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Arquivo Pessoa

OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
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Fernando Pessoa

Ah, quanta vez, na hora suave

Ah, quanta vez, na hora suave

Em que me esqueço,

Vejo passar um voo de ave

E me entristeço!

Porque é ligeiro, leve, certo

No ar de amavio?

Porque vai sob o céu aberto

Sem um desvio?

Porque ter asas simboliza

A liberdade

Que a vida nega e a alma precisa?

Sei que me invade

Um horror de me ter que cobre

Como uma cheia

Meu coração, e entorna sobre

Minha alma alheia

Um desejo, não de ser ave,

Mas de poder

Ter não sei quê do voo suave

Dentro em meu ser.

5-8-1921

Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).

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