225;quina de febre das minhas vis&#245;es transbordantes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Gira agora que a minha consci&#234;ncia, volante,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; apenas um nevoento c&#237;rculo assobiando no ar.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Fifteen men on fhe Dead Man's Chest&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Yo-ho ho and a bottle of rum!&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eh-lah&#244;-lah&#244;-laHO &#8212; l&#225;h&#225;-&#225;-&#225;&#225;&#225; &#8212; &#224;&#224;&#224;...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah! a selvajaria desta selvajaria! Merda&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pra toda a vida como a nossa, que n&#227;o &#233; nada disto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu pr&#224;'qui engenheiro, pr&#225;tico &#224; for&#231;a, sens&#237;vel a tudo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pr&#224;'qui parado, em rela&#231;&#227;o a v&#243;s, mesmo quando ando;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, d&#233;bil;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Est&#225;tico, quebrado, dissidente cobarde da vossa Gl&#243;ria,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da vossa grande din&#226;mica estridente, quente e sangrenta!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Arre! por n&#227;o poder agir de acordo com o meu del&#237;rio!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Arre! por andar sempre agarrado &#224;s saias da civiliza&#231;&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por andar com a &lt;i&gt;douceur des moeurs &lt;/i&gt;&#224;s costas, como um fardo de rendas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mo&#231;os de esquina &#8212; todos n&#243;s o somos &#8212; do humanitarismo moderno!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Estupores de t&#237;sicos, de neurast&#233;nicos, de linf&#225;ticos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sem coragem para ser gente com viol&#234;ncia e aud&#225;cia,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com a alma como uma galinha presa por uma perna!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, os piratas! os piratas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A &#226;nsia do ilegal unido ao feroz,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A &#226;nsia das coisas absolutamente cru&#233;is e abomin&#225;veis,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que r&#243;i como um cio abstracto os nossos corpos franzinos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os nossos nervos femininos e delicados,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E p&#245;e grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Obrigai-me a ajoelhar diante de v&#243;s!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Humilhai-me e batei-me!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fazei de mim o vosso escravo e a vossa coisa!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#211; meus senhores! &#243; meus senhores!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Tomar sempre gloriosamente a parte submissa&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Desabai sobre mim, como grandes muros pesados,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#211; b&#225;rbaros do antigo mar!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Rasgai-me e feri-me!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De leste a oeste do meu corpo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Riscai de sangue a minha carne!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Beijai com cutelos de bordo e a&#231;oites e raiva&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O meu alegre terror carnal de vos pertencer.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A minha &#226;nsia masoquista em me dar &#224; vossa f&#250;ria,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em ser objecto inerte e sentiente da vossa omn&#237;vora crueldade,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dominadores, senhores, imperadores, corc&#233;is!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah, torturai-me,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Rasgai-me e abri-me!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Desfeito em peda&#231;os conscientes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Entornai-me sobre os conveses,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Espalhai-me nos mares, deixai-me&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nas praias &#225;vidas das ilhas!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Cevai sobre mim todo o meu misticismo de v&#243;s!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cinzelai a sangue a minh'alma&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cortai, riscai!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#211; tatuadores da minha imagina&#231;&#227;o corp&#243;rea!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esfoladores amados da minha carnal submiss&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Submetei-me como quem mata um c&#227;o a pontap&#233;s!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fazei de mim o po&#231;o para o vosso desprezo de dom&#237;nio!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Fazei de mim as vossas v&#237;timas todas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por todas as vossas v&#237;timas &#224;s vossas m&#227;os,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#203;s vossas m&#227;os calosas, sangrentas e de dedos decepados&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nos assaltos bruscos de amuradas!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Fazei de mim qualquer coisa como se eu fosse&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Arrastado &#8212; &#243; prazer, &#243; beijada dor! &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Arrastado &#224; cauda de cavalos chicoteados por v&#243;s...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no MA-A-A-AR!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EH-EH-EH-EH! No MA-A-AA-AR!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Yeh eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mar&#233;s, g&#225;veas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;                FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;                     YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eh-lah&#244;-lah&#244;-laHO-O-O-&#244;&#244;-lah&#225;-&#225; &#225; &#8212; &#224;&#224;&#224;!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;AH&#211;-&#211;-&#211; &#211; &#211; &#211;-&#211; &#211; &#211; &#211; &#211; &#8212; yyy!...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;SCHOONER AH&#211;-&#211;-&#211;-&#211;-&#211;-&#211;-&#211;-&#211;-&#211;-&#211; &#8212; yyyy!...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;DARBY M'GRAW-AW-AW-AW-AW-AW-AW!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh eh-eh-eh!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;EH-EH EH-EH-EH EH-EH EH-EH EH-EH-EH!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Senti demais para poder continuar a sentir.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Esgotou-se-me a alma, ficou s&#243; um eco dentro de mim.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Decresce sensivelmente a velocidade do volante.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tiram-me um pouco as m&#227;os dos olhos os meus sonhos.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dentro de mim h&#225; um s&#243; v&#225;cuo, um deserto, um mar nocturno.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E logo que sinto que, h&#225; um mar nocturno dentro de mim,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Sabe dos longes dele, nasce do seu sil&#234;ncio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Outra vez, outra vez o vasto grito antiqu&#237;ssimo.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De repente, como um rel&#226;mpago de som, que n&#227;o faz barulho mas ternura,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Subitamente abrangendo todo o horizonte mar&#237;timo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;H&#250;mido e sombrio marulho humano nocturno,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Voz de sereia long&#237;nqua chorando, chamando,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E &#224; tona dele, como algas, b&#243;iam meus sonhos desfeitos...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243; &#8212; yy...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Schooner ah&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243;-&#243; &#8212; yy......&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, o orvalho sobre a minha excita&#231;&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;o frescor nocturno no meu oceano interior!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cheia de enorme mist&#233;rio human&#237;ssimo das ondas nocturnas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A lua sobe no horizonte&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a minha inf&#226;ncia feliz acorda, como uma l&#225;grima, em mim.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O meu passado ressurge, como se esse grito mar&#237;timo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Fosse um aroma, uma voz, o eco duma can&#231;&#227;o&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que fosse chamar ao meu passado&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Era na velha casa sossegada ao p&#233; do rio...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar tamb&#233;m,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio pr&#243;ximo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Se eu agora chegasse &#224;s mesmas janelas n&#227;o chegava &#224;s mesmas janelas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto...)&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Uma inexplic&#225;vel ternura,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um remorso comovido e lacrimoso,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por todas aquelas v&#237;timas &#8212; principalmente as crian&#231;as &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Emo&#231;&#227;o comovida, porque elas foram minhas v&#237;timas;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Terna e suave, porque n&#227;o o foram realmente;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Canta velhas can&#231;&#245;es na minha pobre alma dolorida.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que longe estou do que fui h&#225; uns momentos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Histeria das sensa&#231;&#245;es &#8212; ora estas, ora as opostas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na loura manh&#227; que se ergue, como o meu ouvido s&#243; escolhe&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As coisas de acordo com esta emo&#231;&#227;o &#8212; o marulho das &#225;guas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O marulho leve das &#225;guas do rio de encontro aos cais...,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A vela passando perto do outro lado do rio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Os montes long&#237;nquos, dum azul japon&#234;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As casas de Almada,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o que h&#225; de suavidade e de inf&#226;ncia na hora matutina!...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Uma gaivota que passa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a minha ternura &#233; maior.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Mas todo este tempo n&#227;o estive a reparar para nada.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tudo isto foi uma impress&#227;o s&#243; da pele, como uma car&#237;cia&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo este tempo n&#227;o tirei os olhos do meu sonho long&#237;nquo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da minha casa ao p&#233; do rio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da minha inf&#226;ncia ao p&#233; do rio,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a paz do luar esparso nas &#225;guas!...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu...,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(Se bem que eu fosse j&#225; crescido demais para isso)...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lembro-me e as l&#225;grimas caem sobre o meu cora&#231;&#227;o e lavam-no da vida,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ergue-se uma leve brisa mar&#237;tima dentro de mim.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#192;s vezes ela cantava a &#171;Nau Catrineta&#187;:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        L&#225; vai a Nau Catrineta&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt;&lt;i&gt;        Por sobre as &#225;guas do mar&lt;/i&gt;...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;E outras vezes, numa melodia muito saudosa e t&#227;o medieval,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Era a &#171;Bela Infanta&#187;... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como fui ingrato para ela &#8212; e afinal que fiz eu da vida?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Era a &#171;Bela Infanta&#187;... Eu fechava os olhos e ela cantava:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Estando a Bela Infanta&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        No seu jardim assentada&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Estando a Bela Infanta&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        No seu jardim assentada,&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Seu pente de ouro na m&#227;o,&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Seus cabelos penteava&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;&#211; meu passado de inf&#226;ncia, boneco que me partiram!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;N&#227;o poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afei&#231;&#227;o,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E ficar l&#225; sempre, sempre crian&#231;a e sempre contente!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pensar isto faz frio, faz fome duma coisa que se n&#227;o pode obter.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;D&#225;-me n&#227;o sei que remorso absurdo pensar nisto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Oh turbilh&#227;o lento de sensa&#231;&#245;es desencontradas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vertigem t&#233;nue de confusas coisas na alma!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;F&#250;rias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crian&#231;as brincam,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Grandes desabamentos de imagina&#231;&#227;o sobre os olhos dos sentidos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;L&#225;grimas, l&#225;grimas in&#250;teis,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Leves brisas de contradi&#231;&#227;o ro&#231;ando pela face a alma...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Evoco, por um esfor&#231;o volunt&#225;rio, para sair desta emo&#231;&#227;o,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Evoco, com um esfor&#231;o desesperado, seco, nulo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A can&#231;&#227;o do Grande Pirata, quando estava a morrer:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Fifteen men on the Dead Man's Chest.&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p&gt; &lt;i&gt;        Yo-ho-ho and a bottle of rum!&lt;/i&gt; &lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Mas a can&#231;&#227;o &#233; uma linha recta mal tra&#231;ada dentro de mim...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Esfor&#231;o-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Outra vez, mas atrav&#233;s duma imagina&#231;&#227;o quase liter&#225;ria,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A f&#250;ria da pirataria, da chacina, o apetite, quase o paladar, do saque,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da chacina in&#250;til de mulheres e de crian&#231;as,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Da tortura f&#250;til, e s&#243; para nos distrairmos, dos passageiros pobres&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a sensualidade de escangalhar e partir as coisas mais queridas dos outros,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas sonho isto tudo com um medo de qualquer coisa respirar-me sobre a nuca.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lembro-me de que seria interessante&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Enforcar os filhos &#224; vista das m&#227;es&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(Mas sinto-me sem querer as m&#227;es deles),&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Enterrar vivas nas ilhas desertas as crian&#231;as de quatro anos&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Levando os pais em barcos at&#233; l&#225; para verem&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(Mas estreme&#231;o, lembrando-me dum filho que n&#227;o tenho e est&#225; dormindo tranquilo em casa).&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Aguilhoo uma &#226;nsia fria dos crimes mar&#237;timos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Duma inquisi&#231;&#227;o sem a desculpa da F&#233;,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Crimes nem sequer com raz&#227;o de ser de maldade e de f&#250;ria,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como quem faz paci&#234;ncias a uma mesa de jantar de prov&#237;ncia com a toalha atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#243; pelo suave gosto de cometer crimes abomin&#225;veis e n&#227;o os achar grande coisa,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De ver sofrer at&#233; ao ponto da loucura e da morte-pela-dor mas nunca deixar chegar l&#225;...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas a minha imagina&#231;&#227;o recusa-se a acompanhar-me.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Um calafrio arrepia-me.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De repente &#8212; oh pavor por todas as minhas veias! &#8212;,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Oh frio repentino da porta para o Mist&#233;rio que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A velha voz do marinheiro ingl&#234;s Jim Barns com quem eu falava,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim, das pequenas coisas de rega&#231;o de m&#227;e e de fita de cabelo de irm&#227;,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Mas estupendamente vinda de al&#233;m da apar&#234;ncia das coisas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vinda de sobre e de dentro da solid&#227;o nocturna dos mares,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Chama por mim, chama por mim, chama por mim...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Vem surdamente, como se fosse suprimida e se ouvisse,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Longinquamente, como se estivesse soando noutro lugar e aqui n&#227;o se pudesse ouvir,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como um solu&#231;o abafado, uma luz que se apaga, um h&#225;lito silencioso,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De nenhum lado do espa&#231;o, de nenhum local no tempo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O grito eterno e nocturno, o sopro fundo e confuso:&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244; &#8212; yyy ......&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244; &#8212; &#8212; yyy......&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Schooner ah-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244;-&#244; &#8212; &#8212; yy.........&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Tremo com frio da alma repassando-me o corpo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E abro de repente os olhos, que n&#227;o tinha fechado.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eis outra vez o mundo real, t&#227;o bondoso para os nervos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;J&#225; n&#227;o me importa o paquete que entrava. Ainda est&#225; longe.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#243; o que est&#225; perto agora me lava a alma.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A minha imagina&#231;&#227;o higi&#233;nica, forte, pr&#225;tica,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e &#250;teis,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Abranda o seu giro dentro de mim o volante.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Maravilhosa vida mar&#237;tima moderna,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Toda limpeza, m&#225;quinas e sa&#250;de!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tudo t&#227;o bem arranjado, t&#227;o espontaneamente ajustado,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todas as pe&#231;as das m&#225;quinas, todos os navios pelos mares,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todos os elementos da actividade comercial de exporta&#231;&#227;o e importa&#231;&#227;o&lt;/p&gt; &lt;p&gt;T&#227;o maravilhosamente combinando-se&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que corre tudo como se fosse por leis naturais,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nenhuma coisa esbarrando com outra!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Nada perdeu a poesia. E agora h&#225; a mais as m&#225;quinas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com a sua poesia tamb&#233;m, e todo o novo g&#233;nero de vida&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Comercial, mundana, intelectual, sentimental,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que a era das m&#225;quinas veio trazer para as almas.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As viagens agora s&#227;o t&#227;o belas como eram dantes&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E um navio ser&#225; sempre belo, s&#243; porque &#233; um navio.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Viajar ainda &#233; viajar e o longe est&#225; sempre onde esteve &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Em parte nenhuma, gra&#231;as a Deus!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Os portos cheios de vapores de muitas esp&#233;cies!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pequenos, grandes, de v&#225;rias cores, com v&#225;rias disposi&#231;&#245;es de vigias,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De t&#227;o deliciosamente tantas companhias de navega&#231;&#227;o!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vapores nos portos, t&#227;o individuais na separa&#231;&#227;o destacada dos ancoramentos!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;T&#227;o prazenteiro o seu garbo quieto de coisas comerciais que andam no mar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No velho mar sempre o hom&#233;rico, &#243; Ulisses!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O olhar humanit&#225;rio dos far&#243;is na dist&#226;ncia da noite,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ou o s&#250;bito farol pr&#243;ximo na&lt;b&gt; &lt;/b&gt;noite muito escura&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(&#171;Que perto da terra que est&#225;vamos passando!&#187; E o som da &#225;gua canta-nos ao ouvido)!...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Tudo isto hoje &#233; como sempre foi, mas h&#225; o com&#233;rcio;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o destino comercial dos grandes vapores&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Envaidece-me da minha &#233;poca!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros&lt;/p&gt; &lt;p&gt;D&#225;-me o orgulho moderno de viver numa &#233;poca onde &#233; t&#227;o f&#225;cil&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Misturarem-se as ra&#231;as, transporem-se os espa&#231;os, ver com facilidade todas as coisas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E gozar a vida realizando um grande n&#250;mero de sonhos.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Limpos, regulares, modernos como um escrit&#243;rio com &lt;i&gt;guichets &lt;/i&gt;em redes de arame amarelo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como &lt;i&gt;gentlemen,&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;S&#227;o pr&#225;ticos, longe de desvairamentos, enchem de ar mar&#237;timo os pulm&#245;es,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Como gente perfeitamente consciente de como &#233; higi&#233;nico respirar o ar do mar.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;O dia &#233; perfeitamente j&#225; de horas de trabalho.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Come&#231;a tudo a movimentar-se, a regularizar-se.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todas as opera&#231;&#245;es comerciais necess&#225;rias a um embarque de mercadorias&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A minha &#233;poca &#233; o carimbo que levam todas as facturas,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E sinto que todas as cartas de todos os escrit&#243;rios&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Deviam ser endere&#231;adas a mim.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E uma assinatura de comandante de navio &#233; t&#227;o bela e moderna!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Rigor comercial do princ&#237;pio e do fim das cartas:&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Dear Sirs &#8212; Messieurs &#8212; Amigos e Srs.,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Yours faithfully &#8212;... nos salutations empress&#233;es...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tudo isto n&#227;o &#233; s&#243; humano e limpo, mas tamb&#233;m belo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E tem ao fim um destino mar&#237;timo, um vapor onde embarquem&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As mercadorias de que as cartas e as facturas tratam.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Complexidade da vida! As facturas s&#227;o feitas por gente&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que tem amores, &#243;dios, paix&#245;es pol&#237;ticas, &#224;s vezes crimes &#8212;&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E s&#227;o t&#227;o bem escritas, t&#227;o alinhadas, t&#227;o independentes de tudo isso!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;H&#225; quem olhe para uma factura e n&#227;o sinta isto.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com certeza que tu, Ces&#225;rio Verde, o sentias.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu &#233; at&#233; &#224;s l&#225;grimas que o sinto humanissimamente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Venham dizer-me que n&#227;o h&#225; poesia no com&#233;rcio, nos escrit&#243;rios!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ora, ela entra por todos os poros... Neste ar mar&#237;timo respiro-a,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque tudo isto vem a prop&#243;sito dos vapores, da navega&#231;&#227;o moderna,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Porque as facturas e as cartas comerciais s&#227;o o princ&#237;pio da hist&#243;ria&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno s&#227;o o fim.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Duma maneira especial, como se um mist&#233;rio mar&#237;timo&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Patriotas transit&#243;rios duma mesma p&#225;tria incerta,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das &#225;guas!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Grandes hot&#233;is do Infinito, oh transatl&#226;nticos meus!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E conterem todas as esp&#233;cies de trajes, de caras, de ra&#231;as!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;As viagens, os viajantes &#8212; tantas esp&#233;cies deles!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profiss&#227;o! tanta gente!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tanto destino diverso que se pode dar &#224; vida,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#203; vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tantas caras curiosas! Todas as caras s&#227;o curiosas&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A fraternidade afinal n&#227;o &#233; uma ideia revolucion&#225;ria.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;&#201; uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E passa a achar gra&#231;a ao que tem que tolerar,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Ah, tudo isto &#233; belo, tudo isto &#233; humano e anda ligado&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Aos sentimentos humanos, t&#227;o conviventes e burgueses.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;T&#227;o complicadamente simples, t&#227;o metafisicamente tristes!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Pobre gente! pobre gente toda a gente!&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Despe&#231;o-me desta hora no corpo deste outro navio&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Que vai agora saindo. &#201; um &lt;i&gt;tramp-steamer &lt;/i&gt;ingl&#234;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Muito sujo, como se fosse um navio franc&#234;s,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com um ar simp&#225;tico de prolet&#225;rio dos mares,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E sem d&#250;vida anunciado ontem na &#250;ltima p&#225;gina das gazetas.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Enternece-me o pobre vapor, t&#227;o humilde vai ele e t&#227;o natural.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Parece ter um certo escr&#250;pulo n&#227;o sei em qu&#234;, ser pessoa honesta,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Cumpridora duma qualquer esp&#233;cie de deveres.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;L&#225; vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;L&#225; vai ele tranquilamente, passando por onde as naus estiveram&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Outrora, outrora...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Para Cardiff? Para Liverpool? Para Londres? N&#227;o tem import&#226;ncia.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ele faz o seu dever. Assim fa&#231;amos n&#243;s o nosso. Bela vida!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Boa viagem! Boa viagem!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor&lt;/p&gt; &lt;p&gt;De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E restituir-me &#224; vida para olhar para ti e te ver passar.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Boa viagem! Boa viagem! A vida &#233; isto...&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Que aprumo t&#227;o natural, t&#227;o inevitavelmente matutino&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Na tua sa&#237;da do porto de Lisboa, hoje!&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tenho-te uma afei&#231;&#227;o curiosa e grata por isso...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Por isso qu&#234;? Sei l&#225; o que &#233;!... Vai... Passa...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Com um ligeiro estremecimento,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;(T-t--t---t----t-----t...)&lt;/p&gt; &lt;p&gt;O volante dentro de mim p&#225;ra.&lt;/p&gt; &lt;p /&gt; &lt;p&gt;Passa, lento vapor, passa e n&#227;o fiques...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Passa de mim, passa da minha vista,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Vai-te de dentro do meu cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu quem sou para que chore e interrogue?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu quem sou para que te fale e te ame?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Eu quem sou para que me perturbe ver-te?&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Luzem os telhados dos edif&#237;cios do cais,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Todo o lado de c&#225; da cidade brilha...&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Parte, deixa-me, torna-te&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Primeiro o navio a meio do rio, destacado e n&#237;tido,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Depois ponto vago no horizonte (&#243; minha ang&#250;stia!),&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Ponto cada vez mais vago no horizonte...,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Nada depois, e s&#243; eu e a minha tristeza,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a grande cidade agora cheia de sol&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E a hora real e nua como um cais j&#225; sem navios,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,&lt;/p&gt; &lt;p&gt;Tra&#231;a um semic&#237;rculo de n&#227;o sei que emo&#231;&#227;o&lt;/p&gt; &lt;p&gt;No sil&#234;ncio comovido da minh'alma...&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Orpheu&lt;/b&gt;, n&#186;2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.&lt;/p&gt; </notas>
    <pagina>162</pagina>
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    <titulo>ODE MAR&#205;TIMA</titulo>
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Lenta e quieta a sombra vasta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cobre o que vejo menos j&#225;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pouco somos, pouco nos basta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo tira o que nos d&#225;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nos contente o pouco que h&#225;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A noite, vindo corno nada,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lembra-me quem deixei de ser,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A curva an&#243;nima da estrada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faz-me lembrar, faz-me esquecer,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faz-me ter pena e ter de a ter.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#211; largos campos j&#225; cinzentos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na noite, para al&#233;m de mim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vou amanh&#227; meus pensamentos&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enterrar onde estais assim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vou ter a&#237; sossego e fim.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Poesia! Nada! A hora desce&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem qualidade ou emo&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu cora&#231;&#227;o o que &#233; que esquece?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se &#233; o que eu sinto que foi v&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque me d&#243;i o cora&#231;&#227;o?&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>125</pagina>
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    <titulo>Lenta e quieta a sombra vasta
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Onde o sossego dorme&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como se fosse algu&#233;m&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E &#224; noite negra e enorme&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem luar nem dia vem.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ali, quieto, absorto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em nada j&#225; saber,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quero, quando for morto,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Consciente esquecer...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Deixada a vida incerta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perdido o gozo e a dor,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sob essa noite aberta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sonhar sem o supor...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;At&#233; que ao fim de uma era&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que o tempo n&#227;o contou&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que eu n&#227;o reavera&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se mude no que eu sou.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>96</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Onde o sossego dorme
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;When I ask &#171;is matter infinite or not&#187; putting this as a question of reality I err. For matter is the external sum of our sensations and possesses neither of these characteristics.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As a sensation, as a thing perceived, it is necessarily finite, &lt;i&gt;suo genere&lt;/i&gt;, in its own kind. It is not finite in opposition to infinite (in the usual sense of the word). It is &lt;i&gt;limited&lt;/i&gt;, so that it may be perceived. The sum of sensations must be something to give a general sensation; and by something is meant, if not exactly something finite, necessarily something &lt;i&gt;definite&lt;/i&gt;, finite in this sense.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>39</pagina>
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    <titulo>When I ask &#171;is matter infinite or not&#187; putting this as a question...
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Todos os dias eu penso&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Todos os dias eu penso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naquele gesto engra&#231;ado&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com que pegaste no len&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que estava esquecido ao lado.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>43</pagina>
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    <titulo>Todos os dias eu penso
</titulo>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.&lt;/b&gt;I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Os teus colares de p&#233;rolas fingidas amaram comigo as minhas horas melhores. Eram cravos as flores preferidas, talvez porque n&#227;o significavam requintes. Os teus l&#225;bios festejavam sobriamente a ironia do seu pr&#243;prio sorriso. Compreendias bem o teu destino? Era por o conheceres sem que o compreendesses que o mist&#233;rio escrito na tristeza dos teus olhos sombreara tanto os teus l&#225;bios desistidos. A nossa P&#225;tria estava demasiado longe para rosas. Nas cascatas dos nossos jardins a &#225;gua era pel&#250;cida de sil&#234;ncios. Nas pequenas cavidades rugosas das pedras, por onde a &#225;gua escolhia, havia segredos que tiv&#233;ramos quando crian&#231;as, sonhos do tamanho parado dos nossos soldados de chumbo, que podiam ser postos nas pedras da cascata, na execu&#231;&#227;o est&#225;tica duma grande ac&#231;&#227;o militar, sem que faltasse nada aos nossos sonhos, nem nada tardasse &#224;s nossas suposi&#231;&#245;es.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>266</pagina>
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    <titulo>Os teus colares de p&#233;rolas fingidas amaram comigo...
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  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A FERNANDO PESSOA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Depois de ler o seu drama est&#225;tico &#171;O Marinheiro&#187; em &#171;Orpheu I&#187;&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Depois de doze minutos &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do seu drama &lt;i&gt;O&lt;/i&gt; &lt;i&gt;Marinheiro&lt;/i&gt;,&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que os mais &#225;geis e astutos &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se sentem com sono e brutos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E de sentido nem cheiro, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Diz uma das veladoras &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com langorosa magia:&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;De eterno e belo h&#225; apenas o sono.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Porque estamos n&#243;s falando ainda?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ora isso mesmo &#233; que eu ia &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perguntar a essas senhoras...&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Solu&#231;&#227;o Editora&lt;/b&gt;, n&#186;4. Lisboa: 1929.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>215</pagina>
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    <titulo>A FERNANDO PESSOA
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Chove. &#201; dia de Natal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;L&#225; para o Norte &#233; melhor:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; a neve que faz mal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o frio que ainda &#233; pior.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E toda a gente &#233; contente&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque &#233; dia de o ficar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chove no Natal presente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes isso que nevar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Pois apesar de ser esse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Natal da conven&#231;&#227;o,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando o corpo me arrefece&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho o frio e Natal n&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Deixo sentir a quem quadra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o Natal a quem o fez,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois se escrevo ainda outra quadra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fico gelado dos p&#233;s.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:33+01:00</created-at>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>127</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Chove. &#201; dia de Natal.
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Servo sem dor de um desolado intuito, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De nada creias ou descreias muito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mesmo faz que penses ou n&#227;o penses. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo &#233; irreal, an&#243;nimo e fortuito.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sejas curioso do amplo mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele &#233; menos extenso do que fundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o que n&#227;o sabes nem saber&#225;s nunca&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; isso o mais real e o mais profundo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Troca por vinho o amor que n&#227;o ter&#225;s. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que esperas, perene o esperar&#225;s.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que bebes, tu bebes. Olha as rosas. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Morto, que rosas &#233; que cheirar&#225;s?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vendo o tumulto inconsciente em que anda &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A humanidade de uma a outra banda,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o te nasce a vontade de dormir? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o te cresce o desprezo de quem manda?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Duas vezes no ano, diz quem sabe, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Nishapor, onde me o mundo cabe, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Florem as rosas. Sobre mim sepulto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essa dupla anuidade n&#227;o acabe!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Traze o vinho, que o vinho, dizem, &#233;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que alegra a alma e o que, em perfeita f&#233;,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Traz o sangue de um Deus ao corpo e &#224; alma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, seja como for, bebe e n&#227;o s&#234;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Com seus cavalos imperiais calcando &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os campos que o labor esteve lavrando, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passa o C&#233;sar de aqui. Mais tarde, morto, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Renasce a erva, nos campos alastrando.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Goza o Sult&#227;o de amor em quantidade. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Goza o Vizir amor em qualidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o gozo amor nenhum. Tragam-me vinho &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E gozo de ser nada em liberdade.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:33+01:00</created-at>
    <data>30-11-1933</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>97</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Servo sem dor de um desolado intuito,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;ESSAY ON THE ELEATIC SCHOOLS&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;I. Xenophanes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;ll. Parmenides.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;III. Zeno.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;IV. Melissus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;V. Gorgias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vl. Reduction of all systems to the system of the Eleatics.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;If space exist, it must exist somewhere. Where? In space. And where does this space exist? In another space.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;But space cannot exist thus, by itself. Space cannot be the reason of its own existence. This can be said only of Being. Therefore space does not exist.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;But is it logical, is it rational to ask where space exists? Does not the word &lt;i&gt;where&lt;/i&gt; presuppose a space? Yes and no. It presupposes a space merely because space becomes necessary to us for the conception or perception of anything, of any object. This brings the argument to where it was that space exists by itself.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;We do but take &lt;i&gt;space&lt;/i&gt; as an object when we ask where it is. But space cannot exist by itself, for what exists by itself is that which bears in its essence, (in its name) the reason of its existence. This can be true but of Being. Therefore space (unless it be identical with Being) does not exist.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;The question where does space exist?&#187; is natural to man, but merely because man has need of the idea of space.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Either space does not exist, or it exists by itself. By itself only Being can exist. &lt;span&gt;Space is inexistent.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>1906?</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>40</pagina>
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    <titulo>ESSAY ON THE ELEATIC SCHOOLS
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tens uma salva de prata&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Tens uma salva de prata&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde p&#245;es os alfinetes...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas n&#227;o tem salva nem prata&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquilo que tu prometes.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>44</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Tens uma salva de prata
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II.&lt;/b&gt; Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;As coisas n&#237;tidas confortam, e as coisas ao sol confortam. Ver passar a vida sob um dia azul compensa-me de muito. Esque&#231;o indefinidamente, esque&#231;o mais do que podia lembrar. O meu cora&#231;&#227;o transl&#250;cido e a&#233;reo penetra-se da sufici&#234;ncia das coisas, e olhar basta-me carinhosamente. Nunca eu fui outra coisa que uma vis&#227;o incorp&#243;rea, despida de toda a alma salvo um vago ar que passou e que via.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <id type="integer">146</id>
    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>266</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>As coisas n&#237;tidas confortam, e as coisas ao sol confortam.
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A CASA BRANCA NAU PRETA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Estou reclinado na poltrona, &#233; tarde, o Ver&#227;o apagou-se...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu c&#233;rebro...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o existe manh&#227; para o meu torpor nesta hora...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem foi um mau sonho que algu&#233;m teve por mim...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; uma interrup&#231;&#227;o lateral na minha consci&#234;ncia...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Continuam encostadas as portas da janela desta tarde&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sigo sem aten&#231;&#227;o as minhas sensa&#231;&#245;es sem nexo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a personalidade que tenho est&#225; entre o corpo e a alma...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quem dera que houvesse&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um terceiro estado pr&#224; alma, se ela tiver s&#243; dois...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um quarto estado pr&#224; alma, se s&#227;o tr&#234;s os que ela tem...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;D&#243;i-me por detr&#225;s das costas da minha consci&#234;ncia de sentir...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;As naus seguiram,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seguiram viagem n&#227;o sei em que dia escondido,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a rota que deviam seguir estava escrita nos ritmos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os ritmos perdidos das can&#231;&#245;es mortas do marinheiro de sonho...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#193;rvores paradas da quinta, vistas atrav&#233;s da janela,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#193;rvores estranhas a mim a um ponto inconceb&#237;vel &#224; consci&#234;ncia de as estar vendo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#193;rvores iguais todas a n&#227;o serem mais que eu v&#234;-las,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o poder eu fazer qualquer coisa g&#233;nero haver &#225;rvores que deixasse de doer,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o poder eu coexistir para o lado de l&#225; com estar-vos vendo do lado de c&#225;,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no ch&#227;o...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que sonhos?... Eu n&#227;o sei se sonhei... Que naus partiram, para onde?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tive essa impress&#227;o sem nexo porque no quadro fronteiro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Naus partem &#8212; naus n&#227;o, barcos, mas as naus est&#227;o em mim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E &#233; sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba n&#227;o basta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E nada que se pare&#231;a com isto devia ser o sentido da vida...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quem p&#244;s as formas das &#225;rvores dentro da exist&#234;ncia das &#225;rvores?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Onde tenho o meu pensamento que me d&#243;i estar sem ele,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sentir sem aux&#237;lio de poder para quando quiser, e o mar alto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a &#250;ltima viagem, sempre para l&#225;, das naus a subir...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o h&#225; subst&#226;ncia de pensamento na mat&#233;ria de alma com que penso... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; s&#243; janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que j&#225; n&#227;o faz, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Na vidra&#231;a aberta, fronteira ao &#226;ngulo com que o meu olhar a colhe &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#227;o outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu, parado, mole, adormecido,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho o mar embalando-me e sofro...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aos pr&#243;prios pal&#225;cios distantes a nau que penso n&#227;o leva. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As escadas dando sobre o mar inating&#237;vel ela n&#227;o alberga. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexpl&#237;citas n&#227;o deixa. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu p&#243;rtico &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o mar entra por os meus olhos o p&#243;rtico cessando.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Caia a noite, n&#227;o caia a noite, que importa a candeia &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por acender nas casas que n&#227;o vejo na encosta e eu l&#225;?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;H&#250;mida sombra nos sons do tanque nocturna sem lua, as r&#227;s rangem &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Coaxar tarde no vale, porque tudo &#233; vale onde o som d&#243;i.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Milagre do aparecimento da Senhora das Ang&#250;stias aos loucos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os actos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os olhos fechados, a cabe&#231;a pendida contra a coluna certa, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o mundo para al&#233;m dos vitrais paisagem sem ru&#237;nas...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A casa branca nau preta...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Felicidade na Austr&#225;lia...&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:33+01:00</created-at>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>241</pagina>
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    <titulo>CASA BRANCA NAU PRETA</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Por tr&#225;s daquela janela&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cuja cortina n&#227;o muda&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Coloco a vis&#227;o daquela&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que a alma em si mesma estuda&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No desejo que a revela.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o tenho falta de amor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem me queira n&#227;o me falta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas teria outro sabor&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se isso fosse interior&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#192;quela janela alta.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Porqu&#234;? Se eu soubesse, tinha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo o que desejo ter.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Amei outrora a Rainha,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E h&#225; sempre na alma minha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um trono por preencher.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sempre que posso sonhar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre que n&#227;o vejo, ponho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O trono nesse lugar;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Al&#233;m da cortina &#233; o lar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Al&#233;m da janela o sonho.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Assim, passando, entrete&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O artif&#237;cio do caminho&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E um pouco de mim me esque&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois mais nada &#224; vida pe&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do que ser o seu vizinho.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>129</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Por tr&#225;s daquela janela
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;B&#243;iam farrapos de sombra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em torno ao que n&#227;o sei ser&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; todo um c&#233;u que se escombra&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem me o deixar entrever.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O mist&#233;rio das alturas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desfaz-se em ritmos sem forma&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas desregradas negruras&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com que o ar se treva torna.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas em tudo isto, que faz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O universo um ser desfeito,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Guardei, como a minha paz,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A esperan&#231;a, que a dor me traz,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apertada contra o peito.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>99</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>B&#243;iam farrapos de sombra
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Textos Filos&#243;ficos&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por Ant&#243;nio de Pina Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1968.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;O tempo em si cont&#233;m a possibilidade de todas as dura&#231;&#245;es; o espa&#231;o em si a possibilidade de todos os tamanhos, de todas as extens&#245;es; a forma em si a possibilidade tanto do c&#237;rculo como do tri&#226;ngulo, a possibilidade de todas as formas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Assim como o tempo-em-si, isto &#233;, a eternidade, &#233; inconceb&#237;vel, da mesma maneira a forma em si &#233;&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; impens&#225;vel&lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. S&#243;&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;compreendemos o tempo quando ele se materializa, se fenomeniza, em uma dura&#231;&#227;o qualquer; s&#243; compreendemos a forma quando ela se determina como, por exemplo num c&#237;rculo ou num tri&#226;ngulo.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Para que a forma seja no espa&#231;o &#233; necess&#225;rio que &#224; nossa concep&#231;&#227;o de c&#237;rculo estivesse ligado um tamanho determinado).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;Tudo isto quer dizer simplesmente uma coisa: que o tempo, a forma, etc., s&#243; se tornam percept&#237;veis quando encontram um objecto. Ora, para isto assim ser, &#233; l&#243;gico que o objecto em si n&#227;o conhe&#231;a o tempo e o espa&#231;o, seja &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;extempor&#226;neo &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;e &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;imenso, &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;anterior a tempo e espa&#231;o, se assim se pode falar.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>43</pagina>
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    <titulo>O tempo em si cont&#233;m a possibilidade de todas as dura&#231;&#245;es;
</titulo>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Adivinhei o que pensas&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Adivinhei o que pensas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; por saber que n&#227;o era&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qualquer das coisas imensas&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que a minh&#8217;alma sempre espera.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>44</pagina>
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    <titulo>Adivinhei o que pensas
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">7</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;MUITO LONGE&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Era naquele pa&#237;s, que v&#243;s n&#227;o desconheceis, em que sempre se sente, em torno da nossa alma, o cair de folhas amarelas. Sabeis decerto que nessa (&#8230;) abandonado h&#225; lagos mais estagnados e silenciosos do que os outros lagos, e que &#224; superf&#237;cie deles b&#243;iam, como que permanentemente, verdes folhas espalmadas, mais vulgares de ver ao p&#233; das margens, onde se (...) entre as algas quebradas sonolentamente e como que adormecidas. &#201; o pa&#237;s, decerto que vos n&#227;o &#233; estranho, em que no p&#244;r do Sol, as horas desaparecem e o ru&#237;do do passo do tempo e os pr&#243;prios sons da natureza &#8212; o zumbir de instantes e cantos de aves e o murm&#250;rio fresco das &#225;rvores vagamente alteradas de encontro ao c&#233;u p&#225;lido nas min&#250;cias dos seus contornos. Neste pa&#237;s bem o sabeis, nada disto existe. H&#225; &#225;rvores mas n&#227;o se movem Rios, riachos (...) que sejam de &#225;gua corrente &#8212; n&#227;o os h&#225; ali. Tudo &#233; parado e sonolento. O sol n&#227;o nasce ali, nem &#233; nunca meio-dia ou noite naquela terra. O p&#244;r do Sol &#8212; sumido j&#225; o sol abaixo do horizonte acima do qual nunca esteve &#8212; &#233; eterno nesse pa&#237;s. De sobre os lagos escuros e esquecidos n&#227;o sai nunca a vaga luz saudosa que levemente os transfigura. N&#227;o h&#225; ali ru&#237;do, nem movimento, nem vida. Bem sabeis que as pr&#243;prias &#225;rvores e ervas (...) n&#227;o foram nunca sementes ou (...), mas sempre assim silenciosamente como s&#227;o. Movimento nenhum? N&#227;o, h&#225; um s&#243;. Ru&#237;do nenhum? N&#227;o, h&#225; um apenas. &#201; o cair eterno das folhas amarelas no p&#225;lido sossego eterno.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Debalde queremos poder sonhar ninfas ou faunos entre aquelas &#225;rvores. N&#227;o as houve nunca naquela terra. Como as poderia haver? N&#227;o seria preciso que o vento acordasse, os rios come&#231;assem a correr, e as ervas fossem verdes e as folhas cessassem de cair [...]: folhas que n&#227;o se v&#234;em cair mas se sente apenas... fechados os olhos sobre aquela terra. Abertos n&#227;o se v&#234;em nem se ouvem &#8212; v&#234;em-se apenas as folhas ca&#237;das, amarelentas no ch&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim; &#224; vista nada se move ou vive; ao ouvido apenas o que deve ser folhas caindo amarelentas decerto, naquele ch&#227;o outonal que nunca foi da primavera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, sim. Deve haver mais. H&#225; sem d&#250;vida um vento ligeiro, onde as folhas v&#234;m caindo, ca&#237;das, arrastadas, paradas, revolvidas e tresmalhadas. Mas ao abrir os olhos n&#227;o se v&#234; isto. Apenas os lagos quedos e vagos de luz, e sobre distantes montanhas silenciosas o sossego eterno do dia permanentemente moribundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi esta a terra onde eu nasci.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chamo-me o T&#233;dio &#8212; j&#225; o deveis saber.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nasci nessa terra sim, mas n&#227;o sei porqu&#234;, nem como, nem me importa saber. Basta-me que tenha eternamente esta nostalgia dessa p&#225;tria. O mais &#8212; nada sei. Sei que nasci nessa terra, mas n&#227;o me lembro de ali ter vivido nunca. Ao p&#233; daqueles lagos nunca decerto eu estive. Aquele p&#244;r do Sol, lembro-me dele mas n&#227;o o conhe&#231;o... E o cair de folhas amarelas no som? N&#227;o sei. N&#227;o o vi nunca, mas ouvi-o, e onde havia de ser sen&#227;o nessa terra quando eu dormia nem sei mesmo se nela se longe dela, se de todo dormindo, se quase dormindo apenas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conheceis decerto esta terra por minha. Sentis talvez como eu a nostalgia dela; e como eu talvez n&#227;o desejais conhec&#234;-la ou v&#234;-la. Vejo-a sempre e d&#243;i-me o v&#234;-la mas n&#227;o a quero, e desejo n&#227;o a ver. Mas lembro-me sempre dela; n&#227;o ouso querer esquec&#234;-la.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda que silenciosa e inerte ela n&#227;o &#233; sossegada. Nada nos diz de novo. E mais quieta do que uma casa deve ser. Parece um universo morto; uma terra a pensar; h&#225; ali pouco e muito para a alma, de menos e de mais para o sonho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inclinai a cabe&#231;a sobre a m&#227;o. Pensai quanto &#233; desej&#225;vel para n&#227;o viver nela esta terra estranha onde eu nasci. N&#227;o o podeis esquecer, nem querer, nem de qualquer modo sentir para com ela. Desejais como eu n&#227;o &#233; verdade? &#8212; dormir e n&#227;o saber do mais. Mas, como eu, n&#227;o podeis dormir. Meditais comigo eternamente naquela paisagem eterna. Fechemos os olhos ao menos; ou&#231;amo-lo, o cair leve das folhas amarelas no entenebrecido ch&#227;o. Como elas caem e rastejam em torno da nossa alma! Fechados ou abertos os olhos, elas caem sempre, bem ouvidas ou mal, ternas ou menos ternas. No mais escuro do fechar os olhos ouve-se leve o tal vento que as arrasta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que tristeza a minha, por ter nascido nessa terra; e a vossa tamb&#233;m, por ali n&#227;o ter nascido!&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>183</pagina>
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    <titulo>MUITO LONGE
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;LISBON REVISITED&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;(1923)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o: n&#227;o quero nada &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; disse que n&#227;o quero nada.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me venham com conclus&#245;es! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A &#250;nica conclus&#227;o &#233; morrer.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me tragam est&#233;ticas! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me falem em moral! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tirem-me daqui a metaf&#237;sica! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me apregoem sistemas completos, n&#227;o me enfileirem conquistas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das ci&#234;ncias (das ci&#234;ncias, Deus meu, das ci&#234;ncias!) &#8212; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das ci&#234;ncias, das artes, da civiliza&#231;&#227;o moderna!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que mal fiz eu aos deuses todos?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Se t&#234;m a verdade, guardem-na!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sou um t&#233;cnico, mas tenho t&#233;cnica s&#243; dentro da t&#233;cnica. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fora disso sou doido, com todo o direito a s&#234;-lo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com todo o direito a s&#234;-lo, ouviram?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me macem, por amor de Deus!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Queriam-me casado, f&#250;til, quotidiano e tribut&#225;vel? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Queriam-me o contr&#225;rio disto, o contr&#225;rio de qualquer coisa? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim, como sou, tenham paci&#234;ncia! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;V&#227;o para o diabo sem mim, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para que havemos de ir juntos?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o me peguem no bra&#231;o! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o gosto que me peguem no bra&#231;o. Quero ser sozinho. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; disse que sou sozinho! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, que ma&#231;ada quererem que eu seja de companhia!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#211; c&#233;u azul &#8212; o mesmo da minha inf&#226;ncia &#8212; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eterna verdade vazia e perfeita! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#211; macio Tejo ancestral e mudo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pequena verdade onde o c&#233;u se reflecte! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#211; m&#225;goa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Deixem-me em paz! N&#227;o tardo, que eu nunca tardo... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E enquanto tarda o Abismo e o Sil&#234;ncio quero estar sozinho!&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>1923</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Contempor&#226;nea&lt;/b&gt;, n&#186; 8. Lisboa: 1923.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>247</pagina>
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    <titulo>LISBON REVISITED (1923)
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Gato que brincas na rua&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como se fosse na cama,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Invejo a sorte que &#233; tua&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque nem sorte se chama.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Bom servo das leis fatais&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que regem pedras e gentes,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que tens instintos gerais&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E sentes s&#243; o que sentes.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#201;s feliz porque &#233;s assim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todo o nada que &#233;s &#233; teu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu vejo-me e estou sem mim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conhe&#231;o-me e n&#227;o sou eu.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>131</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Gato que brincas na rua
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tudo que sou n&#227;o &#233; mais do que abismo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em que uma vaga luz&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com que sei que sou eu, e nisto cismo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Obscura me conduz.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Um intervalo entre n&#227;o-ser e ser&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Feito de eu ter lugar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como o p&#243;, que se v&#234; o vento erguer,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vive de ele o mostrar&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>100</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Tudo que sou n&#227;o &#233; mais do que abismo
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Ouvi-te cantar de dia.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ouvi-te cantar de dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De noite te ouvi cantar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ai de mim, se &#233; de alegria!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ai de mim, se &#233; de penar!&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>44</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Ouvi-te cantar de dia.
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Pretende-se aqui dar, por sugest&#227;o, a ideia de um luar sobre ilhas imposs&#237;veis, sonhadas. A sugest&#227;o deve portanto visionar na alma do leitor dois elementos, unificando-os; e esses dois elementos s&#227;o o Luar e as Ilhas Imposs&#237;veis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como o luar parte a paisagem ao meio, dividindo-a nitidamente em luz e absoluta sombra a ideia da metade atravessa, como um motivo, a poesia toda. E a ideia de prata acompanha este sentido para o tornar n&#237;tido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A visiona&#231;&#227;o constante do isolamento no meio de outras coisas &#8212; ponte, hoste de guerreiros, piscina no meio de uma sala, bras&#227;o destacado no fundo contra o qual o vemos &#8212; tudo isto insinua a ideia de Ilha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Finalmente, o absurdo, desconexo e vago das imagens sugerem a ideia de Estranhezas, de Impossibilidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da&#237; a sugest&#227;o total e una &#8212; porque todos estes elementos se fundem e coagem - de Luar sobre as Ilhas Imposs&#237;veis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os dois efeitos t&#237;picos do luar s&#227;o a cor da prata, e o cortar a paisagem ao meio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ilha imposs&#237;vel envolve a ideia t&#237;pica da Ilha &#8212; isto &#233; isolamento no meio de outra coisa &#8212; e (&#8230;)&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase decadentista", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>185</pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>Pretende-se aqui dar, por sugest&#227;o, a ideia de um luar...
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;LISBON REVISITED&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;(1926)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nada me prende a nada. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Anseio com uma ang&#250;stia de fome de carne &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que n&#227;o sei que seja &#8212; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Definidamente pelo indefinido... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Fecharam-me todas as portas abstractas e necess&#225;rias. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Correram cortinas de todas as hip&#243;teses que eu poderia ver na rua. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o h&#225; na travessa achada n&#250;mero de porta que me deram.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;At&#233; os meus ex&#233;rcitos sonhados sofreram derrota.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;At&#233; os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;At&#233; a vida s&#243; desejada me farta &#8212; at&#233; essa vida...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Compreendo a intervalos desconexos; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Escrevo por lapsos de cansa&#231;o; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E um t&#233;dio que &#233; at&#233; do t&#233;dio arroja-me &#224; praia.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei que destino ou futuro compete &#224; minha ang&#250;stia sem leme; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei que ilhas do Sul imposs&#237;vel aguardam-me n&#225;ufrago; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou que palmares de literatura me dar&#227;o ao menos um verso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o, n&#227;o sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, no fundo do meu esp&#237;rito, onde sonho o que sonhei, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos campos &#250;ltimos da alma onde memoro sem causa &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(E o passado &#233; uma n&#233;voa natural de l&#225;grimas falsas), &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nas estradas e atalhos das florestas long&#237;nquas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde supus o meu ser, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fogem desmantelados, &#250;ltimos restos &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da ilus&#227;o final, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os meus ex&#233;rcitos sonhados, derrotados sem ter sido, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As minhas coortes por existir, esfaceladas em Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outra vez te revejo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cidade da minha inf&#226;ncia pavorosamente perdida... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E aqui tornei a voltar, e a voltar, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E aqui de novo tornei a voltar?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma s&#233;rie de contas-entes ligadas por um fio-mem&#243;ria, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma s&#233;rie de sonhos de mim de algu&#233;m de fora de mim?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outra vez te revejo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o cora&#231;&#227;o mais long&#237;nquo, a alma menos minha.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outra vez te revejo &#8212; Lisboa e Tejo e tudo &#8212;,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Transeunte in&#250;til de ti e de mim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estrangeiro aqui como em toda a parte,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Casual na vida como na alma,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fantasma a errar em salas de recorda&#231;&#245;es,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao ru&#237;do dos ratos e das t&#225;buas que rangem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No castelo maldito de ter que viver...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outra vez te revejo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sombra que passa atrav&#233;s de sombras, e brilha&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um momento a uma luz f&#250;nebre desconhecida,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E entra na noite como um rastro de barco se perde&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na &#225;gua que deixa de se ouvir...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Outra vez te revejo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, ai, a mim n&#227;o me revejo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Partiu-se o espelho m&#225;gico em que me revia id&#234;ntico,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E em cada fragmento fat&#237;dico vejo s&#243; um bocado de mim &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um bocado de ti e de mim!...&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in Contempor&#226;nea, 3&#170; s&#233;rie, n&#186;2. Lisboa: Jun. 1926.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>249</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>LISBON REVISITED (1926)
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o: n&#227;o digas nada!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Supor o que dir&#225;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A tua boca velada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; ouvi-lo j&#225;.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#201; ouvi-lo melhor&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do que o dirias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que &#233;s n&#227;o vem &#224; flor&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Das frases e dos dias.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#201;s melhor do que tu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o digas nada; s&#234;!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gra&#231;a do corpo nu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que invis&#237;vel se v&#234;.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>5/6-2-1931</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>132</pagina>
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    <titulo>N&#227;o: n&#227;o digas nada!
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Sangra-me o cora&#231;&#227;o. Tudo que penso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A emo&#231;&#227;o mo tomou. Sofro esta m&#225;goa&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que &#233; o mundo imoral, regrado e imenso,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No qual o bem &#233; s&#243; como um incenso &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que cerca a vida, como a terra a &#225;gua.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Todos os dias, oi&#231;a ou veja, d&#227;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mis&#233;rias, males, injusti&#231;as &#8212; quanto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pode afligir o est&#233;ril cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E todo anseio pelo bem &#233; v&#227;o, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a vontade t&#227;o v&#227; como &#233; o pranto.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que Deus duplo nos p&#244;s na alma sens&#237;vel&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao mesmo tempo os dons de conhecer&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que o mal &#233; a norma, o natural poss&#237;vel,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E de querer o bem, in&#250;til n&#237;vel, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que nunca assenta regular no ser?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Com que fria esquadria e v&#227;o compasso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que invis&#237;vel Ge&#243;metra regrou&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As mar&#233;s deste mar de mau sarga&#231;o &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo fluido, com seu tempo e espa&#231;o, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que ele mesmo n&#227;o sabe quem criou?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas, seja como for, nesta descida&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o Bem, justi&#231;a espiritual da vida,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; perdida palavra, substitu&#237;da &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por bens obscuros, f&#243;rmulas do acaso.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que plano extinto, antes de conseguido,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ficou s&#243; mundo, norma e desmazelo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mundo imperfeito, porque foi erguido?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como acab&#225;-lo, templo inconclu&#237;do, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se nos falta o segredo com que ergu&#234;-lo?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O mundo &#233; Deus que &#233; morto, e a alma aquele&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que, esse Deus exumado, reflectiu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A morte e a exuma&#231;&#227;o que houveram dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas est&#225; perdido o selo com que sele &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seu pacto com o vivo que caiu.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Por isso, em sombra e natural desgra&#231;a,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tem que buscar aquilo que perdeu &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o ela, mas a morte que a repassa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E vem achar no Verbo a f&#233; e a gra&#231;a &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A nova vida do que j&#225; morreu.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Porque o Verbo &#233; quem Deus era primeiro,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Antes que a morte, que o tornou o mundo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Corrompesse de mal o mundo inteiro:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E assim no Verbo, que &#233; o Deus terceiro, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A alma volve ao Bem que &#233; o seu fundo.&lt;/p&gt;
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    <titulo>Sangra-me o cora&#231;&#227;o. Tudo que penso
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Quadras ao Gosto&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Popular.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1965. (6&#170; ed., 1973).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Por um p&#250;caro de barro&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Por um p&#250;caro de barro&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bebe-se a &#225;gua mais fria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem tem tristezas n&#227;o dorme,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vela para ter alegria.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>44</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Por um p&#250;caro de barro
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  <texto>
    <autor-id type="integer">4</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego.&lt;/b&gt; Vol.I. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o e fixa&#231;&#227;o de in&#233;ditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presen&#231;a, 1990.&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o sei que diga. Perten&#231;o &#224; ra&#231;a dos navegadores e dos criadores de imp&#233;rios. Se falar como sou, n&#227;o serei entendido, porque n&#227;o tenho Portugueses que me escutem. N&#227;o falamos eu e os que s&#227;o meus compatriotas uma linguagem comum. Calo. Falar seria n&#227;o me compreenderem. Prefiro a incompreens&#227;o pelo sil&#234;ncio.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
    <pagina>186</pagina>
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    <titulo>N&#227;o sei que diga. Perten&#231;o &#224; ra&#231;a dos navegadores...
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  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;TABACARIA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sou nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca serei nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o posso querer ser nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#192; parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Janelas do meu quarto,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do meu quarto de um dos milh&#245;es do mundo que ningu&#233;m sabe quem &#233;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(E se soubessem quem &#233;, o que saberiam?),&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dais para o mist&#233;rio de uma rua cruzada constantemente por gente,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para uma rua inacess&#237;vel a todos os pensamentos,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o mist&#233;rio das coisas por baixo das pedras e dos seres,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com a morte a p&#244;r humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o Destino a conduzir a carro&#231;a de tudo pela estrada de nada.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou hoje l&#250;cido, como se estivesse para morrer, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E n&#227;o tivesse mais irmandade com as coisas &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sen&#227;o uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De dentro da minha cabe&#231;a, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou hoje dividido entre a lealdade que devo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#192; Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E &#224; sensa&#231;&#227;o de que tudo &#233; sonho, como coisa real por dentro.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Falhei em tudo. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como n&#227;o fiz prop&#243;sito nenhum, talvez tudo fosse nada. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A aprendizagem que me deram, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desci dela pela janela das traseiras da casa, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fui at&#233; ao campo com grandes prop&#243;sitos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas l&#225; encontrei s&#243; ervas e &#225;rvores, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E quando havia gente era igual &#224; outra. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que sei eu do que serei, eu que n&#227;o sei o que sou?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E h&#225; tantos que pensam ser a mesma coisa que n&#227;o pode haver tantos!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;G&#233;nio? Neste momento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cem mil c&#233;rebros se concebem em sonho g&#233;nios como eu,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a hist&#243;ria n&#227;o marcar&#225;, quem sabe?, nem um,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem haver&#225; sen&#227;o estrume de tantas conquistas futuras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o, n&#227;o creio em mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em todos os manic&#243;mios h&#225; doidos malucos com tantas certezas!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu, que n&#227;o tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o, nem em mim...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em quantas mansardas e n&#227;o-mansardas do mundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o est&#227;o nesta hora g&#233;nios-para-si-mesmos sonhando?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quantas aspira&#231;&#245;es altas e nobres e l&#250;cidas &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, verdadeiramente altas e nobres e l&#250;cidas &#8212;,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E quem sabe se realiz&#225;veis,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca ver&#227;o a luz do sol real nem achar&#227;o ouvidos de gente?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mundo &#233; para quem nasce para o conquistar&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E n&#227;o para quem sonha que pode conquist&#225;-lo, ainda que tenha raz&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho sonhado mais que o que Napole&#227;o fez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho apertado ao peito hipot&#233;tico mais humanidades do que Cristo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda que n&#227;o more nela;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Serei sempre &lt;i&gt;o que n&#227;o nasceu para isso&lt;/i&gt;;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Serei sempre &lt;i&gt;s&#243; o que tinha qualidades&lt;/i&gt;;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao p&#233; de uma parede sem porta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E ouviu a voz de Deus num po&#231;o tapado. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Crer em mim? N&#227;o, nem em nada. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Derrame-me a Natureza sobre a cabe&#231;a ardente &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou n&#227;o venha. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Escravos card&#237;acos das estrelas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conquist&#225;mos todo o mundo antes de nos levantar da cama; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas acord&#225;mos e ele &#233; opaco, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Levant&#225;mo-nos e ele &#233; alheio, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sa&#237;mos de casa e ele &#233; a terra inteira, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais o sistema solar e a Via L&#225;ctea e o Indefinido.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;(Come chocolates, pequena; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Come chocolates! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olha que n&#227;o h&#225; mais metaf&#237;sica no mundo sen&#227;o chocolates.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olha que as religi&#245;es todas n&#227;o ensinam mais que a confeitaria. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Come, pequena suja, come! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que &#233; de folhas de estanho, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deito tudo para o ch&#227;o, como tenho deitado a vida.)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A caligrafia r&#225;pida destes versos, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P&#243;rtico partido para o Imposs&#237;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem l&#225;grimas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nobre ao menos no gesto largo com que atiro &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E fico em casa sem camisa.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;(Tu, que consolas, que n&#227;o existes e por isso consolas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou deusa grega, concebida como est&#225;tua que fosse viva, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou patr&#237;cia romana, impossivelmente nobre e nefasta, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou princesa de trovadores, gentil&#237;ssima e colorida, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou marquesa do s&#233;culo dezoito, decotada e long&#237;nqua, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou cocote c&#233;lebre do tempo dos nossos pais, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou n&#227;o sei qu&#234; moderno &#8212; n&#227;o concebo bem o qu&#234; &#8212;, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu cora&#231;&#227;o &#233; um balde despejado. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como os que invocam esp&#237;ritos invocam esp&#237;ritos invoco &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A mim mesmo e n&#227;o encontro nada. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chego &#224; janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo os c&#227;es que tamb&#233;m existem, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E tudo isto me pesa como uma condena&#231;&#227;o ao degredo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E tudo isto &#233; estrangeiro, como tudo.)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Vivi, estudei, amei, e at&#233; cri, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E hoje n&#227;o h&#225; mendigo que eu n&#227;o inveje s&#243; por n&#227;o ser eu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Porque &#233; poss&#237;vel fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que &#233; rabo para aqu&#233;m do lagarto remexidamente.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Fiz de mim o que n&#227;o soube,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E o que podia fazer de mim n&#227;o o fiz. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O domin&#243; que vesti era errado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conheceram-me logo por quem n&#227;o era e n&#227;o desmenti, e perdi-me. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando quis tirar a m&#225;scara,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estava pegada &#224; cara.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando a tirei e me vi ao espelho, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;J&#225; tinha envelhecido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estava b&#234;bado, j&#225; n&#227;o sabia vestir o domin&#243; que n&#227;o tinha tirado. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deitei fora a m&#225;scara e dormi no vesti&#225;rio&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como um c&#227;o tolerado pela ger&#234;ncia&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por ser inofensivo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E vou escrever esta hist&#243;ria para provar que sou sublime.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ess&#234;ncia musical dos meus versos in&#250;teis,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E n&#227;o ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Calcando aos p&#233;s a consci&#234;ncia de estar existindo, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como um tapete em que um b&#234;bado trope&#231;a &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou um capacho que os ciganos roubaram e n&#227;o valia nada.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas o Dono da Tabacaria chegou &#224; porta e ficou &#224; porta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Olhou-o com o desconforto da cabe&#231;a mal voltada&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E com o desconforto da alma mal-entendendo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele morrer&#225; e eu morrerei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele deixar&#225; a tabuleta, e eu deixarei versos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A certa altura morrer&#225; a tabuleta tamb&#233;m, e os versos tamb&#233;m.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de certa altura morrer&#225; a rua onde esteve a tabuleta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a l&#237;ngua em que foram escritos os versos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Morrer&#225; depois o planeta girante em que tudo isto se deu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em outros sat&#233;lites de outros sistemas qualquer coisa como gente&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Continuar&#225; fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre uma coisa defronte da outra,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre uma coisa t&#227;o in&#250;til como a outra, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre o imposs&#237;vel t&#227;o est&#250;pido como o real,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre o mist&#233;rio do fundo t&#227;o certo como o sono de mist&#233;rio da superf&#237;cie, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a realidade plaus&#237;vel cai de repente em cima de mim. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Semiergo-me en&#233;rgico, convencido, humano, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contr&#225;rio.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Acendo um cigarro ao pensar em escrev&#234;-los &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E saboreio no cigarro a liberta&#231;&#227;o de todos os pensamentos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sigo o fumo como uma rota pr&#243;pria, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E gozo, num momento sensitivo e competente, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A liberta&#231;&#227;o de todas as especula&#231;&#245;es &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a consci&#234;ncia de que a metaf&#237;sica &#233; uma consequ&#234;ncia de estar mal disposto.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Depois deito-me para tr&#225;s na cadeira &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E continuo fumando. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Talvez fosse feliz.) &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou &#224; janela.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das cal&#231;as?). &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, conhe&#231;o-o: &#233; o Esteves sem metaf&#237;sica. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(O Dono da Tabacaria chegou &#224; porta.) &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acenou-me adeus gritei-lhe &lt;i&gt;Adeus &#243; Esteves!&lt;/i&gt;, e o universo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperan&#231;a, e o Dono da Tabacaria sorriu.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in Presen&#231;a, n&#186; 39. Coimbra: Jul. 1933.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>252</pagina>
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    <titulo>TABACARIA
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    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;De onde &#233; quase o horizonte&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobe uma n&#233;voa ligeira&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E afaga o pequeno monte&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que p&#225;ra na dianteira.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E com bra&#231;os de farrapo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quase invis&#237;veis e frios&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Faz cair seu ser de trapo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sobre os contornos macios.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Um pouco de alto medito&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A n&#233;voa s&#243; com a ver.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vida? N&#227;o acredito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A cren&#231;a? N&#227;o sei viver.&lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>133</pagina>
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    <titulo>De onde &#233; quase o horizonte
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Tudo que sinto, tudo quanto penso,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem que eu o queira se me converteu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Numa vasta plan&#237;cie, um vago extenso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde h&#225; s&#243; nada sob o nulo c&#233;u.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o existo sen&#227;o para saber&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que n&#227;o existo, e, como a recordar,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo boiar a in&#233;rcia do meu ser&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No meu ser sem in&#233;rcia, in&#250;til mar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sarga&#231;o fluido de uma hora incerta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quem me dar&#225; que o tenha por vis&#227;o?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nada, nem o que tolda a descoberta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o saber que existe o cora&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:34+01:00</created-at>
    <data>9-5-1934</data>
    <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>104</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Tudo que sinto, tudo quanto penso,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">8</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Fic&#231;&#227;o e Teatro.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;OS RAPAZES DE BARROWBY&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cr&#243;nica humor&#237;stica por Adolph Moscow&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;1903&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cap&#237;tulo I&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;A VILA E A ESCOLA DE BARROWBY&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Ao escrever esta cr&#243;nica ver&#237;dica, luto, principalmente, com a grande desvantagem de me ser totalmente imposs&#237;vel apontar a localidade da c&#233;lebre aldeia de Barrowby e, consequentemente, do velho col&#233;gio a&#237; existente h&#225; poucos anos; farei todavia o melhor que puder no que diz respeito a esta hist&#243;ria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com a louv&#225;vel inten&#231;&#227;o de me informar no tocante &#224; posi&#231;&#227;o geogr&#225;fica da citada povoa&#231;&#227;o, tinha consultado atlas, cartas e toda a esp&#233;cie de literatura que pudesse deitar luz sobre o assunto em quest&#227;o. Mas debalde, depois de uma busca de seis semanas, na qual gastei o dinheiro e uma boa parte da vista (pois lia at&#233; alta noite), decidi-me a largar esta averigua&#231;&#227;o estafadora e, geralmente, in&#250;til. Vendi, portanto, os livros e canhenhos pela d&#233;cima quinta parte do que dera por eles, resolvido a perder o conhecimento da localidade de Barrowby antes que a vista ou o dinheiro, mandei a quest&#227;o, que tanto me atormentara, a todos os diabos do Averno virgiliano, e deitei-me a escrever esta interessante hist&#243;ria com o ardor dum guerreiro, a veracidade dum historiador, a determina&#231;&#227;o dum burro, e a sandice do mesmo animal, ou dum poeta da moderna escola, que s&#227;o afinal bestas t&#227;o semelhantes que &#233; praticamente imposs&#237;vel fazer distin&#231;&#227;o entre elas. Pe&#231;o perd&#227;o ao asno por esta compara&#231;&#227;o, para ele pouco lisonjeira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando bem reflicto sobre o caso, chego &#224; conclus&#227;o que, afinal, todo o meu trabalho foi v&#227;o, pois que nem o local, nem o pa&#237;s onde estivera ou est&#225; a referida aldeia, actuaram, ou poderiam actuar sobre o curso desta extraordin&#225;ria narra&#231;&#227;o. &#201; para mim perfeitamente igual se a povoa&#231;&#227;o de Barrowby se tivesse achado situada na Europa, ou na &#193;sia, ou na &#193;frica, ou na Am&#233;rica, ou na Oce&#226;nia, ou nas profundidades ca&#243;ticas do inferno dantesco. Quer tivesse a aldeia de Barrowby a sua obscura situa&#231;&#227;o em qualquer dos p&#243;los, quer sobre a linha equatorial, quer sobre qualquer dos tr&#243;picos, quer na atmosfera escassa das regi&#245;es selenoc&#234;ntricas (!!!), a cr&#243;nica a mesma permanecer&#225; e como me foi dita eu a escreverei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contudo, se os senhores ge&#243;grafos se esqueceram de mostrar &#224; posteridade a exacta localidade de Barrowby, os top&#243;grafos, mais amantes da perpetua&#231;&#227;o da fama do soberbo panorama que (diziam eles) apresentavam as esbeltas colinas e verdejantes prados que ornamentavam, real&#231;ando o efeito c&#233;nico, a casaria branca da aldeia inglesa, n&#227;o se esqueceram de descrever minuciosamente a aldeia e os seus cativantes arrabaldes. Resta por&#233;m saber quem foram os am&#225;veis descritores da Natureza que se dedicaram de t&#227;o boa vontade &#224; inspec&#231;&#227;o cuidadosa dos encantos naturais de Barrowby. Afirmam at&#233; algumas pessoas impertinentes que ser&#225; deveras dif&#237;cil encontrar os citados top&#243;grafos pela simples raz&#227;o de nunca terem existido. Mas eu ponho de parte este cepticismo repugnante com o desprezo que lhe &#233; devido, pois que tudo isto relativo &#224; descri&#231;&#227;o topogr&#225;fica da povoa&#231;&#227;o e arredores me foi comunicado por pessoas de cuja integridade seria afrontoso duvidar e (entre n&#243;s) cujo &#250;nico mal &#233; nunca terem vindo ao mundo. Seja como for, pensem os leitores como quiserem pensar, a aldeia de Barrowby existir&#225;, pelo menos, nesta cr&#243;nica, e, conquanto n&#227;o queira cansar os meus estim&#225;veis leitores, devo dar-lhes a correr uma pequena ideia do lugar onde se v&#227;o desenrolar as cenas desta variegada cr&#243;nica. Suponhamos, todavia, que a aldeia de Barrowby se encontrava a duas l&#233;guas dum porto, perto de Brighton em Inglaterra, e ao qual chamaremos Lynmouth. Passemos &#224; descri&#231;&#227;o de Barrowby.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entre duas colinas, subdivididas em mais de oito colinas pequenas ou simples mont&#245;es, estava a povoa&#231;&#227;o de que estamos a falar. As colinas pequenas (ou mont&#245;es grandes) eram regulares e nada escabrosas, com a excep&#231;&#227;o duma chamada a Ribanceira do Pinhal, pela raz&#227;o de ter em tempos havido um pinhal na mais regular das suas rasgadas encostas. Esta colina, a que mais direito tinha a ser considerada como uma colina especial ou separada, era t&#227;o &#237;ngreme e rasgada que ningu&#233;m conseguira (at&#233; ao momento em que come&#231;a a minha hist&#243;ria) trepar at&#233; ao cume, apesar de bastantes terem feito atentados.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O plano que acompanha estas linhas mostra melhor a posi&#231;&#227;o da vila, col&#233;gio e tudo mais de interesse nesta hist&#243;ria. No lugar marcado N, sobre o rio, estava a vila, o col&#233;gio de Barrowby no extremo O e um outro col&#233;gio superior em P. Em Q era a casa dum oficial reformado &#8212; o Almirante Saca-Rolhas e em R era a casa de Sir Rog&#233;rio Caba&#231;a, uma pessoa important&#237;ssima, mas por que raz&#227;o ningu&#233;m sabia. De qualquer outro lugar se falar&#225; no curso da hist&#243;ria. Por agora bastam os que se v&#234;em no plano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vila, ou aldeia, de Barrowby era como quase todas as aldeias pequenas, muito branca, muito quieta e bastante pitoresca. Como &#233; do Col&#233;gio que nos vamos ocupar, trataremos de o descrever em primeiro lugar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contando, naquela data, trinta anos de constru&#237;do, tinha passado pelas m&#227;os de nada menos de cinco administradores. Erigido no local de um velho convento, havia ainda por baixo do col&#233;gio umas celas subterr&#226;neas e uns claustros escur&#237;ssimos e duma antiguidade insond&#225;vel que contrastavam flagrantemente com a estrutura modernizada do col&#233;gio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O col&#233;gio continha, em primeiro lugar, a casa do administrador, o Reverendo Doutor Sabido, um homem inteligent&#237;ssimo, formado em Literatura e Teologia; da sua mulher, uma senhora de cara cadav&#233;rica, de corpo cadav&#233;rico, e cuja presen&#231;a e conversa&#231;&#227;o punham um ar cadav&#233;rico &#224; mais brilhante e alegre das pessoas; e de suas duas filhas que herdavam da m&#227;e a fealdade de cara e corpo e o tal ar de mortas-vivas, e do pai a jact&#226;ncia e pompa, mas n&#227;o a sabedoria e delicadeza, qualidades quase inatas no Reverendo Doutor, que se prezava de j&#225; saber ler antes de ter nascido. Eu n&#227;o quero duvidar da palavra do Doutor Sabido, mas isto parece um fen&#243;meno fora do poder da ci&#234;ncia moderna: seja como for, a&#237; fica o dito; os leitores que pensem dele o que quiserem .&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A casa do Administrador Reverendo Doutor Sabido era ligada ao col&#233;gio pr&#243;prio por um corredor no r&#233;s-de-ch&#227;o que ia dar direito &#224; aula principal, ou antes, maior. O col&#233;gio pr&#243;prio continha no r&#233;s-do-ch&#227;o mais umas poucas de aulas, um gin&#225;sio, um laborat&#243;rio, um quarto para leituras de f&#237;sica, e outras divis&#245;es necess&#225;rias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro andar tinha os tr&#234;s dormit&#243;rios, que eram s&#243; para os rapazes mais pequenos, e outros quartos separados, habitados cada um por dois ou tr&#234;s rapazes grandes; havia tamb&#233;m no fim uns quartos de criados e outras divis&#245;es precisas. No segundo andar havia os quartos de cama e saletas dos professores restantes e a casa de jantar de todos do col&#233;gio, com excep&#231;&#227;o, j&#225; se v&#234;, dos criados. Acima de tudo havia um observat&#243;rio astron&#243;mico, onde os professores passavam as noites &#224;s vezes absortos na contempla&#231;&#227;o dos astros nocturnos. O terreno do col&#233;gio, mesmo excluindo o grande jardim do Doutor (que era o nome pelo qual era conhecido o Administrador), era enorme comparado com os p&#225;tios dos col&#233;gios urbanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A&#237; fica a descri&#231;&#227;o do Col&#233;gio de Barrowby. Voltemos agora &#224; nossa hist&#243;ria.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Cap&#237;tulo II&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;OS REC&#201;M-CHEGADOS&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Era um dia quente no princ&#237;pio de Agosto; abria, depois do costumado m&#234;s de f&#233;rias, o Col&#233;gio de Barrowby, que, digamo-lo aqui, era s&#243; para internos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;S&#243; no dia seguinte &#233; que a escola abria realmente, pois que o dia de que falo era aquele em que deviam chegar todos os rapazes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Defronte da grande porta do Col&#233;gio estavam agrupados tr&#234;s rapazes alegres e saud&#225;veis, discutindo vivamente e contando uns aos outros as perip&#233;cias que tinham feito nas f&#233;rias. Descrevamo-los.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O primeiro, o mais alto de todos, era um rapaz de quinze anos e meio, crescido para a sua idade, e a frescura e vermelhid&#227;o sadia de cujo rosto o proclamavam como criado nos campos. Tinha ele o car&#225;cter dum verdadeiro rapaz ingl&#234;s; qualquer h&#225;bil disc&#237;pulo de Lavater poder-lhe-ia ler na cara coragem e travessura, nos olhos azuis franqueza e, se fosse disc&#237;pulo de Kisch&lt;/span&gt;
              &lt;span /&gt;
              &lt;span&gt; (1) &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;&#160;(1), a for&#231;a de car&#225;cter e de vontade e aquela determina&#231;&#227;o caracter&#237;stica dos ingleses no cabelo louro. Chamava-se Henry Ford e era filho de um titular, magnate provincial que, quando n&#227;o estava na House of Lords (C&#226;mara inglesa dos Pares), andava ca&#231;ando a raposa. &#201; verdade que Henry Ford era o nome do rapaz, mas ningu&#233;m, com excep&#231;&#227;o dos mestres, o tratava por Ford; chamavam-lhe Mel, por ele ser muito amigo de doces e artigos de confeitaria.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O segundo rapaz era chin&#234;s e tinha s&#243; doze anos. A sua cara era mais bonita e fina que geralmente s&#227;o as fisionomias dos filhos do Imp&#233;rio Oriental. Chamava-se Lung-Hi e era filho de um mandarim que o mandava &#224; escola na Europa pois que o destinava &#224; representa&#231;&#227;o do seu pa&#237;s na Inglaterra. Este pequeno era o mais baixo de todos, mas era o mais vivo e mais travesso do bando ali reunido. Nos col&#233;gios ingleses nobreza &#233; posta &#224; parte (2) e tratavam-no os professores pelo seu nome simplesmente, e os rapazes por Lung s&#243;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O terceiro rapaz era mais baixo que o primeiro, mas mais alto que o pr&#237;ncipe china, pois que este era o verdadeiro t&#237;tulo do Oriental. Tinha cabelo louro quase castanho e a sua fisionomia exprimia mais travessura mas era menos aberta que a do Mel. Chamava-se este Godfrey Slater, mas tinha a alcunha de Gyp, abreviatura de &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;gypsy &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;(cigano), porque ele se entendia muito bem com ciganos.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acabava de chegar o pr&#237;ncipe e apertava alegremente as m&#227;os aos companheiros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Ent&#227;o&#187;, disse ele, &#171;h&#225; rapazes novos?&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;A&#237; est&#227;o tr&#234;s&#187;, respondeu Gyp; &#171;um tem cara de burro, outro nariz de cegonha e o terceiro boca de tubar&#227;o podre.&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Assim n&#227;o se faz ideia nenhuma deles&#187;, disse Lung-Hi.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Mas faz-se vendo-os&#187;, replicou Mel, &#171;e a&#237; v&#234;m eles todos.&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tr&#234;s rapazes, olhando para tudo ares de pessoas com que ali est&#227;o pela primeira vez, pararam &#224; porta. O primeiro, que fora descrito por Gyp como &#171;nariz de cegonha&#187;, era um judeu e trazia tr&#234;s an&#233;is de ouro falso com brilhantes falsos, um alfinete de gravata de lat&#227;o pintado de amarelo com um vidro verde a imitar uma esmeralda, e um rel&#243;gio e corrente de prata falsa. Chamava-se esta prenda Zacarias Phumtumpum. Os outros dois rapazes eram tipos muito comuns para precisar descri&#231;&#227;o; chamava-se, o maior, Long; e o mais pequeno, Poll. Todos estes tr&#234;s olharam para Lung, Mel e Gyp.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Ih! Nariz de proa de galera romana, para quem est&#225;s tu a olhar assim?&#187;, disse para o judeu o nosso amigo Gyp, que tinha uma l&#237;ngua muito severa que, como sabia jogar bem o soco (3), ele usava indiscriminadamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Eu n&#227;o quero fazer mal&#187;, respondeu assustado Zacarias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;&#171;Ent&#227;o tira a tua cara daqui, que ela era capaz de assustar um rinoceronte, quanto mais um &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt;gentleman &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;ingl&#234;s&#187;, retorquiu Gyp com o sobrecenho carregado.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Eu s&#243; queria perguntar o caminho p-p-para o d-d-dormit&#243;rio&#187;, disse tremendo o judeu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Ah! Eh! Ih! &lt;span&gt;Oh! Uh!&#187;, foi a resposta de Gyp, que tirou da algibeira um caderno e um l&#225;pis e se deu um ar importante; &#171;eu sou uma pessoa importante aqui no col&#233;gio e quero saber que diabo queres ir fazer l&#225; acima ao dormit&#243;rio.&#187; Gyp fez uma cara severa e pareceu disposto a escrever. Parecia assim um pol&#237;cia tomando notas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Eu t-t-t p-p-p r-r-r a-a-a-a- e-e&#187;, explicou Zacarias aterrorizado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Entendeste?&#187;, perguntou Mel, rindo a bandeiras despregadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Explica-te&#187;, berrou Gyp para o judeu. Como este n&#227;o se explicou, Gyp deu-lhe um murro no nariz e disse-lhe com um ar importante que por esta vez o deixaria ir livre de castigo, pois que era um rapaz novo. O judeu muito contente desapareceu com os companheiros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Que chamas a estes?&#187;, perguntou Gyp aos companheiros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Bestinhas&#187;, respondeu Mel com um gesto de desd&#233;m.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Criancinhas&#187;, foi a explica&#231;&#227;o do china que, fiel ao recreio do seu pa&#237;s, foi brincar com um papagaio (de papel, n&#227;o o p&#225;ssaro).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste momento chegou outro rapaz ao qual os outros chamaram Don. Tinha cabelo escuro e era pela altura de Gyp. O seu verdadeiro nome era Donald Dowson, e Don era abreviatura do seu primeiro nome. Vinha com um irm&#227;o g&#233;meo chamado Ricardo, e, familiarmente, Dick.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Os col&#233;gios ingleses s&#227;o divididos em casas unidas por um corredor. No Col&#233;gio de Barrowby havia duas, presididas cada uma por um professor. &#171;Don&#187; Dowson pertencia &#224; casa maior, do Senhor Pedra, e o seu g&#233;meo &#224; casa mais pequena &#8212; a do Senhor Silva. Don Dowson, Mel, Gyp e o China habitavam um quarto separado (um daqueles a que acima me referi).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Don estava conversando com Mel e Gyp quando entrou no terreno pela cancela um rapaz um pouco alto (mas n&#227;o t&#227;o alto como Mel), muito magro e com uma cara muito esquisita e ainda mais cadav&#233;rica que a da senhora do Doutor e das suas filhas. Chegou este rec&#233;m-chegado ao p&#233; da porta e perguntou, dirigindo-se a Gyp com um desembara&#231;o admir&#225;vel, onde era a casa do administrador.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Procura tu, cara de garrafa partida&#187;, disse zangado Gyp.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Agradecido, olhos de janela&#187;, respondeu o rec&#233;m-vindo sem se agitar, referindo-se aos &#243;culos de Gyp. Ia entrando, quando Gyp o parou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Olha c&#225;&#187;, retorquiu Gyp, tirando os &#243;culos para brigar, e chegando a sua cara ao p&#233; da do rapaz novo, de maneira que havia s&#243; a dist&#226;ncia de dois cent&#237;metros entre o seu nariz e o do magrizela, &#171;n&#243;s n&#227;o queremos um peda&#231;o de tripa podre neste col&#233;gio. Ouves?&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Tendo ouvidos, &#233; natural... E, ouve c&#225;; se n&#227;o querem aqui um peda&#231;o de tripa, por que &#233; que te n&#227;o vais embora?&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mel e Don sorriram; em batalha de esp&#237;rito vencia facilmente o rec&#233;m-vindo, cujo nome era Ralph Tig. Vendo que assim nada ganhava, Gyp perguntou a Tig se queria brigar ao soco com ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Com muito prazer&#187;, disse Tig t&#227;o calmamente que Gyp, que esperara medo, ficou um tanto confuso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#171;Agarra aqui no meu chap&#233;u, Mel&#187;, pediu Gyp: &#171;vou-lhe ensinar a n&#227;o ser atrevido.&#187;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gyp atirou-se a Tig, e atirou-lhe um murro &#224; cabeca. Tig esquivou-se agilmente para o lado, e a m&#227;o fechada de Gyp deu de encontro &#224; parede com tal for&#231;a que pareceu ao infeliz dador do soco que se lhe partiam as falanges de todos os dedos. Tig aproveitou a consterna&#231;&#227;o do seu advers&#225;rio e deu-lhe um soco no nariz que fez as l&#225;grimas subirem-lhe aos olhos. Mel e Don, que tinham Gyp como pugilista insigne, ficaram embasbacados. Gyp, enfurecido pela desfeita e pela dor, avan&#231;ou para Tig e quis bater-lhe no est&#244;mago com a m&#227;o esquerda, pois que a direita do&#237;a-lhe muito. Mas Tig saltou para tr&#225;s e o murro valente de Gyp perdeu-se no ar. O &#237;mpeto causado pelo soco na atmosfera fez Gyp avan&#231;ar, sem se poder parar, at&#233; ao p&#233; do seu antagonista. Com a rapidez dum rel&#226;mpago, este deu-lhe um murro no olho esquerdo e depois um no direito, e, quando Gyp, cegado pelas pancadas, ousou levantar a cabe&#231;a, f&#234;-lo trincar a l&#237;ngua com um soco nos queixos. Para evitar mais pancadas enquanto n&#227;o pudesse ver bem, Gyp saltou para tr&#225;s, mas at&#233; nisto foi infeliz. Os seus p&#233;s ca&#237;ram sobre uma casca de banana que ali fora deixada por algum rapaz. Os p&#233;s levantaram-se-lhe do ch&#227;o com uma velocidade espantosa e, batendo na barriga de Mel que estava atr&#225;s, fizeram-no cair por baixo de Gyp, que, infelizmente, lhe caiu sentado sobre a sua boca. Don, que se tinha posto a uma distancia respeit&#225;vel, ria sem parar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(Ilustra&#231;&#245;es no Pr&#243;ximo N.&#186;). (Continua)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;(1) Fisionomista ingl&#234;s: descobriu que a coragem, a pujan&#231;a e a for&#231;a de car&#225;cter pertencem geralmente aos louros e aos de cabelo claro; e que os de cabelo escuro formam a maior parte dos autores, pensadores e malandros no que respeita a arte e n&#227;o for&#231;a bruta. Viveu em 1821-1843. C&#233;lebre fisionomista ingl&#234;s. Elevou a fisionomia a uma ci&#234;ncia e deu-lhe um tal grau de perfei&#231;&#227;o que nunca errava o&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;car&#225;cter duma pessoa. &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;(2) Uma anedota antiga ilustra isto. No reinado de Carlos II, visitou este&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;i&gt; &lt;/i&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;monarca o col&#233;gio de Eton. Mal entrou ergeu-se toda a gente, incluindo o Professor, que era um homem de esp&#237;rito, o Doutor Busby. Conservou este por&#233;m o chap&#233;u na cabe&#231;a. Julgando o rei que isto era esquecimento perguntou-lhe por que n&#227;o se descobria. &#171;Real Senhor&#187;, respondeu Busby, &#171;n&#227;o tiro o chap&#233;u porque me n&#227;o faz conta que os meus alunos pensem que h&#225; algu&#233;m maior que eu!&#187; (Hist&#243;rico.) &lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(3) &#218;nico meio de luta entre rapazes ingleses. Brigar de outro modo numa luta &#233; ser chamado cobarde.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;1&#170; publ. in &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Persona&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;, n&#186;9. Porto: Centro de Estudos Pessoanos, Out. 1983&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>18</pagina>
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    <titulo>OS RAPAZES DE BARROWBY
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Venho dos lados de Beja. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vou para o meio de Lisboa. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o trago nada e n&#227;o acharei nada. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho o cansa&#231;o antecipado do que n&#227;o acharei, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a saudade que sinto n&#227;o &#233; nem no passado nem no futuro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deixo escrita neste livro a imagem do meu des&#237;gnio morto: &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;i&gt;Fui como ervas, e n&#227;o me arrancaram.&lt;/i&gt;
            &lt;/p&gt;
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Presen&#231;a&lt;/b&gt;, n&#186;10. Coimbra: Mar. 1928.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>260</pagina>
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    <titulo>ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;S&#233;timo (II)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;D. FILIPA DE LENCASTRE&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que enigma havia em teu seio &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que s&#243; g&#233;nios concebia?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que arcanjo teus sonhos veio &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Velar, maternos, um dia?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Volve a n&#243;s teu rosto s&#233;rio,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Princesa do Santo Gral,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Humano ventre do Imp&#233;rio,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madrinha de Portugal!&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>26-9-1928</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>33</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>S&#233;timo (II): D. FILIPA DE LENCASTRE
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Vaga, no azul amplo solta,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vai uma nuvem errando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O meu passado n&#227;o volta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o &#233; o que estou chorando.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;O que choro &#233; diferente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Entra mais na alma da alma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas como, no c&#233;u sem gente,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A nuvem flutua calma,&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;E isto lembra uma tristeza&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a lembran&#231;a &#233; que entristece,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dou &#224; saudade a riqueza&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De emo&#231;&#227;o que a hora tece.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Mas, em verdade, o que chora&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na minha amarga ansiedade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais alto que a nuvem mora,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Est&#225; para al&#233;m da saudade.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sei o que &#233; nem consinto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#192; alma que o saiba bem&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Visto da dor com que minto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dor que a minha alma tem.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>20-3-1931</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>134</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Vaga, no azul amplo solta,
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Quem me amarrou a ser eu&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fez-me uma grande partida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Debaixo deste amplo c&#233;u,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o tenho vinda nem ida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sou apenas um ser meu.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Nem isso... Anda tudo &#224; volta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A retirar-me de mim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece uma fera &#224; solta&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este mundo que anda assim&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A servir-me de m&#225; escolta.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Quando encontrar a verdade&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hei-de ver se hei-de fugir,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pelo menos em metade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois ficarei a rir&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Da minha tranquilidade.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <data>16-6-1934</data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>105</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Quem me amarrou a ser eu
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">9</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Fernando Pessoa e a Literatura de Fic&#231;&#227;o&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Maria Leonor Machado de Sousa. Lisboa: Novaera, 1978&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;A VERY ORIGINAL DINNER&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;(Texto ingl&#234;s original n&#227;o dispon&#237;vel; consultar a bibliografia indicada.)&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:35+01:00</created-at>
    <data></data>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina></pagina>
    <poesia type="boolean">false</poesia>
    <titulo>A VERY ORIGINAL DINNER
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">5</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Poesias de &#193;lvaro de Campos&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: &#193;tica, 1944 (imp. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;APOSTILA&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas o que &#233; o tempo, que eu o aproveite? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nenhum dia sem linha... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O trabalho honesto e superior... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O trabalho &#224; Virg&#237;lio, &#224; Milton... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas &#233; t&#227;o dif&#237;cil ser honesto ou superior! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; t&#227;o pouco prov&#225;vel ser Milton ou ser Virg&#237;lio!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tirar da alma os bocados precisos &#8212; nem mais nem menos &#8212; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Para com eles juntar os cubos ajustados &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que fazem gravuras certas na hist&#243;ria &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;(E est&#227;o certas tamb&#233;m do lado de baixo que se n&#227;o v&#234;)... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;P&#244;r as sensa&#231;&#245;es em castelo de cartas, pobre China dos ser&#245;es, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E os pensamentos em domin&#243;, igual contra igual, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a vontade em carambola dif&#237;cil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imagens de jogos ou de paci&#234;ncias ou de passatempos &#8212; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Verbalismo...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sim, verbalismo...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o ter um minuto que o exame de consci&#234;ncia desconhe&#231;a...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o ter um acto indefinido nem fact&#237;cio...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o ter um movimento desconforme com prop&#243;sitos...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Boas maneiras da alma...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eleg&#226;ncia de persistir...&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu cora&#231;&#227;o est&#225; cansado como mendigo verdadeiro. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu c&#233;rebro est&#225; pronto como um fardo posto ao canto. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meu canto (verbalismo!) est&#225; tal como est&#225; e &#233; triste. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitei-os ou n&#227;o? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se n&#227;o sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No comboio suburbano, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Chegaste a interessar-te por mim? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aproveitei o tempo olhando para ti?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qual foi o entendimento que n&#227;o cheg&#225;mos a ter? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Aproveitar o tempo! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ah, deixem-me n&#227;o aproveitar nada! &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nem tempo, nem ser, nem mem&#243;rias de tempo ou de ser!... &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deixem-me ser uma folha de &#225;rvore, titilada por brisa, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A poeira de uma estrada involunt&#225;ria e sozinha, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto n&#227;o v&#234;m outras, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pi&#227;o do garoto, que vai a parar, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E oscila, no mesmo movimento que o da alma, &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E cai, como caem os deuses, no ch&#227;o do Destino.&lt;/p&gt;
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    <data>11-4-1928</data>
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    <notas>&lt;p&gt;1&#170; publ. in &lt;b&gt;Presen&#231;a&lt;/b&gt;, 2&#170; s&#233;rie, n&#186; 1. Coimbra: Nov. 1939.&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>261</pagina>
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    <titulo>APOSTILA
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    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
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    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Primeira&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;D. DUARTE&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;REI DE PORTUGAL&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A regra de ser Rei almou meu ser,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em dia e letra escrupuloso e fundo.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Firme em minha tristeza, tal vivi. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cumpri contra o Destino o meu dever. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inutilmente? N&#227;o, porque o cumpri.&lt;/p&gt;
</conteudo>
    <created-at type="datetime">2008-06-11T07:56:35+01:00</created-at>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
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    <pagina>37</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Primeira: D. DUARTE, REI DE PORTUGAL
</titulo>
    <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:23:57+00:00</updated-at>
  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Poesias.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Nota explicativa de Jo&#227;o Gaspar Sim&#245;es e Luiz de Montalvor.) Lisboa: &#193;tica, 1942 (15&#170; ed. 1995).&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;Hoje que a tarde &#233; calma e o c&#233;u tranquilo,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a noite chega sem que eu saiba bem,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quero considerar-me e ver aquilo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que sou, e o que sou o que &#233; que tem.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Olho por todo o meu passado e vejo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que fui quem foi aquilo em torno meu,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Salvo o que o vago e inc&#243;gnito desejo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De ser eu mesmo de meu ser me deu.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Como a p&#225;ginas j&#225; relidas, vergo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha aten&#231;&#227;o sobre quem fui de mim,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E nada de verdade em mim albergo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Salvo uma &#226;nsia sem princ&#237;pio ou fim.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Como algu&#233;m distra&#237;do na viagem,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Segui por dois caminhos par a par.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fui com o mundo, parte da paisagem;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Comigo fui, sem ver nem recordar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Chegado aqui, onde hoje estou, conhe&#231;o&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que sou diverso no que informe estou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No meu pr&#243;prio caminho me atravesso&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o conhe&#231;o quem fui no que hoje sou.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Serei eu, porque nada &#233; imposs&#237;vel,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;V&#225;rios trazidos de outros mundos, e&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No mesmo ponto espacial sens&#237;vel&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que sou eu, sendo eu por estar aqui?&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Serei eu, porque todo o pensamento&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Podendo conceber, bem pode ser,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um dilatado e m&#250;rmuro momento,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De tempos-seres de quem sou o viver?&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>136</pagina>
    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>Hoje que a tarde &#233; calma e o c&#233;u tranquilo,
</titulo>
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  </texto>
  <texto>
    <autor-id type="integer">1</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Novas Poesias In&#233;ditas. &lt;/b&gt;Fernando Pessoa. (Direc&#231;&#227;o, recolha e notas de Maria do Ros&#225;rio Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: &#193;tica, 1973 (4&#170; ed. 1993).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;J&#225; me n&#227;o pesa tanto o vir da morte.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sei j&#225; que &#233; nada, que &#233; fic&#231;&#227;o e sonho,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que, na roda universal da Sorte,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o sou aquilo que me aqui suponho.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sei que h&#225; mais mundos que este pouco mundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Onde parece a n&#243;s haver morrer &#8212;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dura terra e fragosa, que h&#225; no fundo&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do oceano imenso de viver.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Sei que a morte, que &#233; tudo, n&#227;o &#233; nada,&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E que, de morte em morte, a alma que h&#225;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;N&#227;o cai num po&#231;o: vai por uma estrada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em Sua hora e a nossa, Deus dir&#225;.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
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    <poesia type="boolean">true</poesia>
    <titulo>J&#225; me n&#227;o pesa tanto o vir da morte.
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  <texto>
    <autor-id type="integer">10</autor-id>
    <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Fic&#231;&#227;o e Teatro.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa. (Introdu&#231;&#227;o, organiza&#231;&#227;o e notas de Ant&#243;nio Quadros.) Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;N&#227;o h&#225; maior trag&#233;dia do que a igual intensidade, na mesma alma ou no mesmo homem, do sentimento intelectual e do sentimento moral. Para que um homem seja distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco est&#250;pido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral. N&#227;o sei que jogo ou ironia das coisas condena o homem &#224; impossibilidade desta dualidade em grande. Por meu mal, ela d&#225;-se em mim. N&#227;o foi o excesso de uma qualidade, mas o excesso de duas, que me matou para a vida.&lt;/p&gt;
</conteudo>
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    <notas>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;1&#170; publ. in &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Obra Po&#233;tica&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;. Fernando Pessoa. (Organiza&#231;&#227;o, introdu&#231;&#227;o e notas de Maria Aliete Galhoz.). Rio de Janeiro: Ed. Jos&#233; Aguilar, 1960&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</notas>
    <pagina>45</pagina>
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    <titulo>N&#227;o h&#225; maior trag&#233;dia do que a igual intensidade,
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    <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Mensagem&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria Ant&#243;nio Maria Pereira, 1934 (Lisboa: &#193;tica, 10&#170; ed. 1972).&lt;/p&gt;
</biblio>
    <conteudo>&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Segunda&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;D. FERNANDO&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;INFANTE DE PORT