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OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
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Álvaro de Campos

A coisa estranha e muda em todo o corpo,

A coisa estranha e muda em todo o corpo,

Que está ali, ebúrnea, no caixão,

O corpo humano que não é corpo humano

Que ali se cala em todo o ambiente;

O cais deserto que ali aguarda o incógnito

O assombro álgido ali entreabrindo

A porta suprema e invisível;

O nexo incompreensível

Entre a energia e a vida,

Ali janela para a noite infinita...

Ele — o cadáver do outro,

Evoca-me do futuro

[Eu próprio dois?], ou nem assim...

E embandeiro em arco a negro as minhas esperanças

Minha fé cambaleia como uma paisagem de bêbedo,

Meus projectos tocam um muro infinito até infinito.

1926?

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

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