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Arquivo Pessoa

OBRA ÉDITA · FACSIMILE · INFO
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Fernando Pessoa

[Carta a Adriano del Valle - 1 Jun. 1924]

D. Adriano del Valle:

Querido e apreciado amigo:

Mando-lhe amanhã, registados, mais dois livros. Não os mandei antes, porque não sabia se valia a pena fazer o envio durante a semi-greve postal. Agora, que, embora a greve ainda dure, os serviços postais estão quase normalizados, faço a remessa.

Vão «O País das Uvas», de Fialho d'Almeida — autor e obra consagrados, e onde vêm o conto «Os Pobres», prodigioso pelo estilo, e o curioso «Três Cadáveres»; e o «Leomil», de António de Séves, escritor novo, de grande valor, que neste seu primeiro livro faz um regionalismo curioso, diferente do que há às vezes no Aquilino.

Estou certo que há-de gostar dos dois livros. O «Leomil» é por vezes difícil de ler, quando os termos regionais se acumulam, mas tem trechos notáveis de vigor, desenho e «canto».

Que tem feito? Que é feito do Rogelio Buendía? Nunca mais soube d'ele.

De aqui poucas notícias posso dar-lhe. Há muitos meses que não vejo o Porfírio. O António Botto continua em África. Quem com certeza está em Lisboa, dos que lhe são conhecidos, é o Raul Leal, a quem costumo ver frequentemente, mas que, aliás, há bastantes dias não vejo.

Saiu um número 10 da «Contemporânea»; vem péssimo, salvo quanto a um ou dois elementos, entre os quais (sem favor) o seu prefácio ao livro do Vando-Villar.

Ando agora muito afastado do meio literário e dos seus arredores. Não ando afastado propositadamente, ou por qualquer razão. Automaticamente assim tem acontecido. Trabalho sempre, em uma coisa ou em outra, mas não tenho pressa. Se alguma vez eu tiver que ser admitido à presença e ao tempo dos deuses, dos deuses, que não de mim, depende.

Escreva-me sempre que possa. Sabe quanto aprecio notícias suas.

Peço que dê os meus respeitos a sua esposa, e que aceite um grande abraço de muito apreço e amizade do seu

(a) Fernando Pessoa.

Lisboa, 1 de Junho de 1924.

Apartado 147.

1-6-1924

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

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