<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<texto>
  <autor-id type="integer">1</autor-id>
  <biblio>&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;
                &lt;b&gt;Sobre Portugal - Introdu&#231;&#227;o ao Problema Nacional.&lt;/b&gt;
              &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mor&#227;o. Introdu&#231;&#227;o organizada por Joel Serr&#227;o.) Lisboa: &#193;tica, 1979.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</biblio>
  <conteudo>&lt;p&gt;H&#225; tr&#234;s esp&#233;cies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, h&#225; tr&#234;s esp&#233;cies de portugu&#234;s. Um come&#231;ou com a nacionalidade: &#233; o portugu&#234;s t&#237;pico, que forma o fundo da na&#231;&#227;o e o da sua expans&#227;o num&#233;rica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este portugu&#234;s encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e &#233; por isso que a na&#231;&#227;o existe tamb&#233;m.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Outro &#233; o portugu&#234;s que o n&#227;o &#233;. Come&#231;ou com a invas&#227;o mental estrangeira, que data, com verdade poss&#237;vel, do tempo do Marqu&#234;s de Pombal. Esta invas&#227;o agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a Rep&#250;blica. Este portugu&#234;s (que &#233; o que forma grande parte das classes m&#233;dias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) &#233; o que governa o pa&#237;s. Est&#225; completamente divorciado do pa&#237;s que governa. &#201;, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, &#233; est&#250;pido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;H&#225; um terceiro portugu&#234;s, que come&#231;ou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, come&#231;ou, de Na&#231;&#227;o, a esbo&#231;ar-se Imp&#233;rio. Esse portugu&#234;s fez as Descobertas, criou a civiliza&#231;&#227;o transoce&#226;nica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alc&#225;cer Quibir, mas deixou alguns parentes, que t&#234;m estado sempre, e continuam estando, &#224; espera dele. Como o &#250;ltimo verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebasti&#227;o que caiu em Alc&#225;cer Quibir, e presumivelmente ali morreu, &#233; no s&#237;mbolo do regresso de El-Rei D. Sebasti&#227;o que os portugueses da saudade imperial projectam a sua f&#233; de que a fam&#237;1ia se n&#227;o extinguisse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estes tr&#234;s tipos do portugu&#234;s t&#234;m uma mentalidade comum, pois s&#227;o todos portugueses mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-os entre si. O portugu&#234;s, no seu fundo ps&#237;quico, define-se, com razo&#225;vel aproxima&#231;&#227;o, por tr&#234;s caracter&#237;sticos: (1) o predom&#237;nio da imagina&#231;&#227;o sobre a intelig&#234;ncia; (2) o predom&#237;nio da emo&#231;&#227;o sobre a paix&#227;o; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro caracter&#237;stico distingue-se, por contraste, do ego antigo, com quem se parece muito na rapidez da adapta&#231;&#227;o e na consequente inconst&#226;ncia e mobilidade. Pelo segundo caracter&#237;stico distingue-se, por contraste, do espanhol m&#233;dio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro distingue-se do alem&#227;o m&#233;dio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alem&#227;o &#233; racional e firme, a do portugu&#234;s instintiva e inst&#225;vel.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A cada um destes tipos de portugu&#234;s corresponde um tipo de literatura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O portugu&#234;s do primeiro tipo &#233; exactamente isto, pois &#233; ele o portugu&#234;s normal e t&#237;pico. O portugu&#234;s do tipo oficial &#233; a mesma coisa com &#225;gua; a imagina&#231;&#227;o continuar&#225; a predominar sobre a intelig&#234;ncia, mas n&#227;o existe; a emo&#231;&#227;o continua a predominar sobre a paix&#227;o, mas n&#227;o tem for&#231;a para predominar sobre coisa nenhuma; a adaptabilidade mant&#233;m-se, mas &#233; puramente superficial &#8212; de assimilador, o portugu&#234;s, neste caso, torna-se simplesmente mim&#233;tico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
              &lt;span&gt;O portugu&#234;s do tipo imperial absorve a intelig&#234;ncia com a imagina&#231;&#227;o &lt;/span&gt;
              &lt;span&gt;&#8212;&lt;/span&gt;
              &lt;span&gt; a imagina&#231;&#227;o &#233; t&#227;o forte que, por assim dizer, integra a intelig&#234;ncia em si, formando uma esp&#233;cie de nova qualidade mental. Da&#237; os Descobrimentos, que s&#227;o um emprego intelectual, at&#233; pr&#225;tico, da imagina&#231;&#227;o. Da&#237; a falta de grande literatura nesse tempo (pois Cam&#245;es, conquanto grande, n&#227;o est&#225;, nas letras, &#224; altura em que est&#227;o nos feitos o Infante D. Henrique e o imperador Afonso de Albuquerque, criadores respectivamente do mundo moderno e do imperialismo moderno) (?). E esta nova esp&#233;cie de mentalidade influi nas outras duas qualidades mentais do portugu&#234;s: por influ&#234;ncia dela a adaptabilidade torna-se activa, em vez de passiva, e o que era habilidade para fazer tudo torna-se habilidade para ser tudo.&lt;/span&gt;
            &lt;/p&gt;
</conteudo>
  <created-at type="datetime">2008-06-11T07:59:06+01:00</created-at>
  <data>s.d.</data>
  <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
  <id type="integer">3477</id>
  <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
  <pagina>6</pagina>
  <poesia type="boolean">false</poesia>
  <titulo>H&#225; tr&#234;s esp&#233;cies de Portugal, dentro do mesmo Portugal;
</titulo>
  <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:24:03+00:00</updated-at>
</texto>
