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  <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. (Recolha e transcri&#231;&#227;o dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Pref&#225;cio e Organiza&#231;&#227;o de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: &#193;tica, 1982.&lt;/p&gt;
</biblio>
  <conteudo>&lt;p&gt;A ren&#250;ncia &#233; a liberta&#231;&#227;o. N&#227;o querer &#233; poder.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Que me pode dar a China que a minha alma me n&#227;o tenha j&#225; dado? E, se a minha alma mo n&#227;o pode dar, como mo dar&#225; a China, se &#233; com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas n&#227;o riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Compreendo que viaje quem &#233; incapaz de sentir. Por isso s&#227;o t&#227;o pobres sempre como livros de experi&#234;ncia os livros de viagens, valendo somente pela imagina&#231;&#227;o de quem os escreve. E se quem os escreve tem imagina&#231;&#227;o, tanto nos pode encantar com a descri&#231;&#227;o minuciosa, fotogr&#225;fica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descri&#231;&#227;o, for&#231;osamente menos minuciosa, das paisagens que sup&#244;s ver. Somos todos m&#237;opes, excepto para dentro. S&#243; o sonho v&#234; com (o) olhar.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;No fundo, h&#225; na nossa experi&#234;ncia da terra duas coisas &#8212; o universal e o particular. Descrever o universal &#233; descrever o que &#233; comum a toda a alma humana e a toda a experi&#234;ncia humana &#8212; o c&#233;u vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios &#8212; todos da mesma &#225;gua sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as esta&#231;&#245;es, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, m&#227;e da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que &#233; tudo... Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma ad&#226;mico que todos entendem. Mas que linguagem estilha&#231;ada e bab&#233;lica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os cal&#231;&#245;es dos zuavos, a maneira como o portugu&#234;s se pronuncia em Tr&#225;s-os-Montes? Estas coisas s&#227;o acidentes da superf&#237;cie; podem sentir-se com o andar mas n&#227;o com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa &#233; universal &#233; a mec&#226;nica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims &#233; verdade n&#227;o &#233; a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edif&#237;cios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos cal&#231;&#245;es dos zuavos &#233; eterno &#233; a fic&#231;&#227;o colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que &#233; em seu modo uma nova nudez. O que nas pron&#250;ncias locais &#233; universal &#233; o timbre caseiro das vozes de gente que vive espont&#226;nea, a diversidade dos seres juntos, a sucess&#227;o multicolor das maneiras, as diferen&#231;as dos povos, e a vasta variedade das na&#231;&#245;es.&lt;/p&gt;
&lt;p /&gt;
&lt;p&gt;Transeuntes eternos por n&#243;s mesmos, n&#227;o h&#225; paisagem sen&#227;o o que somos. Nada possu&#237;mos, porque nem a n&#243;s possu&#237;mos. Nada temos porque nada somos. Que m&#227;os estenderei para que universo? O universo n&#227;o &#233; meu: sou eu.&lt;/p&gt;
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  <created-at type="datetime">2008-06-11T07:58:08+01:00</created-at>
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  <notas>"Fase confessional", segundo Ant&#243;nio Quadros (org.) in &lt;b&gt;Livro do Desassossego, por Bernardo Soares&lt;/b&gt;, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-Am&#233;rica, 1986.</notas>
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  <titulo>A ren&#250;ncia &#233; a liberta&#231;&#227;o. N&#227;o querer &#233; poder.
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  <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:24:01+00:00</updated-at>
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