<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<texto>
  <autor-id type="integer">1</autor-id>
  <biblio>&lt;p&gt;&lt;b&gt;Pessoa In&#233;dito&lt;/b&gt;. Fernando Pessoa. (Orienta&#231;&#227;o, coordena&#231;&#227;o e pref&#225;cio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.&lt;/p&gt;
</biblio>
  <conteudo>&lt;p&gt;O movimento de qualquer composi&#231;&#227;o liter&#225;ria &#233; o da onda. Divide-se em tr&#234;s, quatro, ou cinco tempos esse movimento, consoante a maneira como se decomponha para a nossa an&#225;lise.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O movimento da ode consiste essencialmente em tr&#234;s tempos, e, como o da ode, o de toda a poesia l&#237;rica. O movimento est&#225; tradicionalmente gravado na estrofe, ant&#237;strofe e epodo da ode grega. O primeiro tempo corresponde &#224; lenta subida da onda, ao chegar &#224; praia; o segundo movimento corresponde &#224;quele tempo em que a onda reflui sobre si pr&#243;pria, curvando-se; o terceiro tempo corresponde &#224;quele gesto da vaga quando, findo o movimento anterior, se espraia e alonga pela areia. &#8212; Assim, pois, as rela&#231;&#245;es entre a estrofe e a ant&#237;strofe s&#227;o as seguintes: a ant&#237;strofe procede da estrofe, ou prolonga-a; e, ao mesmo tempo, op&#245;e-se-lhe; assim como, ao faz&#234;-lo, a faz culminar. &#8212; As rela&#231;&#245;es entre a ant&#237;strofe e o epodo s&#227;o an&#225;logas, posto que n&#227;o iguais. O epodo ao mesmo tempo que prolonga a ant&#237;strofe (?), liga, por cima d'ela, com a estrofe; e, ao fazer isto, completa o movimento ideativo posto na estrofe, que a ant&#237;strofe ao mesmo tempo prolongou e interrompeu. &#8212; E o movimento tese-ant&#237;tese-s&#237;ntese da dial&#233;ctica plat&#243;nica. Foi a grande descoberta dos gregos na arte esta da estrutura&#231;&#227;o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O movimento do drama consiste de quatro tempos. Temos a prepara&#231;&#227;o, onde se exp&#245;em e se delimitam os conceitos tem&#225;ticos; o desenvolvimento d'eles; o cl&#237;max, ou auge, a que chegam; e, por fim, a queda, pela solu&#231;&#227;o do conflito que se representou. &#8212; Na onda, tamb&#233;m, podemos dividir o movimento nestes quatro tempos. &#8212; Primeiro a onda avan&#231;a recurva, e sobe para a sua crista; depois (2&#186; tempo) curva em sentido contr&#225;rio; a seguir (3&#186;) move-se na curva oposta, que &#233; j&#225; no sentido do primitivo movimento; por fim (&lt;sub&gt;4&lt;/sub&gt;&#186;, e &#250;ltimo, tempo) estende-se no alastre final. Repare-se em como a estrutura de qualquer drama corresponde a esta classifica&#231;&#227;o anal&#237;tica dos tempos do ritmo do mar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#8212; No l&#186; acto natural a situa&#231;&#227;o &#233; posta e esbo&#231;ados os termos do conflito que vai desenvolver-se; tanto quanto &#233; poss&#237;vel dizer-se tal de uma coisa em movimento, h&#225; um elemento est&#225;tico (porque na onda o h&#225; quase horizontal) neste acto. No 2&#186; acto natural desenvolvem-se os elementos dados no l&#186; acto; e, enquanto no 1&#186; se punham as situa&#231;&#245;es de onde havia de nascer a possibilidade do conflito, no 2&#186; determina-se a situa&#231;&#227;o de onde o conflito h&#225;-de nascer. No &lt;sub&gt;3&#186; &lt;/sub&gt;acto natural d&#225;-se o conflito. No 4&lt;sub&gt;&#186;&lt;/sub&gt; resolve-se. O movimento r&#237;tmico do 3&lt;sub&gt;&#186;&lt;/sub&gt; acto natural &#233; no sentido do do 1&lt;sub&gt;&#186;&lt;/sub&gt;, porque o conflito nele se d&#225;, e na curva do 2&lt;sub&gt;&#186;&lt;/sub&gt;, porque desenvolve o seu movimento culminado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fica, desde j&#225;, compreendido porque &#233; que o final dos poemas e das outras obras liter&#225;rias da Gr&#233;cia &#233; calmo; porque o fim da onda, o seu espraiar-se est&#225; ao mesmo n&#237;vel que o princ&#237;pio, e o princ&#237;pio tem de ser calmo, porque &#233; o princ&#237;pio. O fim regressa ao n&#237;vel do princ&#237;pio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O drama pode ser dividido em tantos actos, quantos se queira. Mas, naturalmente, tem quatro actos. Assim o ensina a intui&#231;&#227;o grega, filosoficamente desdobrada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A epopeia, e toda a narrativa liter&#225;ria, baseia-se, n&#227;o como a ode em tr&#234;s, ou o drama em quatro, tempos, mas em um movimento de cinco tempos, que &#233; o mais largo em que se pode dividir o movimento da onda. Os movimentos s&#227;o os quatro do drama, mas o cimo da onda, o ponto de passagem da curva no sentido inverso, para a curva no pr&#243;prio sentido, da direc&#231;&#227;o da onda, &#233; considerado como, tamb&#233;m, um tempo do movimento. Assim, os cinco tempos do movimento &#233;pico s&#227;o: (1) prepara&#231;&#227;o, (2) desenvolvimento, (3) segunda prepara&#231;&#227;o, (4) decis&#227;o, (5) fim. &#8212; Ocorrer&#225; perguntar porque &#233; que se chama decis&#227;o e cl&#237;max ao movimento recurvo da onda, quando se move j&#225; no sentido da sua direc&#231;&#227;o primeira, e se n&#227;o chama &#8212; pelo menos nesta qu&#237;ntupla divis&#227;o &#8212; o auge, ou o cl&#237;max, ao seu auge vis&#237;vel, que &#233; quando a onda passa no seu ponto mais alto. &#201; que &#8212; repare-se bem &#8212; em tudo isto se estuda o ritmo e n&#227;o a altura; a altura da onda n&#227;o entra na compara&#231;&#227;o, nem serve de base. &#201; o seu ritmo apenas, e a sua altura s&#243; como serva do seu ritmo, que entram no problema. O auge da onda, em altura, &#233; o seu ponto de m&#225;xima altura; mas o auge da onda, em ritmo, &#233; o seu ponto de definitiva direc&#231;&#227;o. Esse ponto &#233; quando, j&#225; sem retorno poss&#237;vel, se dirige para o ponto para onde a sua direc&#231;&#227;o a encaminhou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&#201; evidente que o que se diz aqui da ode, se aplica, na prosa, &#224; obra que n&#227;o cont&#233;m narrativa, mas apenas impress&#227;o; que o que se diz aqui do drama, se aplica ao drama em prosa, como ao em verso; que o que se diz aqui da epopeia, e por implica&#231;&#227;o de qualquer poema narrativo, se sup&#245;e dito de, na prosa, a narrativa de qualquer esp&#233;cie, seja conto, ou novela, ou romance extenso.&lt;/p&gt;
</conteudo>
  <created-at type="datetime">2008-06-11T07:59:26+01:00</created-at>
  <data>s.d.</data>
  <duvida-autoria type="boolean">false</duvida-autoria>
  <id type="integer">3915</id>
  <notas>&lt;p&gt;&#160;&lt;/p&gt;
</notas>
  <pagina>243</pagina>
  <poesia type="boolean">false</poesia>
  <titulo>O movimento de qualquer composi&#231;&#227;o liter&#225;ria &#233; o da onda.
</titulo>
  <updated-at type="datetime">2009-12-26T12:24:04+00:00</updated-at>
</texto>
